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sexta-feira, 24 de abril de 2026

O 25 de Abril de 1974 e as “novas”narrativas

                                        
Nos últimos tempos tenho tido a oportunidade de assistir, nalguns casos até a participar, em várias sessões comemorativas do cinquentenário do 25 de ABRIL.

Muitas dessas sessões tem tido, como actividade central, a apresentação de estudos universitários, com as mais diversas origens, de historiadores a sociólogos e de antropólogos a politólogos, abordando e interpretando esse evento histórico.

Muitas dessas intervenções, principalmente quando têm origem em gerações que nunca viveram esse momento histórico, em especial se oriundos da chamada ciência política, não tanto da ciência histórica, têm tendência, acredito que involuntariamente, para fazerem um certo branqueamento e enviesamento histórico, eivado de preconceitos ideológicos actuais, sobre esse período.

Percebo que muita da dificuldade em estudar um determinado momento histórico, que não vivemos, advém de se tentar interpretá-lo com base num determinado esquema académico e mental preconcebido, contaminado pelo conhecimento à posterior do resultado de alguns desses factos estudados e pelas opções ideológicas dominantes em épocas diferentes, assim como pelo abuso da moda contrafactual.

Noto, aliás, uma grande diferença entre historiadores e politólogos na forma como interpretam o tema.

Os primeiros, mais experientes na análise e interpretação de documentos, cientes da evolução historiográfica, são os que mais se aproximam da realidade, principalmente se despidos de preconceitos ideológicos, como é timbre da historiografia moderna.

Já os segundos, mais preocupados em estabelecer modelos rígidos e muitos marcados pelas temáticas e pelas tendências e debates ideológicos contemporâneos, revelam uma narrativa mais preconceituosa, tendenciosa  e selectiva.

Tentar arrumar as dinâmicas do período do 25 de Abril em modelos muito rígidos de interpretação, dividindo essa realidade em “bons” e “maus”, ou fazendo comparações com os modelos das modernas “democracias liberais”, muitas vezes interpretados a partir das acções e memórias das elites e dos líderes políticos, é esquecer as principais originalidades desse processo.

Talvez, não por acaso, a melhor definição/síntese sobre esse processo se deva, não a um historiador, não a um politólogo, não a um sociólogo, não a um líder político, mas a uma poetisa. Refiro-me a Sophia de Mello Breyner Andresen, que, num poema, justamente intitulado “25 de Abril”, melhor o definiu: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”.

Esse “dia inicial” foi mesmo assim vivido pelos portugueses desse tempo, onde todos os desejos e todos os sonhos pareciam estar ao alcance de cada um, mesmo que muitos desses desejos e sonhos fossem diferentes, de pessoa para pessoa, tornando difícil um efectivo controle politico sobre as muitas acções emancipadoras.

A “liberdade”, entendida muitas vezes de forma diferente pelos quase 10 milhões de portugueses que então habitavam o solo pátrio, foi outra das principais componentes desse movimento que extravasava partidos, ideologias e lideranças.

As muitas tentativas de travar ou controlar esse ímpeto só tiveram êxito à custa de muita propaganda, paga pelas mais diversas agências internacionais, e de uma intervenção militar musculada, mas limitada, pois não conseguiu travar o carácter transformador, democrático e libertário desse processo.

O desejo de “paz,  pão, habitação, saúde, educação”, que define a “liberdade a sério” que só se atinge “quando houver liberdade de mudar e decidir”, resumida nos versos da conhecida canção de Sérgio Godinho, ficaram para além da realidade imposta e marcaram em definitivo o carácter inovador e transformador desse processo, fazendo do 25 de Abril, ao contrário de outras datas, uma data sempre em aberto, sempre “composta de mudança” (Camões cantado por José Mário Branco).

Perceber o 25 de Abril, para além de só poder ser percebido por quem o viveu, por quem, numa data, viveu todos os momentos transformadores e contraditórios de uma Revolução Francesa, de uma Revolução Russa, da Libertação do fascismo/nazismo do pós guerra, do Maio de 1968 e, por antecipação, da Queda do Muro de Berlim, só se pode perceber consultando os seus poetas, artistas e cantores, mais que a interpretando   todos os discursos políticos e preconcebidas grelhas de análises “sociológicas” , “historiográficas” e da “ciência política”.

Por isso é tão difícil resumir o 25 de Abril aos ideários preconceituosos dos nossos dias.

terça-feira, 14 de abril de 2026

“Ventureira” da Figueira.


Hergé criou a figura de Oliveira da Figueira, um português representado como um charlatão, um dos raros personagens de origem portuguesa a aparecer nas aventuras de TinTin.

A forma como esse personagem português foi representado por Hergé não escapou à censura salazarista. Em contramão como uma das principais interferências da censura no universo da Banda Desenhada, que obrigava a “aportuguesar” os nomes de heróis estrangeiros da BD publicados em Portugal ( o caso mais famoso foi o do Major Alvega), o português mais famoso da BD franco-belga foi “transformado” num espanhol de Málaga.

A figura do charlatão, vendedor da banha da cobra e de pechisbeque, não se coadunava com o ideal salazarista da representação nacionalista do "português de bem".

Contudo, essa figura representa bem a figura do desenrasca português, aldrabão ingénuo, o "homem novo" que o salazarismo pretendia "construir".

Ingenuidade é um rótulo que não podemos atribuir ao líder da extrema-direita portuguesa.

Já a classificação de charlatão, vendedor da banha da cobra e de aldrabão, cola bem com o nosso Oliveira da Figueira dos tempos modernos, André Ventura, como ontem se viu no “debate” com José Pacheco Pereira na CNN.

Mal criado do principio ao fim, “Ventureira” da Figueira,  mistura alhos com bugalhos, descontextualiza factos, recorre à meia verdade, à falácia e à ignorância atrevida para vender a sua banha da cobra racista  e a sua ideologia de pechibeque.

Que muita gente vá atrás da sua conversa “comprar” as sua bugigangas ideológicas é bem sintomático da ápoca em que vivemos, onde a gritaria ignorante e o recurso a documentação duvidosa leva mais aplausos do que a análise fundamentada e inteligente.

Em Espanha a extrema-direita tem o seu mais perigoso Abascal. A nossa extrema-direita contenta-se, por agora, a apoiar o seu…chavascal, "Ventureira da Figueira"!

segunda-feira, 9 de março de 2026

Os “meus” 10 Presidentes da República

 


Com a tomada de posse de Seguro, já “passaram” por mim 10 Presidentes da República.

Quando nasci era Craveiro Lopes o presidente, mas deste não me lembro, já que foi chutado por Salazar em 1958 e impedido de concorrer a um segundo mandato, por ter contestado o ditador.

De quem me lembro, e “me acompanhou” até aos 18 anos, foi do Américo Tomás, o corta fitas. Vi-o ao vivo quando da inauguração da Escola Técnica (actual Henriques Nogueira) em 1970.

Américo Tomás foi o vencedor das eleições fraudulentas de 1958, onde concorreu contra Humberto Delgado. O susto foi tal, que o processo de eleição presidencial passou a ser por nomeação de um colégio eleitoral controlado pelo regime, o que garantiu a perpetuação de Tomás como presidente.

Há quem diga que o único gesto de coragem do marinheiro foi ter nomeado Marcelo Caetano primeiro-ministro, contra a vontade dos ultras do regime, em 1968, por causa da doença do velho ditador.

De resto, Tomás ficou conhecido pelos seus inenarráveis discursos, motivo de chacota geral. Publicações da oposição transcreviam os seus discursos, forma de, ao mesmo tempo que fugiam à censura, ridicularizarem o regime, tal o “nível” desses discursos.

