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segunda-feira, 9 de março de 2009

Vermelho, vermelhão - antigos carros de bombeiros





A Arte do Cineclubismo - 9 - Alberto Carneiro (CC. do Porto)

Desenho de Alberto Carneiro para a capa de um programa do Cineclube do Porto de 1963.

A Arte do Cineclubismo - 8 - Arlindo Pereira (CC do Setúbal)



Capas de programas do Cineclube de Setúbal, do ano de 1959. Desenhos da autoria de Arlindo Pereira, executadas graficamente por Joaquim Madeira.

A Arte do Cineclubismo - 7 - linóleos de A. Jordão Felgueiras (CC de Guimarães)


Dois programas de sessões do Cineclube de Guimarães, realizadas em 1961 e 1962. Técnica gráfica do linóleo.
O CC de Guimarães é, ainda hoje, um dos mais dinâmicos Cineclubes nacionais.
Pode ser consultado no seguinte endereço:http://www.cineclubeguimaraes.org/.

A Arte do Cineclubismo - 6 - António Quadros (CC do Porto)


Boletins de sessões do Cineclube do Porto, ilustrados por António Quadros. O de cima data de 1958 e o de baixo de 1961.
O Cineclube do Porto ainda continua em actividade. Pode ser visitado através do seu blog http://www.cineclubedoporto.blogspot.com/.

O Fiasco do Fisco

Revela hoje o jornal "Público" que o fisco perdoou uma dívida de cerca de 2800 milhões de euros, ilegalmente retidos por mais de 55 mil empresas.
Esse dinheiro tinha sido retido por essas empresas do IVA pago pelos seus clientes e do IRS deduzido aos seus trabalhadores.
Ou seja, os clientes pagaram mais pelos produtos e serviços dessas empresas e os seus trabalhadores não viram os benefícios que essas empresas deviam ter enviado às finanças.
O que dizem disto as confederações patronais e os seus cronistas de serviço na imprensa?

Centenários 5 - Saltimbancos em Lisboa - 1909

( Os ciganos sérvios, no Cais do Sodré, vendo-se ao fundo uma das suas casas volantes.)
.
Na "Lustração Portuguesa" de 15 de março de 1909, encontamos uma pequena reportagem sobre uns "bohemios sérvios pertencentes a um acampamento" estabelecido nos arredores de Sacavem, e que exibiram nas ruas de Lisboa ursos amestrados, "pobres animaes tropegos e esfomeados, que nem por isso deixavam de enthusiasmar o rapazio com as suas lentas evoluções e habilidades".
Diligentes, as autoridades policiais proibiram a exibição na cidade.

domingo, 8 de março de 2009

Gravuras Antigas da "Illustração Portuguesa" - 2-1884/1885-MULHER DE AROUCA

MULHER DE AROUCA, SEGUNDO UMA FOTOGRAFIA DE BIEL

Cantar a MULHER

Hoje, dia internacional das mulheres, recordo dois poemas de dois dos homens que neste mundo melhor cantaram a MULHER, Chico Buarque e Vinicius de Moraes:

MULHERES DE ATENAS

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obcenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não tem gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as restantes abandonadas não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhemSe conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

CHICO BUARQUE


A MULHER QUE PASSA

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

VINICIUS DE MORAES

sábado, 7 de março de 2009

O "Magalhães" e os três "pês": Política, Propaganda e Pressas

A notícia fez a manchete de hoje do “Expresso”: 200 mil computadores “Magalhães” entregues às crianças incluem jogos educativos repletos de erros.
Mais uma vez, uma boa ideia deste governo sujeita-se ao ridículo perante a opinião pública, tudo por causa do excesso de política e propaganda, bem como pela pressa em apresentar serviço.
Um dos defeitos deste governo tem sido o excesso de política em muitos actos e decisões que não são mais do que simples obrigações do Estado. Tudo serve para exibir ufanos governantes em simples actos de gestão pública.
Outro dos defeitos desse excesso do Político na vida pública, tem sido a acção deste governo de, ao iniciar qualquer reforma, começar logo por tentar virar a opinião pública contra os profissionais e os seus representantes profissionais, em vez de os conquistar para essas reformas, ouvindo-os e incentivando-os. Pelo contrário, trata os profissionais como inimigos políticos a abater perante uma opinião pública àvida de sangue.
O segundo “pê” deste governo é o excesso de propaganda à volta de qualquer medida de governação, o que contribui para a desconfiança pública em relação a iniciativas que até são positivas, como as “Novas Oportunidades” ou o “Magalhães”. A atitude propagandística do governo arrisca-se a destruir algumas dessas boas iniciativas.
Por último, um outro “pê” deste governo está na pressa com que procura implementar medidas, que podem ser justas, mas que acabam por se perder devido aos erros e atropelos que a pressa acarreta.
Uma iniciativa louvável, como a do “Magalhães”, torna-se assim vítima dos três “pés” deste governo: Política (em demasia), Propaganda (desavergonhada) e Pressa (sempre má conselheira).

sexta-feira, 6 de março de 2009

O Preto e Branco continua lindo...

