quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CAVALO DE GUERRA - ...ter esperança no meio do caos.

Cavalo de Guerra conta a história da amizade entre um jovem agricultor inglês, Albert, e um cavalo de puro-sangue, Joye, que acabam separados pela guerra .

O filme tem todas as virtudes e defeitos de um filme épico, à antiga.

Penso, contudo, que essa característica é totalmente assumida por Spielberg, que usa toda a sua mestria para nos agarrar do princípio ao fim a um tipo de filme que não está na moda e por isso tem merecido algum desprezo por parte da crítica e foi um dos derrotados da noite dos óscares.

Joey, o cavalo, é a figura principal deste filme, mudando de nome várias vezes ao longo da história, tantas quantas as que se cruza com várias personagens, na sua travessia pelo cenário da Primeira Guerra.

O seu sofrimento inocente face ao horror daquele conflito, onde ainda se cruzavam tácticas quase medievais, como a utilização da cavalaria, com as primeiras experiências das armas de destruição maciça ( metralhadoras, artilharia pesada, carros de combate,…) , enfatiza a empatia que personagens diferentes sentem pelo cavalo a quem se agarram como um último fôlego de humanidade: um oficial britânico que morre em combate, dois jovens irmão, soldados alemães, que desertam fugindo com Joey e outro cavalo que, até morrer esgotado, o seguirá ao longo do filme, a criança duma quinta que os esconde, enquanto pode, do exército alemão invasor, e um soldado alemão que tenta proteger os cavalos do duro trabalho de transportar canhões colina acima.

O encontro de Joey com várias personagens acentua o lado humano destas, deixando-nos um sinal de esperança mesmo quando se experimenta o horror total de uma guerra.

O cavalo, que segundo consta, na produção do filme não terá sido representado sempre pelo mesmo animal, resultando até da animação em computador de marionetas, acaba por nos sensibilizar para a degradação provocada pela guerra e para o sofrimento que ela pode gerar, não só aos homens , mas também aos animais envolvidos, uma perspectiva que nem sempre está presente nos filmes de guerra.

Na primeira cena de guerra do filme, a carga da cavalaria inglesa sobre um acampamento alemão, que parece anunciar uma vitória fácil, é bem simbólica da grande mudança táctica que essa guerra provocou, quando, logo a seguir, essa aparente vitória esconde a existência de novas armas, como as metralhadoras, que ceifam a vida de cavalos e cavaleiros, revelando a inutilidade do uso dos cavalos para a guerra.

É então que as qualidades militares dos cavalos se degrada, passando a ser usados, até à exaustão para as tarefas mais violentas, acentuando a degradação dos animais.

Ficamos a conhecer o modo como a utilização dos cavalos no esforço de guerra foi um dos elementos da desumanização deste conflito, já que, estando-se perante um ser inocente, sem capacidade de escolher o seu destino, a forma degradante como foram usado no conflito, evidencia o lado criminoso da guerra.

Em contrapartida, o modo como esse cavalo luta contra o seu destino, dá-nos um sinal de esperança no meio do terror, como naquela cena em que ele, “desesperado” com a morte do outro cavalo que o acompanhou nas suas aventuras, se lança pela “terra-de-ninguém” entre as trincheiras , acabando enredado no arame farpado, sendo salvo pela colaboração dos soldados de ambas as forças em confronto que, nesse acto, interrompem a absurda mortandade irracional que os opunha.

O facto do principal personagem desse filme ser um “animal irracional” acentua a mensagem humana do filme: diz-me como tratas os animais, dir-te-ei como tratarás as pessoas.

Ao mesmo tempo , o horror das cenas de guerra deste filme, é um sério aviso para o momento que vivemos, onde cada vez mais, os “tambores da guerra” se começam a fazer ouvir, por enquanto ainda em surdina mas, se nada se fizer, se nos esquecermos do humanismo e da memória de um passado de horror, rapidamente se tornará no som das nossas vidas.

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