O segundo presidente da minha vida foi o Spínola, recebido por herói do 25 de Abril, mas que cedo mostrou não estar à altura das circunstâncias, envolvendo-se com grupos terroristas da extrema-direita depois de ter falhado dois golpes de Estado contra os capitães de Abril.

Seguiu-se Coata Gomes, o homem que conseguiu evitar a guerra civil e travar os ímpetos revolucionários que nos podiam ter conduzido a uma nova ditadura. Cruzei-me com ele uma vez, mas já não era presidente.

Eanes foi o primeiro presidente eleito democraticamente, o homem que contribui para a consolidação e a estabilidade da democracia, uma das raras figuras que continua a ser consensualmente respeitada por todos os sectores políticos, pala sua firmeza e honestidade.

Veio depois o primeiro presidente civil, Mário Soares, uma das personalidades mais marcantes e controversas da nossa vida democrática, uma das presidências mais marcantes. Também me cruzei com ele várias vezes, quer enquanto presidente, quer na vida civil e tenho livros por si autografados.

Também conheci Jorge Sampaio, o único presidente que apoiei desde a primeira hora, tendo feito parte da lista oficial de apoiantes. Homem culto e recto, cometeu contudo dois erros, nomear Santana Lopes e, pouco depois, ter conduzido José Sócrates ao poder.

Cavaco Silva foi o senhor que se seguiu, para mim o pior de todos os presidentes eleitos, arrogante, ignorante atrevido, responsável pelos abusos da banca e pela desastrosa política do “ir além da Troika”. Só deixou saudades a uma certa direita arruaceira.

Com Marcelo Rebelo de Sousa também me cruzei várias vezes. Deixa agora a presidência como o mais popular de todos os presidentes, um dos mais cultos e criativos, embora tenha cometido erros político que nos conduziram à actual situação de instabilidade política e contribui involuntariamente para a ascensão da extrema-direita em Portugal.

O novo presidente António José Seguro, vai encontrar um país com graves problemas, agravados pela grave crise internacional. É, contudo, até agora o politico com maior apoio político da nossa história democrática e tem a obrigação de estar à altura das circunstâncias.

Cá estaremos para ver, desejando-lhe as maiores felicidades, para bem do país.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Público faz anos.


Fabulosa a página de hoje do jornal "Público", um número de aniversário dirigido, por um dia, por Souto Moura..

Aos 36 anos o jornal voltou a recuperar o elan dos primeiros tempos.

Comprava-o todos os dias, desde o primeiro número, até aparecer um tal David Dinis, que quase destrui o jornal. Felizmente foi despachado para o "Expreso", que é onde ele está bem.

Infelizmente, desde essa altura, deixei de o comprar diáriamente e agora só o compro aos fins-de-semana ou quando há alguma coisa importante a acontecer, como aconteceu hoje.

Longa vida ao melhor jornal e à melhor imprensa de Portugal, é o que eu desejo ao "Público".

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da “Beleza” do Extremismo


“Terrorista”, “nazi”, “comunista”, “putinista”, “antisemita”,tudo adjectivos com que somos brindados todos os dias para nos “identificar” como “extremistas”,  quando temos opiniões firmes, radicais ou, simplesmente contra a corrente,.

Politólogos, comentadores, analistas políticos, especialistas de relações internacionais, usam e abusam de tais adjectivos para reforçar as suas opiniões “moderadas” a “cientificas”, para se distinguirem da turba da populaça “extremista”.

Confundir o extremismo com opiniões firmes, radicais, e convictas é uma das armas argumentativas dessa gente.

Então se formos para as redes sociais, onde a opinião de um leigo vale o mesmo que a opinião de um cientista, e ganha a ignorância atrevida de quem berra mais alto, de quem leva mais likes e conquista mais seguidores, a confusão entre conceitos agrava-se.

Ser radical nas suas convicções não é a mesma coisa que ser extremista.

Posso ser radical (isto é, profundo, convicto e assertivo na defesa das minhas ideias) sem ser intolerante.

A intolerância, irmã gémea do extremismo, não é exclusivo de quem habita nas franjas mais afastadas do “centro” politico”. Vejo por aí, nas redes sociais  e na comunicação social, muito opinador, mais ou menos encartado, oriundo no chamado “centro politico”, muito mais extremista e intolerante para com os que pensam de maneira diferente do que muitos ditos “radicais”.

Mas, melhor do que ninguém, aqui deixo uma das melhores definições do que é ser extremista, da autoria de um dos fundadores dos Monty Python:

“A maior vantagem do extremismo é, ao fornecer-lhe inimigos, fazê-los sentir-se bem. A grande vantagem de se ter inimigos é poder fingir-se que toda a maldade do mundo está nos nossos inimigos e toda a bondade do mundo está em nós. Irresistível, não é? Se já possuirmos bastante raiva e ressentimento dentro de nós e, por essa razão, gostarmos de abusar das pessoas, podemos fingir que só o fazemos porque os nossos inimigos são pessoas muito más. Se não fossem eles, seriamos sempre bem-dispostos, amáveis e racionais. Assim, se quer sentir-se bem, torne-se num extremista. Agora, há que fazer uma escolha: se se juntar à extrema-esquerda, ser-lhe-á disponibilizada a lista dos inimigos autorizados – quase todos os tipos de autoridade, especialmente polícias, juízes, empresas multinacionais, estabelecimentos de ensino, donos de jornais (vários), caçadores de raposas, generais, traidores de classe e, claro, os moderados. Mas se preferir ser um extremista de extrema direita, não há problema. Serão apenas diferentes: grupos minoritários barulhentos, sindicatos, russos, gente esquisita, manifestantes, assistência social, parasitas da assistência social, clérigos intrometidos, pacifistas, a BBC, grevistas, assistentes sociais, comunistas e, claro, moderados e actores com mania. Uma vez abraçada uma destas superlistas de inimigos, pode ser tão desagradável quanto quiser e ainda assim sentir que o seu comportamento é moralmente justificado. Poderá pavonear-se por aí usando as pessoas e dizendo-lhes que poderia comê-las ao pequeno-almoço, sem deixar por isso de se considerar um campeão da verdade, um combatente do bem maior, e não o triste esquizofrénico paranoico que realmente é”. (John Cleese, Das Vantagens do extremismo, 1987).

Mais actual do que nunca, basta acrescentar alguns “inimigos” à lista!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Um protesto em nome dos pássaros ou, as árvores morrem de pé!

(fotografia de Carlos Miguel)

Mais uma razia de árvores em Torres Vedras. Não me parece que estivessem todas em perigo. Parece-me o "ir na onda". Quando chegar o verão, com as previsíveis ondas de calor, e quando não se puder andar em certas ruas de Torres por causa do calor, falamos. E onde andam os "protestantes" que tanto barulho fizeram pelo abate (eu incluído), há uns anos, de umas árvores raquíticas. Será que as árvores também têm cor politica? É só um desabafo!

Há árvores e árvores. Algumas tinham de ser arrancadas, mas penso que se entrou numa euforia de cortes. A segurança das mesmas não se prende com as alturas, depende da espécie e da localização e, depois dos últimos temporais, e do ciclone de anos atrás, já deu para ver as que aguentam e parece-me que foram algumas destas a ser arrancadas, com o pretexto da segurança. Não sei se tenho razão, mas parece-me que faltou informação à população sobre os critérios e que prevaleceu a mentalidade do ´século XIX de encarar a natureza como inimiga do homem.