A edição de Março da revista francesa “Réponse Photo” é dedicada ao Preto e Branco.
Para além de uma vasta informação de carácter técnico sobre o uso do preto e branco na era digital, inclui um estudo sobre a acção de Léon Gaumont, mais conhecido pela sua actividade cinematográfica, na história da fotografia, na habitual secção “Ces noms qui ont fait la photo”.
Um dos pontos fortes desta edição é a divulgação de um portefólio, obviamente a preto e branco, acompanhado de entrevista, do fotógrafo Jean-Michel Berts, intitulado “Lumières sur la ville”.
A arquitectura urbana, nomeadamente de cidades como Nova York, Paris e Tóquio, é o principal tema do trabalho deste artista, que escolheu este tema porque considera a arquitectura como reflexo da civilização: “A grandeza de uma civilização mede-se pelos sonhos que os homens projectam através da sua criação”. Para Berts, a arquitectura das grandes cidades é uma “bela demonstração” desses sonhos.
Na secção “Nouveau Regard” destaca-se a apresentação de três jovens fotógrafos que se exprimem em preto e branco, Daniel Baudry, Laurence Fleury e Patrick Poiraudeau, este último com uma reportagem sobre a Ilha de Moçambique.
A fotografia da capa deste número é da autoria do siciliano Ferdinando Scianna, nascido em 1943, que se tornou conhecido pela forma como fotografou as tradições daquela ilha italiana, entrando para a Magnum em 1982. Em 1987 passou a dedicar-se à foto de moda.
A fotografia em causa foi tirada em 1987, na vila de Caltagirone, quando trabalhava com a modelo Marpressa para cumprir uma encomenda dos estilistas Dolce & Gabanna, tendo aproveitado o imprevisto de um garoto que fingia tirar fotografias com uma lata de sardinhas.
Uma edição da RP a não perder.

O mote está lançado...

Depois do estratagema de virar os trabalhadores contra os presumíveis “privilégios” dos funcionários públicos, enfermeiros, médicos e professores, parece que agora está na moda considerar como privilegiados todos os que têm emprego, tentando virar os desempregados contra os trabalhadores. A velha táctica de dividir para reinar.
Quando a crise começou, logo alguns “opinadores” de serviço lançavam o mote: quem mantiver o emprego nesta conjuntura passa a ser considerado um privilegiado, e por isso, para manter o emprego, deve aceitar suspender os seus direitos, trabalhar mais horas e receber salários (ainda) mais baixos.
Claro que, quem fala e escreve assim, fá-lo de barriga cheia, muitas vezes beneficiando de anos e anos de actividade próxima do mesmo poder económico e político, responsável pela actual situação, e gozando de chorudas reformas, acumulando rendimentos vários, uns legítimos, outros nem tanto.
Depois foi vera vergonhosa entrevista com o chefe dos patrões portugueses, apelando á desumanidade nas relações laborais como forma de as empresas vencerem a crise.
Em Portugal, infelizmente, existem muitos patrões e poucos empresários. O verdadeiro empresário procura o bem estar profissional e pessoal dos seus trabalhadores (hoje diz-se “colaboradores”), cultivado a justiça salarial.
O mote foi logo seguido pelo presidente de uma empresa pública (que, mesmo em ano de crise, obteve lucros chorudos, graças à desgraça dos seus consumidores), apelando à bufaria na sua empresa , contra aqueles que “trabalhavam pouco”, recorrendo mesmo, quando necessário, à humilhação pública dos prevaricantes. “Edificante”, o vídeo exibido na TVI, mas, ao que parece, visto por pouca gente.
Agora tivemos um Silva Lopes, figura encostada ao poder político e económico desde os tempos de Marcelo Caetano, a defender, junto de uma entusiasmada plateia de patrões e gestores de topo, o congelamento dos ordenados ou mesmo a sua redução, retomando a ideia dos assalariados como privilegiados, pelo simples facto de não estarem desempregados.
Silva Lopes, depois de estar ligados, como técnico, ao marcelismo foi “só” governador do Banco de Portugal entre 1975 e 1980, Ministro das Finanças em 1978, consultor do FMI e do Banco Mundial, deputado na Assembleia da República entre 1985 e 1987 e Presidente do Conselho de Administração do Montepio Geral entre 2004 e 2008.
Será que já prescindiu das reformas privilegiadas que aqueles cargos lhe proporcionam?
Hoje o Público desmascara o mote do ataque aos “privilegiados”, revelando que apenas uma das empresas cotadas no índice da bolsa de Lisboa, o BES, promete cortar nos salários de luxo dos seus gestores. E aponta mesmo o caso da Sonae Industria que “foi mais ágil a anunciar o despedimento de 42 trabalhadores (…) do que em definir a política salarial” dos seus gestores para 2009.
Sobre os “privilegiados”, estamos falados.