(Uma resposta esclarecedora do meu amigo José Manuel Pinto Gouveia:

“Em Portugal, os critérios sustentáveis para o abate de árvores em cidades regem-se principalmente pela Lei n.º 59/2021, que prioriza a proteção do arvoredo urbano e impõe análises técnicas rigorosas.[1]

## Critérios Principais para Abate

O abate só é permitido em casos de perigo comprovado por análise biomecânica ou fitossanitária, elaborada por técnico qualificado (arborista), como risco de danos a pessoas, bens ou estruturas. Pode ocorrer também se a árvore ameaçar segurança, obstruir mobilidade urbana sem alternativas ou tiver baixa vitalidade com vantagens na substituição por espécies mais adequadas.[2][1]

## Requisitos Obrigatórios

Exige autorização municipal prévia (exceto urgências), fundamentação documentada com fotos e acompanhamento técnico. Após abate, deve haver reposição de arvoredo que duplique o sequestro de CO₂, preferencialmente com árvores nativas no concelho (raio ≤10 km).[1]

## Medidas Sustentáveis

A gestão segue princípios como precaução, ciência e não regressividade do coberto arbóreo, com inventários municipais e regulamentos locais. Proíbe abates sem autorização, promovendo transplantes ou podas como alternativas. Em Lisboa ou Torres Vedras, contacte a câmara municipal para regulamentos específicos.[3][4][1]

Fontes

[1] Lei n.º 59/2021 | DR https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/59-2021-169780050

[2] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=3445&tabela=leis&so_miolo=

[3] Saiba como proceder em caso de necessidade de abate ... https://cm-sintra.pt/atualidade/ambiente/info-saiba-como-proceder-em-caso-de-necessidade-de-abate-de-arvores

[4] 27174 https://www.lisboa.pt/fileadmin/info_administrativa/normativas/regulamentos/ambiente/Regulamento_Municipal_do_Arvoredo_de_Lisboa.pdf

[5] Artigo 23.º - Abate - Lei nº 59/2021 de 18-08-2021 - BDJUR http://bdjur.almedina.net/item.php?field=node_id&value=2472546

[6] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=3445A0019&nid=3445&tabela=leis&pagina=1&ficha=1&so_miolo=&nversao=

[7] ::: Lei n.º 59/2021, de 18 de Agosto https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=3445A0017&nid=3445&tabela=leis&pagina=1&ficha=1&so_miolo=&nversao=

[8] Guia de Boas Práticas para a Gestão do Arvoredo Urbano https://www.icnf.pt/florestas/protecaodearvoredo/arvoredourbano

[9] Em que situações é permitido e proibido o corte de árvores? https://www.tomaconta.com/blog/corte-de-arvores

[10] Gestão do arvoredo urbano https://revistajardins.pt/jardinagem/tarefas-de-jardinagem/gestao-do-arvoredo-urbano/

Lei n.º 59/2021

DIARIODAREPUBLICA.PT”

(José Gouveia obrigado amigo pela tudo preciosa informação. Agora todos têm o caminho facilitado: a oposição pode pegar nessa informação e procurar saber se houve erros na aplicação da lei; o poder municipal só terá de provar que essa lei foi aplicada; a comunicação social tem a papinha feita para investigar e informar; nós cidadãos temos meios para estar atentos e exigir provas a quem de direito de que não houve abusos ou ilegalidades. Pela minha parte vou fazer chegar a tua preciosa informação ao único candidato eleito na Assembleia Municipal que eu elegi para ele agir em conformidade. Abraço.)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

70 velas

(primeiras páginas do Jornal "Diário de Lisboa" de 10 e 11 de Fevereiro de 1956)

Há uns anos, quando passei por um problema de saúde grave, temendo não sobreviver muito tempo, fiz um primeiro desejo, chegar ao fim daquele ano para assistir à primeira eleição de um presidente negro nos Estados Unidos (Obama). Esse desejo concretizou-se.

Depois, como as coisas foram correndo bem, alarguei um pouco o espaço temporal desse desejo, ver a minha filha a atingir a maioridade. Felizmente este desejo também se concretizou.

Percebendo que o risco de mortalidade se ia afastando, atrevi-me a fazer um último desejo: chegar aos 70 anos e o resto era ganho.

E aqui estou!

Agora é viver o tempo restante, enquanto valer a pena, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista intelectual.

Até aos 80 é planear ano a ano, ou de dois em dois anos como vai acontecer com a renovação da carta, dos 80 aos 90, se lá chegar, é planear mês a mês e, se por ironia do destino, chegar aos 90, desde que autónomo física e mentalmente , é planear semana a semana.

No historial de família, excluindo o caso do meu pai que não chegou aos 50 e a minha avó paterna que faleceu ao 79, ambos os avôs faleceram aos 83, a minha avó materna aos 94, até agora a recordista, a minha mãe já conta 93 e as minhas tias viveram todas até aos 90.

Há pouco mais de 150 anos, como pude confirmar numas listas censitárias para este concelho, os 70 anos eram mesmo o limite, contando-se pelos dedos das mãos os que ultrapassavam aquela barreira.

Como me sinto ao chegar aqui? A mesma pessoa que fui crescendo ao longo destas 7 décadas, que tem as primeiras memórias de acontecimentos familiares e de vizinhança a partir dos 3 anos, (várias mudanças de casa e de terra em 1959, fixando-me finalmente na Praceta Afonso Vilela onde fiz os 4 anos em 10 de Fevereiro de 1960),  mas só se apercebeu que havia um mundo mais vasto pelos 6/7 anos, como se comprova pela datação dos primeiros acontecimentos de que me lembro : o “grande assalto ao comboio” em Inglaterra em 8 de Agosto de 1963, muito comentado nas noticias e lá por casa; a morte de Edith Piaf (notícia que me lembro de ouvir anunciada na rádio) em 10 de Outubro de 1963; o assassinato de John Kennedy em 22 de Novembro de 1963, cujas imagens vistas na TV, muito me impressionaram.

Além disso faço, parte de uma geração que viveu grandes acontecimentos e grande mudanças. Só para citar algumas dessas mudanças, antes de atingir a maioridade, os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, os primeiros a serem transmitidos para todo o mundo pela televisão, a inauguração da ponte sobre o Tejo em 6 de Agosto de 1966, a morte de Walt Disney em 15 de Dezembro de 1966 (ávido leitor dos Tio Patinhas, Zé Cariocas e Mickeys que o meu avô me dava, essa morte foi a primeira morte que senti profundamente como uma perda pessoal, passando a ter a noção de como a morte ceifa as referências que julgávamos imortais), a Conquita do Espaço, cujas aventuras seguíamos com entusiasmo aqui por casa, e que culminou com a chegada do Homem à Lua em 20 de Julho de 1969, o despertar do rock and roll, à volta dos êxitos do Beatles, as grandes cheias de 1967 e o terramoto de 1969, a agitação politica de 1969 e 1973 e, finalmente, entre outros acontecimentos, o 25 de Abril de 1974, que me apanhou nos meus 18 anos.

Esse ano distante de 1956, sem que tivesse então consciência, foi também um ano rico em acontecimentos que marcariam o rumo do mundo: em 26 de fevereiro  Nikita Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em Outubro a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas. Nesse ano Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes, e deu-se a nacionalização do Canal do Suez por parte de Nasser do Egipto, provocando uma curta guerra no Médio Oriente. Juan Manuel Fangio sagrou-se pela 4ª vez campeão de Fórmula 1 e tiveram lugar os Jogos Olímpicos de Melbourne. Na musica, Elvis Presley era uma das grande novidades. Nesse mesmo ano morria Bertolt Brecht enquanto Fidel Castro iniciava, na Sierra Maestra, o movimento que levaria o “castrismo” ao poder na ilha de Cuba três anos depois. Em Portugal a Fundação Gulbenkian iniciaou a sua actividade.

Esse foi o último ano sem televisão em Portugal mas, ainda nesse ano, em 4 de Setembro de 1956, tiveram lugar emissões experimentais da RTP na da Feira Popular, preparando o inicio de emissões regulares que se realizaram a partir de 7 de Março de 1957.

Numa geração marcada pela cultura da imagem (cinema, Banda Desenhada e Televisão), que começou a substituir a geração anterior muito marcada pela cultura literária e tendo-me tornado um apaixonado pelo cinema, a lista de filmes estreados nesse ano de 1956 é, só por si, uma mostra invejável do melhor da história da 7ª arte : Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille;…e Deus criou a mulher de Roger Vadim com Brigitte Bardot; O Gigante de George Srevens com James Dean, Elisabeth Taylor e Denins Hopper; O Pecado Mora ao lado de Billy Wilder com Marilyn Monroe; O Homem que Sabia de Mais de Alfred Hitchcock; O Sétimo Selo de Ingmar Bergman; A Desaparecida de John Ford; Fugiu um condenado à morte de Robert Bresson; Um Roubo no Hipódromo de Stanley Kubrick; Moby Dick de John Huston;Noite e Nevoeiro de Alain Resnais, entre tantos outros.

Na outra arte que povoou  a minha infância, a Banda Desenhada, assinale-se nesse ano de 1956 a edição em álbum da aventura “Marca Amarela” da série Blake e Mortimer, um dos meus álbuns preferidos da minha série e autor preferido, bem como a criação da série Gil Jourdan, de Maurice Tellieux, o inicio das aventuras da série espanhola  “EL Capitan Trueno”, criada pela dupla Victor Mora e Ambros, editada em Portugal nuns pequenos livrinhos em formato italiano com o nome de “Capitão Trovão”, cujas aventuras eu devorei na infância. Dois outros gigantes da BD, Jules Feiffer e Benito Jacovitti, iniciaram a sua actividade nesse ano de 1956. A grande revista de BD que então se publicava em Portugal era o “Cavaleiro Andante”.

O país vivia então sob a ditadura de Salazar, sujeito a uma censura férrea, que castrava iniciativas culturais, informativas e jornalística, ao mesmo tempo que a PIDE e os seus informadores vigiavam qualquer conversa de café. Depois da agitação do pós guerra, com o MUD Juvenil em 1946, e a dois anos do abalo das eleições de 1958 de Humberto Delgado, o regime ditatorial vivia um período e alguma acalmia e estabilidade.

O que mais custa é ver numa tão longa caminhada é a lei da morte a despovoar as nossas referências, nas amizades, na cultura, na política, no desporto , na arte ou no simples encontro de rua.

O mundo que me viu nascer era um outro mundo muito diferente do actual. Ter testemunhado tantas mudanças é um dos grande privilégios de se chegar a esta idade.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

E O MEU VOTO VAI PARA…


 …Bem!...é mais fácil dizer para onde não vai.

Não vai NUNCA para o André nem para o Cotrim, nem na primeira, nem na segunda volta e, se por azar e desgraça da nossa democracia (Lagarto!Lagarto!Lagarto) as emanações locais, respectivamente, de um Trumpezinho ou de um Mileizinho, fossem à segunda volta, votaria em branco, ou ainda pior.

Na primeira volta o meu voto também não vai, de certeza, nem para o Almirante nem para o  “pequenote”, embora tenha de votar num deles se forem à segunda volta contra um dos anteriores, enfrentando outra escolha difícil se os dois forem à “final”.

A minha dúvida está entre um Filipe, o único candidato capaz mas sem possibilidade de ir à segunda volta ou, se alguma vez por milagre, coisa pouco aceitável para um “comunista”, lá chegasse, teria de enfrentar o inferno na Terra e teria uma presidência ingovernável, e o cinzentão Seguro, o único candidato da esquerda que pode chegar a uma segunda volta e em quem votarei, se aqui chegar, contra qualquer um dos quatro cavaleiros do apocalipse acima mencionados.

Escolher entre estes dois vai ser o meu dilema, numa decisão que só tomarei, como acontece com cada vez mais frequência, na hora de me abrigar para colocar a cruzinha no boletim.

E tenho dito!

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

BURKA ou NÃO BURKA, EIS uma NÃO QUESTÃO.


Não me lembro de ver uma burka por aí.

O único sítio onde as vi em grande quantidade foi em Londres, às compras nos grandes armazéns, num país onde a burka não é proibida.

Aliás, o uso da burka é só aplicado obrigatoriamente nalguns países de islamismo radical, de língua inglesa, como na Arábia Saudita e no Afeganistão (não no Irão, a indumentária é diferente).

Uma coisa que vi recentemente e que me chocou foi ver uma família de judeus radicais em Antuérpia, o homem à frente e as mulheres atrás, com o uso obrigatório de perucas para esconder o verdadeiro cabelo. Mas com esses ninguém se mete.

Claro que sou contra essa obrigação e é aviltante para as mulheres que são obrigadas a usá-la.

Mas, em Portugal, o principal problema das mulheres é a violência doméstica, o machismo tóxico das ruas e das redes sociais, as desigualdades salariais e nas progressões de carreira.

 Não vejo os mesmos deputados preocupados com a Burka, e os seus apoiantes aqui nas redes sociais, a preocuparem-se no parlamento com a real situação das mulheres em Portugal referidas no parágrafo anterior.

Simbolicamente, "Burkas há" muitas ó meus palermas", como aquelas "usadas" nas redes sociais pelos que se escondem atrás do anonimato, dos falsos perfis e da cobardia que a distância permite para insultar, ofender, divulgar fake news e discursos de ódio e racistas.

Enfim, uma não questão para nos distrair dos reais problemas deste país.

 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Guerra…como Crime de Guerra.


Para mim, um negociante de armas ou um traficante de droga estão no mesmo patamar da ignominia humana.

Muitas vezes essas actividade andam ligadas, apoiadas num terceiro pilar, o do mundo da alta finança especulativa.

Só gente sem escrúpulos morais e humanos se pode sentir à vontade nessas actividades.

Esta reflexão vem a propósito da recente leitura do livro Uma História dos Bombardeamentos, do sueco Sven Lindqvist (1932-2019), obra editada em 1999 e só recentemente, em Fevereiro de 2025, editada entre nós pela Antígona, com tradução de Ana Diniz.

Este livro aborda a forma como uma nova forma de fazer a guerra desde meados do século XIX, os bombardeamentos aéreos e de longa distância, contribuiu para uma crescente desumanização criminosa do acto de guerra.

Beneficiando da evolução tecnológica, essa forma de guerra está na origem dos maiores massacres e genocídios iniciados pelo “civilizado” mundo ocidental, praticado inicialmente apenas contra os povos que reagiram ao colonialismo europeu, sem levantar grandes dilemas morais, já que esses povos eram considerados e propagandeados como “incivilizados”, “atrasados” ou “selvagens”, desculpando todas as formas de violência sobre eles, em muitos casos autênticos genocidios.

Foi a partir das duas guerras mundiais que essa forma de fazer guerra se estendeu ao solo europeu.

O livro de Lindqvist desmonta muitas das ideias feitas sobre a superioridade moral e civilizacional do ocidente, com exemplos concretos dos efeitos das guerras conduzidas pelo ocidente ao longo do século XX.