Gravuras Antigas da "Illustração Portuguesa" - 1 -1884/1885


No dia 1 de Julho de 1884 tinha início a publicação do semanário “Illustração Portuguesa”, na qual colaboravam figuras conhecidas como Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado e Pinheiro Chagas, entre outros.
Uma das características desta revista era a publicação de gravuras, baseadas em pinturas neo-clássicas ou realistas da época, mas também nalgumas das primeiras fotografias portuguesas, sendo citados, entre outros Carlos Relvas e Biel.
A gravura, no primeiro número dessa publicação, baseava-se numa fotografia de Margarida Relvas (junto reproduzida).
Este periódico foi o primeiro em Portugal a inserir uma fotogravura, em 1885, técnica que só se tornou habitual na imprensa portuguesa em 1890, exactamente no ano em que esta “Illustração Portuguesa” se finou.
Possuindo nós uma edição encadernada desse periódico, abrangendo o período de um ano, contamos publicar aqui regularmente a reprodução de algumas das gravuras aí publicadas, com vistas de vários lugares de Portugal, e não só, presumimos que baseadas nalgumas das primeiras fotografias tiradas no nosso país.
A Passagem do rio (Tejo) - gravura baseada numa fotografia de Margarida Relvas (1884)

Nos Arredores de Torres Novas - Gravura baseada numa fotografia de Carlos Relvas (1884)

Costumes do Minho - Gravura baseada numa fotografia (sen citar o autor) - (1884)

A Arte Portuguesa Consagrada em Espanha

Para comemorar o seu décimo aniversário, a prestigiada revista espanhola de divulgação artística "Descubrir El Arte" escolheu os "10 grandes" em dez áreas da arte : Museus, Artistas Consagrados, Autores mais cotados, criadores emergentes, colecções, galeristas, promotores, feiras, arquitectos e obras.
Uma instituição e um artista português foram incluidos nesta lista do "cem mais", escolhida por um conjunto de especialistas espanhóis ligados a museus, feiras, e outros ramos da arte.

A Colecção de Arte da Fundação Calouste Gulbenkien foi considerada uma das dez melhores, com relevância para as obras de Rembrant e de vários artistas do século XIX nela incluida.

Por sua vez, Álvaro Siza Vieira, foi considerado um dos maiores arquitectos contemporâneos, aqui pela sua obra no Museu de Serralves do Porto, um "exemplo do trabalho delicado e livre" do mestre.

A arte portuguesa está assim, mais uma vez, de parabéns.

A Arte do Cineclubismo - 5 - Ângelo de Sousa (CC do Porto)



Linóleos de Ângelo de Sousa para os programas do Cineclube do Porto de 1958 e 1959.

A Arte do Cineclubismo - 4 - Ângelo de Sousa (CC do Porto)





Linóleos de Ângelo de Sousa para programas do Cineclube do Porto,nos anos de 1958 e 1959

quarta-feira, 4 de março de 2009

A Arte do Cineclubismo - 3 - António Quadros (CC da Figueira da Foz)




(1956 a 1958)

A Arte do Cineclubismo - 2 - António Quadros (CC da Figueira da Foz)






(1956 a 1958)

Documentos para a História do Cineclubismo

Começamos hoje a publicação de vários documentos relacionados com o Movimento Cineclubista Português dos anos 50 a 70 do século passado.
Hoje publicamos um conjunto de reproduções de capas de folhetos, do Cineclube da Figueira da Foz, publicados entre 1956, ano da sua fundação, e 1958.
As gravuras que ilustravam esses catálogos de divulgação das suas sessões eram feitas com a aplicação da chamada linoleogravura, o que permitia um efeito gráfico bastante inovador e criativo.
Foram autores destas gravuras os artistas Ângelo de Sousa e António Quadros, este último , nascido em Viseu em 1933 e tendo iniciado os seus estudos na Figueira, nada tem a haver com o conhecido homem de letras, filho de António Ferro.