Aborda também os dilemas da guerra nuclear iniciada pelos Estados Unidos, ao bombardearem, sem justificação, duas cidades japonesas. Como explica o autor, depois do violento e desumano bombardeamento de Tóquio dias antes, o Japão estava decidido a render-se, mas os aliado protelaram essa negociação para poderem “experimentar” a nova bomba. Quando, após aquele crime, muitos preconizaram tornar o uso e acesso às armas nucleares um crime de guerra, foram, mais uma vez os Estados Unidos que impediram essa decisão, com o resultado que conhecemos-

Infelizmente, os piores receios do autor estão hoje à vista de todas, vivendo nós num mundo onde defender o pacifismo e contestar a propaganda armamentista é “sinónimo” de cedência ou colaboração com o “inimigo do ocidente” e dos “valores ocidentais”, onde o “outro” é diabolizado para justificar o aumento de gastos com “defesa”.

Este livro é, assim, um forte manifesto anti guerra, hoje mais actual do que nunca.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A Classe Média, segundo Montenegro


Segundo Montenegro, uma casa de renda de 2 mil e trezentos euros define uma família de classe média.

Como estamos a falar de uma família, além dos  2 mil e 300 euros de renda, terá de pagar água, luz, alimentação e telefone, precisando de, no mínimo, outros mil euros para esses gastos, sem esquecer os gastos com o o automóvel (sim, classe média tem automóvel) e gastos culturais, ou seja, outros mil euros.

Assim, para ser classe média em Portugal, segundo o senhor Montenegro, uma família tem de ter um rendimento mínimo, já com os descontos fitos para o IRS, de cerca de 4 500 euros...limpos.

Concluindo e resumindo, por aquilo que recebo devo pertencer à classe dos indigentes. 

Pelos visto tenho direito a subsidio de sobrevivência e de insercão, e não sabia... e como eu mais um 9 milhões de portugueses!!!!

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O Mark Rutte já anda por aí? Já andam a angariar para as despesas com a defesa?

 


NATO, Rutte e Oliveira da Figueira

 

(cartoon de Vasco Gargalo)

“No contexto atual da aposta no rearmamento desenfreado, que fará com que “a Europa pag[ue] em GRANDE, como deve” (nos termos da mensagem que o secretário-geral da NATO enviou a Trump), isto significa vender-nos “o medo como motor económico e, pior de tudo, é fazê-lo passar por uma boa ideia” (Marga Ferré, Público.es, 28.4.2025) e vendê-lo como catalisador da economia, ocultando ou relativizando o que desde o início só os mais descarados assumiram: “O Estado social europeu acabou” e, para pagar o rearmamento, haverá que cortar nas pensões de reforma, porque “não se pode pedir aos jovens que peguem em armas e [ao mesmo tempo] cuidar dos velhos num determinado estilo. Os governos terão de ser mais severos com os idosos”. Ora, como “as democracias ricas precisam de uma crise aguda para desencadear uma verdadeira mudança”, porque “é quase impossível convencer os eleitores a fazerem reformas drásticas enquanto o seu país não estiver a atravessar uma crise aguda” (Janan Ganesh, FinancialTimes, 7.3 e 2.1.2025), o que é preciso é criar essa crise.

“É aqui que entra o securitarismo. “Para criar medo, precisam de um monstro, de um Outro a odiar, de um inimigo ameaçador. Para os portadores do ódio belicista, esse Outro contra o qual se armam, esse inimigo aterrador (seja ele qual for, terrorismo fundamentalista, migrantes, Rússia, Irão, China…) tem um alcance muito vasto e é invulgarmente flexível” (M. Ferré)”.

[Manuel Loff, “Os frutos da política do medo”, in Público de 25 de Junho de 2025].

As duas frases acima transcritas, do artigo de Manuel Loff, resumem tudo o que se tem passado nos últimos dias nas chancelarias ocidentais e no politburo da União Europeia, culminando na vergonhosa bajulação a Trump na cimeira da NATO.

Por muito que nos prometam que os tão badalados gastos militares não vão corroer e destruir as estruturas do “estado social europeu”, é evidente que essa promessa é impossível de cumprir, tendo em conta a percentagem do PIB alocado à defesa. Sé em Portugal, já o sabemos, 2,1% corresponde a mil milhões de euros de gastos públicos anuais, que vão duplicar até aos 5% nos próximos anos, já se percebeu que esse valor não vai surgir do nada, vai implicar cortes, os do costume: pensões, salários, saúde, educação e  direitos sociais.

Ora, se tivermos em conta que o chamado “Estado Social Europeu” era a principal bandeira apresentada pela União Europeia que justificava a sua “superioridade civilizacional”, com a sua destruição ou enfraquecimento pouco restará desse projecto.

Sabemos que há décadas que os sectores financeiros, que dominam a burocracia europeia, procuram devorar em seu proveito o valor desse “Estado Social”, pelo menos desde os tempos da troika, projecto de “cativação” descaradamente e publicamente defendida pela actual responsável para área financeira da Comissão Europeia, a nossa bem conhecida “troikista” Maria Luís Albuquerque, coadjuvada nessa intensão por outra conhecida troikista, Christine Lagarde.

Para a mentira estar completa, também não falta outro conhecido troikista, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, a confirmar a “necessidade” de destruir o “Estado Social” :” os cidadãos dos países-membros da NATO devem "aceitar fazer sacrifícios", como cortes nas suas pensões, na saúde e nos sistemas de segurança, para aumentar as despesas com a defesa e garantir a segurança a longo prazo na Europa”[afirmação proferida por Rutte no Parlamento Europeu em 12 de Dezembro de 2024], acrescentando: "Hoje apelo ao vosso apoio, a ação é urgente. Para proteger a nossa liberdade, a nossa prosperidade e o nosso modo de vida, os vossos políticos têm de ouvir as vossas vozes. Digam-lhes que aceitam fazer sacrifícios hoje para que possamos estar seguros amanhã" (in Líder da NATO pede aos europeus que "façam sacrifícios" para aumentar despesas com a defesa, na página da Euronews de 12.12.2024).

Essas afirmações são coerentes com a acção política desse troikista, enquanto primeiro-ministro da Holanda (1), de cujo governo fazia parte o nosso conhecido Dijsselbloem, que acusava os europeus do Sul de gastarem dinheiro em “copos e mulheres”.

Não se percebe, contudo, como é que se defende “a nossa liberdade, a nossa prosperidade e o nosso “modo de vida” cortando no Estado Social Europeu, já que tem sido este o principal pilar e o garante da nossa liberdade, prosperidade e “modo de vida” Europeu. Dizem que Rutte é formado em História, mas nunca deve ter lido Churchill que, quando, em plena 2ª Guerra , vendo-se obrigado a fazer duros cortes nas despesas, quando, numa reunião do seu gabinete, “alguém sugeriu que fossem feitas reduções significativas no orçamento da Cultura, Churchill recusou. O argumento: sem cultura "por que é que estamos a lutar?" (leia-se Jornal de Negócios, 30 de Janeiro de 2013).

O mesmo podemos dizer hoje para os defensores de cortes no “Estado Social”. Sem o pilara Social Europeu para que é que vamos lutar?.

Outro lado da moeda é o discurso do medo, também muito explorado pelo mesmo Rutte.

Ainda recentemente, numa deslocação a Portugal, alertava para o perigo de os russos invadirem Lisboa e, noutra ocasião, continuando a defender cortes no Estado Social, ameaçava quem o não fizesse que teria de aprender russo.

Aliás, sobre o “papão” militar russo o discurso é contraditório. Tanto se ridiculariza esse poder, “enfraquecido pelas sanções” e incapaz de controlar a Ucrânia, como se argumenta com a possibilidade de um ataque a um país da NATO nos próximos anos.

Nada aponta para que a Rússia, a menos que seja provocada, ataque um país da NATO, pois, se nem um país enfraquecido como a Ucrânia consegue controlar, sem ser à custa de imensas baixas e custos militares, muito menos teria condições para enfrentar directamente esses países. Aliás, o próprio Putin, surpreendido com a resistência ucraniana, há muito que se deve ter arrependido dessa invasão, embora não o admita.

O que se pretende com a subida do orçamento militar é, por um lado, salvar o sector automóvel europeu, convertendo-o no fabrico de armamento, por outro financiar a industria militar norte-americana, que enfrenta uma profunda crise, com ganhos para o sector financeiro que controla o politburo de Bruxelas.

E esse aumento da despesa militar, não se iludam, só pode ser conseguido à custa do “Estado Social Europeu” e, por arrasto, à custa “da nossa liberdade, da nossa prosperidade e do nosso modo de vida”.

Nos próximos tempos o nosso espaço político, público e comunicacional vai ser invadido por muitos candidatos a “Oliveiras da Figueira”, para nos vender e convencer a comprar toda a tralha armamentista.


(1)O “elucidativo” “currículo” de Rutte, segundo o perfil publicado na Wikipedia:

“Os seus principais objectivos [do governo holandês]  eram cortar a despesa pública, especialmente nos cuidados de saúde, e isentar as grandes empresas de um imposto sobre dividendos, mas mais tarde abandonou-o. Declarou também que "não haverá mais dinheiro para a Grécia" e comprometeu-se a descriminalizar a negação do Holocausto, embora também tenha renunciado a isso.

No contexto da pandemia de COVID-19, opôs-se a que a UE organizasse ajuda financeira aos países mais afectados, antes de aderir sob pressão dos seus aliados europeus.

O seu governo foi criticado em 2020 num relatório parlamentar, num escândalo de bem-estar. Determinados a combater possíveis fraudes, os serviços estatais retiraram benefícios às famílias que a eles tinham direito, enquanto que etnicamente traçavam o perfil dos beneficiários. Cerca de 26.000 famílias perderam injustamente estes benefícios entre 2011 e 2019, de acordo com o relatório, e em alguns casos tiveram de reembolsar os montantes recebidos. Enquanto a esquerda radical e os ambientalistas, alarmados pelos apelos dos pais, apelaram sem êxito a uma investigação já em 2014, os partidos no poder há muito que ignoram a questão. Políticos seniores, incluindo vários ministros em exercício, são acusados de terem optado por fazer vista grossa a disfunções de que tinham conhecimento”.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Rússia e Israel , Guerra e Paz, Paralelos e ...absurdos !!!???


A Rússia ataca a Ucrânia. É uma Grave violação do Direito Internacional.

Israel, depois de já ter atacado a Síria e o Líbano, ataca o Irão. Estão a “defender a Democracia”.

A Rússia desculpa-se pela invasão com a presença de grupos neonazi que dominam o poder da Ucrânia, situação comprovada por fontes independentes,  e perseguem, desde 2014, as populações de origem russa, cometendo crimes de guerra contra essas populações (cerca de 10 mil em 8 anos), como aconteceu em Odessa.

Israel desculpa-se, para bombardear o Irão, com o apoio do regime dos aiatolas a grupos terroristas como o Hamas e outros que atacam Israel.

A Rússia, onde estão proibidos vários partidos políticos, assassina adversários políticos e mantém em prisão muitos outros é uma ditadura.

A Ucrânia que proibiu mais de uma dezena de partidos com a desculpa de serem pró russos, que persegue e assassina populações russófona e opositores desde 2014, é uma “democracia”.

O Irão, que persegue mulheres e opositores em nome da religião há anos, é uma autocracia religiosa.

Israel que pratica apartheid contra os palestinianos, obrigados, há décadas, a abandonar as suas terras e casas, enviado para ghettos, sem liberdade de circulação na sua própria terra, com grandes limitações para usufruírem dos mesmos direitos dos israelitas é a “única democracia do região”.

Os russos bombardeiam a Ucrânia, atingindo hospitais, escolas e edifícios civis, raramente matando mais de uma dezena de civis por dia, praticam crimes de guerra.

Os israelitas bombardeiam Gaza, atingindo deliberadamente hospitais, escolas e edifícios civis, raramente matando menos de uma centena de civis, estão a "defender a democracia" e a defender-se dos terroristas.

Os ucranianos recebem do ocidente ajuda militar para enfrentar a invasão russa. Quem vier com “conversas pacifistas” é um “apoiante de Putin”.

Os palestinianos não recebem ajuda humanitária porque esta “beneficia o Hamas” e se alguém falar em armar os palestinianos para se defenderem da agressão de décadas por parte de Israel, estão a “defender o terrorismo”.

O Batalhão Azov e outros grupos extremistas estão em roda livre, desde 2014, na Ucrânia, infiltrados nas forças armadas e de segurança e na maior parte dos partidos legais  que dominam o parlamento, em muitos caso em cargos de liderança. São “heróis”.

O Hamas, cujo crescimento e acção foram facilitados por Israel para “tramar” a autoridade palestiniana, assim como outros grupos jihadistas que combatem Israel, são considerados, e bem, grupos terroristas (Sabe-se entretanto que  Israel está a apoiar grupos jhiaditas, rivais do Hamas, para combater estes, grupos esses tão terroristas como o Hamas).

A Rússia, quando efectou bombardeamentos e ataques perto de centrais nucleares ucranianas, foi um “escabeche” danado, um alarmismo desmedido, entre as lideranças ocidentais e os comentadores de serviço.

Agora que Israel bombardeia directamente centrais nucleares iranianas, é o silêncio, a desvalorização e/ou a procura de justificações esfarrapadas por parte do “ocidente” e dos mesmos comentadores. Se calhar a vida das populações em risco com essas acções tem valor diferente. Um Europeu e um “cristão” “radioactivo” vale mais que mil muçulmanos, árabes ou persas, "radioactivos".

No meio de tudo isto, a Ucrânia continua a apoiar, no mínimo pela abstenção, as acções criminosas de Israel, o que não deixa de ser tristemente irónico. Mais um prego na credibilidade da liderança ucraniana.

Resumindo e concluindo: as lideranças europeias e os seus proxies na nossa comunicação social, estão em força a branquear o governo criminoso de Israel, usando argumentos que são exactamente os opostos que usam para a guerra na Ucrânia.

Quem perde? Para além da verdade, o povo palestiniano, os judeus, que perdem toda a credibilidade que ganharam como vítimas do Holocausto e séculos de perseguição, e não vão ter paz nas próximas décadas, o causa ucraniana, porque fica evidente para todos o mundo os dois pesos e duas medidas usados pelas lideranças ocidentais. Perde a ONU, e todas as organizações humanitárias, cada vez mais isoladas na sua acção.

Quem ganha? A liderança criminosa de Israel, que desvia a atenção dos crimes cometidos em Gaza, os yatolas radicais do Irão, que vão aumentar a sua força na defesa do Irão e o próprio Hamas que ganha "razão" para o seu ódio a Israel, e outro criminoso, Putin , que surge como "defensor da paz" e do "direito internacional" (!!??).

Perdem também os pacifistas, olhados agora, com os argumentos falaciosos do costume, como “sionistas” e “apoiantes” do Hamas ou de Putin,.

Pois! também ganham os negociantes de armas,  as petrolíferas e o sector financeiro que está na base de tudo isto.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

EDUARDO GAGEIRO em TORRES VEDRAS

 

AQUI recordamos Eduardo Gageiro e a sua ultima aparição pública, que teve lugar em Torres Vedras, no passado dia 26 de Abril, para inaugurar a exposição de parte do seu espólio, depositado nesta cidade, "PELA LENTE DA LIBERDADE", e que pode ser vistada na Galeria Municipal, nos Paços do Concelho, até 13 de Setembro.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Um Cartoon Censurado pelo facebook (ao serviço do governo genocida de Israel)


Provávelmente ente post também vai ser censurado.

Até lá fica a informação sobre um acto de censura promovido pelo facebook, ao serviço do governo criminoso de Israel e do assassino Natanyahu.

Ontem coloquei na minha página do facebook uma reprodução de um cartoon do autor português Vasco Gargalo, retirado da net, penso que da página da revista Sábado (?), e

que podem ver abaixo.

Acompanhava esse cartoon com um comentário meu : "Com o "alto patrocínio" da União Europeia.

Para surpresa minha, ao abrir hoje o facebook, deparei-me com a remoção desse post com a seguinte desculpa dada pelo facebook : "É possível que a publicação contenha símbolos, glorificação a pessoas e  organizações consideradas perigosas".

Para que não restem dúvidas, aqui reproduzo o texto que me enviaram para justificar o acto:

"28/05/2025
Removemos a tua publicação
Por que motivo aconteceu isto
É possível que a publicação contenha símbolos, glorificações ou apoio a pessoas e organizações que consideramos perigosas.

Venerando Aspra de Matos
27/05/2025
Com o "alto patrocínio" da União Europeia: (reproduzindo o cartoon)
Partilhaste isto no teu perfil
Isto desrespeita os nossos Padrões da Comunidade relativos a pessoas e organizações perigosas.

E quais são esses padrões que foram "desrespeitados" pelo dito Cartoon?
De acordo com o censor foram os seguintes :

 "Pessoas e organizações perigosas
Não permitimos que as pessoas partilhem ou enviem símbolos, glorificações ou apoio a pessoas e organizações que consideramos perigosas.
Exemplos de coisas que não permitimos
Glorificar um ataque terrorista
Apoiar a violência contra um grupo de pessoas específico
Apoiar ou promover atividades criminais prejudiciais, tais como tráfico de pessoas"

Está explicado:

Ao reproduzirmos a cara do assassino Natanyahu estávamos a promover um líder, promotor de ataques terroristas em Gaza e na Cisjordânia, apoiante da violência contra "grupos de pessoas específicas" (os Palestinianos) e o tráfico de pessoas, obrigando milhares de pessoas a deslocarem-se dentro de Gaza.

Entretanto, aconselhados por um amigo a quem aconteceu o mesmo, constestámos a situação ao facebook.  Responderam assim:  "Olá, Venerando. Revimos novamente a tua publicação.Confirmámos que desrespeita os nossos Padrões da Comunidade relativos a pessoas e organizações perigosas.Sabemos que isto é dececionante, mas queremos manter o Facebook seguro e acolhedor para todos. 

Sem comentários!!

                                          

NOTA FINAL: Este caso teve novos desenvolvimentos. Ontem, dia 28 de Maio, por volta das 22 horas, voltei a postar no facebook esse mesmo cartoon, com o seguinte comentário:

"Mesmo correndo o risco de já ter uma fotografia minha com um alvo na testa a ser distribuida pelos agentes terroristas da MOSSAD em Portugal, e mesmo sabendo que este cartoon vai voltar a ser censurado, aqui o volto a reproduzir. Aproveitem para o partilhar e copiar antes que os censores do facebook voltem ao ataque (cartoon de Vasco Gargalo)":

E de facto, quando voltei a visitar a minha página, por volta da meia-noite, o cartoon tinha sido retirado, como os mesmos argumentos da primeira vez.

Publiquei então o seguinte comentário:

"Como já devem ter reparado, o Facebook voltou a censurar o cartoon de Vasco Gargalo que já tinha sido censurado ontem. Ficamos assim a saber quais são as opções políticas dessa plataforma. Pelos vistos o Sr Netanyahu é um criminoso "respeitável" para os censores do Facebook. A plataforma de cartoonistas Cartoon Movement, a revista Charlie Hebdo e outros cartoonistas independentes que se cuidem perante a caça às bruxas e a falta de sentido de humor desses assanhados censores, que, com essa atitude, são coniventes e cúmplices dos crimes de Israel na Palestina"

Ao mesmo tempo voltei a contestar a decisão.

Para meu espanto, desta vez voltaram atrás com a decisão, dando-me a seguinte resposta:

"28/05/2025

Restaurámos a tua foto

Olá, Venerando

Chegámos à conclusão de que a nossa equipa de revisão cometeu um erro ao remover a tua foto.

Agradecemos o tempo que dispensaste a pedir uma revisão e a ajudar-nos a melhorar os nossos sistemas. A nossa prioridade é manter a segurança e o respeito na comunidade. Por isso, às vezes temos de tomar precauções".

Tal mudança de atitude só pode ser explicada por uma ou várias das seguintes razões:

1 - o meu apelo para reproduzirem e partilharem o cartoon, antes de voltara ser censurado foi seguido por muitos amigos, aumentando a visibilidade desse acto de censura;

2 - O meu protesto envergonhou os censores:

3 - O censor que estava de serviço a esta hora era outro, mais benevolente, do que aquele que censurou o cartoon da primeira vez.

Contudo, o primeiro post não foi reposto e sei que algumas pessoas que partilharam esse cartoon, também alvos de censura, não viram o seu post reposto.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Morreu Mujica, uma das últimas referências credíveis da esquerda


Vivemos uma época em que a esquerda vive uma das suas maiores crises, em grande parte por culpa própria.

Hoje o mundo é dominado por líderes medíocres, onde, até, há pouco, apenas se destacavam três vozes credíveis.

Uma era António Guterres, socialista, com formação católica, a liderar a ONU, mas sem poderes face ao boicote das grandes superpotências, como os Estados Unidos, desde o fim da guerra fria e a Rússia desde Putin.

Outra voz credível era o Papa Francisco, cujas ideias se situavam mais à esquerda do que à direita, na defesa do pacifismo, dos mais fracos, dos imigrantes, dos perseguidos e na critica ao actual modelo capitalista de economia. Essas posições levaram a que muitos , como li por aqui nas redes sociais, o apelidassem de “papa comunista”, uma falácia eivada de má fé e ignorância. Apesar de tudo e da influência que a sua voz podia ter, o seu poder para travar a actual situação mundial, era… nenhum!.

Uma terceira voz, também já sem poder, uma referência moral à esquerda, comparável a Mandela, era José Alberto Mujica Cordano , conhecido popularmente como Pepe Mujica, falecido ontem.

Ao longo do seu mandato como presidente do Uruguai, entre 2010 e 2015, o peso da despesa social na despesa pública total passou de 60,9% para 75,5%. “Durante este período, a taxa de desemprego caiu de 13% para 7%, a taxa de pobreza nacional de 40% para 11% e o salário-mínimo foi aumentado em 250%”. Durante esse período o Uruguai tornou-se o país mais avançado da América em termos de respeito pelos "direitos fundamentais do trabalho, em particular a liberdade de associação, o direito à negociação coletiva e o direito à greve".

Além disso foi um exemplo de humildade no exercício do cargo e um exemplo de apego à democracia, e desapego pelo poder, que abandonou sem problemas.

Mujica era bastante critico da acção de Maduro na Venezuela, que representa o outro lado da moeda da chamada “esquerda”. A acção de Maduro na Venezuela é, aliás, uma das causas da má imagem que a “esquerda” tem vindo a semear nas últimas décadas.

Quando a “esquerda” se enredou em soluções autoritárias, em corrupção, no apoio à guerra, abraçando também soluções do capitalismo ultraliberal quando no poder, é bom manter viva a chama de Mujica com raro referente moral do que é ser de esquerda, isto é, defensor da democracia, dos direitos humanos, dos direitos sociais, do pacifismo, do combate à pobreza e ao capitalismo selvagem, doe emigrantes e do ambiente.

Como afirma António Scurati (Fascismo e Populismo – Mussolini Hoje, ed. Asa, 2025), a grande diferença entre a esquerda e a direita, principalmente a extremista hoje dominante nessa área, deve ser que a primeira deve transportar um desejo de esperança e mudança para melhorar as condições sociais, enquanto a direita extremista e populista assenta apenas no discurso do medo e do ódio.

Infelizmente a esquerda só vai conseguir passar a sua mensagem se o fizer através de gente integra, o que infelizmente não tem acontecido muito neste últimos tempo.

Daí a falta que nos faz uma figura como Mujica.

Que cresçam muitos Mujicas para que a esperança num mundo de democracia, direitos sociais e humanos, pacifismo, igualdade e de defesa do ambiente floresça.

 

terça-feira, 6 de maio de 2025

Eu e os Papas


Não sou católico praticante, mas, tendo sido baptizado, sou “oficialmente” cristão.

Criado e educado num país de maioria cristã  e tendo frequentado uma escola onde os ditos “valores” do cristianismo eram impostos por um regime que tinha o catolicismo conservador como um dos seus pilares, a minha educação não foi indiferente aos valores cristãos.

Aí começou a minha contradição, pois, alinhando com valores que me habituei a associar com o cristianismo, como os da solidariedade, da defesa dos mais fracos, do pacifismo, do combate às desigualdades, do respeito pelo próximo, não era isso que via ser praticado por muitos “ditos” católicos que conhecia, nem por um regime que se dizia de base católica, nem pela hierarquia da Igreja.

Apesar de dever muito do meu entusiasmo e respeito pela natureza, pelo património e pela história local às aulas de Religião e Moral do saudoso padre Joaquim, as contradições que acima referi nunca me fizeram repensar a minha atitude em relação à Igreja.

Deve-se referir que o padre Joaquim era uma excepção, não só nas aulas, onde em vez de nos impingir o livro único do catolicismo oficial e conservador, imposto por uma hierarquia dominada pelo Cardeal Cerejeira, um dos braços direitos do ditador Salazar, pelo contrário, nos tirava da sala de aula e levava a visitar o património e conhecer o ambiente natural, ou ocupava as aulas com recurso a meios audiovisuais, uma raridade pedagógica na altura, mas também como fundador e director do jornal “Badaladas”, abrindo as suas páginas ao debate e à colaboração de conhecidos oposicionistas, sendo por isso alvo do aparelho repressivo do Estado Novo, pela censura e pela vigilância da PIDE, como descobri em futuras investigações nos arquivos.

Percebi mais tarde que o padre Joaquim era diferente do clericalismo então dominante porque tinha estado ligado à Juventude Operária Católica e era um seguidor da abertura do Concílio Vaticano II, uma iniciativa do Papa João XXIII.

O meu pai, que tinha deixado de acreditar na Igreja ainda na infância, como reacção ao cinismo e hipocrisia da hierarquia da altura, revelava, pelo contrário uma grande admiração pelo papa João XXIII e pelas suas encíclicas, que na altura representaram uma ruptura com uma Igreja que por cá era cúmplice de uma ditadura e com o seu antecessor, o papa Pio XII que governou a Igreja entre 1939 e 1958, foi conivente como o fascismo e o nazismo, por muito que recentemente alguns tentem branquear a sua acção.

Infelizmente o papa João XXIII governou a Igreja por pouco tempo, entre 1958 e 1963. Mas a sua acção deixou marcas que os seus sucessores não conseguiram travar. Recorde-se que o papa Paulo IV (1963-1978) conseguiu irritar as autoridades do Estado Novo, primeiro quando, em visita a Fátima em 1967, se recusou ir a Lisboa encontrar-se com Salazar que, contrariado, teve de ser ele a deslocar-se a Fátima para estar com o papa, depois quando, em 1970, recebeu no Vaticano os líderes  dos movimento de libertação que combatiam em África, acontecimento que foi abafado pela censura.

Houve uma nova esperança de abertura com a eleição do papa João Paulo I, mas que viveu e governou poucos dias, e cuja morte foi tema de muitas teorias da conspiração, que, aliás, estiveram na origem da temática do último filme da série “O Padrinho”.

Foi então nomeado, pela primeira vez em muito tempo, um papa não italiano, João Paulo II, que esteve na origem de um dos pontificados mais longos, entre 1978 e 2005. Popular no seu contacto com os fiéis, manteve e reforçou o conservadorismo e imobilismo nos valores e princípios da Igreja. Sucedeu-lhe Bento XVI, um retrocesso na aparente abertura populista do anterior papa,  e que, incapaz de lidar com os escândalos financeiros e da pedofilia no seio da Igreja, tomou a decisão de, pela primeira vez em séculos, abdicar em 2013.

Foi então que o mundo foi surpreendido com a eleição do papa Francisco, o primeiro papa não europeu. A sua acção agitou as águas de um clericalismo conservador e bolorento, assumindo a defesa coerente dos valores que associamos à vida de Cristo, como os da critica aos poderosos, a defesa na natureza, o pacifismo, a defesa dos desvalidos, não apena pela retórica, como era o máximo que faziam os seus antecessores, mas pela prática.

Isto custou-lhe muita inimizades no seio da hierarquia e de muitos católicos conservadores e, pelo contrário, granjeou admiração mesmo fora da Igreja e entre ateus.

Foi um papa que assumiu de forma coerente os valores que associo a Cristo, ao contrário do que ainda hoje acontece com muitos ditos católicos.

A hipocrisia dominou a presença de líderes mundiais no seu funeral, mas Francisco, mesmo na morte, deu a volta aos poderosos que não puderam estar presente em Santa Maria Maior, lugar que ele escolheu para o seu túmulo, uma escolha também por si com um grande simbolismo, já que esta se situa num lugar muito frequentado por sem-abrigo e imigrantes.

No Conclave que agora se inicia confrontam-se várias tendências, a dos que querem por um ponto final às reformas iniciadas por João XXIII e aceleradas por Francisco, a dos que querem continuar a acção de Francisco, mas mantendo pontes para evitar a ruptura com os conservadores, e a dos que querem continuar e acelerar as mudanças anunciadas por Francisco, custe o que custar.

No primeiro grupo estão a maior parte dos cardeais norte-americanos (com destaque para Joseph Tobin ou o trumpista Raymond Burke), alemães (como o tenebroso Gerhard Muller), holandeses, paradoxalmente parte dos africanos (não todos), e o pior de todos, o Hungaro Péter Erdo.

A maioria está algures entre o segundo e o terceiro grupo

No segundo grupo destaca-se Pitro Parolin e vários cardeais italianos, parte dos cardeais portuguese, um cardeal suíço e um espanhol, o africano, do Gana, Peter Turkson, ou o maltês Mario Grech.

No terceiro grupo está a maior parte dos cardeais franceses, o espanhol Cristóbal Romero, o filipino Luis Tagle, o italiano Matteo Zuppi e o nosso Tolentino de Mendonça.

Mas pode acontecer sempre uma surpresa e não ser escolhido nenhum destes nomes.

Pela nossa parte, já tendo por aqui dito que só havia dois líderes credíveis a nível mundial, António Guterres e o papa Francisco, esperamos que a sucessão deste último não isole ainda mais o Secretário Geral da ONU e seja escolhido alguém que seja continuador da luta de Francisco contra as desigualdades e defensor do pacifismo.