A Arte do Cineclubismo - Ângelo de Sousa (CC da Figueira da Foz)






(1958)

A "Minha" África...


Não, nunca fui a África. Ou antes, de África conheço o mesmo que conhecia D. João I, a cidade de Ceuta, que só é África na localização geográfica.
África esteve no meu horizonte por duas ocasiões na minha vida:
Uma, durante a adolescência e a juventude, com a possibilidade, sempre presente, de ser mobilizado para a guerra colonial, tendo o 25 de Abril chegado no limite, pois completei os 18 anos, 2 meses e 15 dias antes do 25 de Abril;
Outra, quando, nos finais da década de 70, me inscrevi como cooperante para a Guiné-Bissau, tendo a viagem sido adiada em definitivo, poucas horas antes da partida, por causa de um conflito diplomático, mal esclarecido, entre o governo português e o guineense.
Duas partidas falhadas, provavelmente decisivas para a minha vida.
A África tem sido um continente sacrificado ao longo da História.
Os recentes e trágicos acontecimentos na Guiné-Bissau trouxeram-me à memória um livro, lido há uns anos, ÉBANO, do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, falecido o ano passado.
Tendo acompanhado a realidade africana durante cerca de três décadas, exactamente aquelas que assistiram à descolonização e à formação das primeiras nações africanas, Kapuscinski conseguiu captar o espírito africano e as raízes do drama, num continente onde a vida humana tem muito pouco valor.
As moscas que invadem tudo, o calor sufocante, os odores nauseabundos de algumas cidades, o total desordenamento da vida social e económica que muito devem agradar aos neo-liberais, a corrupção e a violência dos poderosos, o saque permanente das suas riquezas, as intermináveis guerras civis, tudo isto atravessa a obra, escrita com a dinâmica e o colorido de um grande romance, infelizmente bem real.
Mas também o colorido dos mercados, a ingenuidade genuína dos seus habitantes, o mistério da sua cultura e a imensidão da sua paisagem.
O drama africano começou no século XV, com o início dos descobrimentos, situação que se agravou nos séculos seguintes com o desenvolvimento de um novo tipo de escravatura, que implicava guerras constantes para capturar cada vez mais escravos.
As guerras tribais africanas, que até então não passavam de meras escaramuças ou guerras rituais, tornaram-se cada vez mais violentas e uma questão de sobrevivência. Os Europeus forneciam armamento às populações africanas em troca de escravos, e a posse das armas tornou-se essencial para resistir à escravização.
O fornecimento de álcool pelos ocidentais, em grande escala, às populações africanas, ajudava a manter os conflitos, necessários para o clima de guerra permanente que alimentava o mercado esclavagista.
O Ocidente nunca se preocupou em olhar o continente africano com olhos de ver, percorrendo “apenas a superfície sem penetrar mais fundo”.
Para o jornalista polaco, o “drama de algumas culturas – entre as quais a europeia – foi devido ao facto de, no passado, os seus primeiros contactos com outras culturas terem sido estabelecidas por pessoas da mais estranha espécie – mercenários, aventureiros, criminosos, traficantes de escravos, etc. Havia também outros, mas em menos número – missionários honestos, viajantes e exploradores entusiasmados. Porém o tom, o clima, era ditado por esta internacional de salteadores. É óbvio que eles não perdiam tempo a pensar em conhecer outras culturas, em encontrar um língua comum, em respeitar as pessoas. (…) O seu único interesse era pilhar, saquear e matar” (p. 359).
Neste círculo vicioso destruíram-se civilizações milenares, desequilibrou-se demograficamente todo um continente e destruíram-se estruturas económicas e sociais.
Quando a escravatura foi extinta, de forma significativa apenas no século XIX, seguiu-se a partilha do continente pelas potências europeias na famigerada Conferência de Berlim de Novembro de 1884 a Fevereiro de 1885.
O Continente Africano foi dividido a régua e esquadro em colónias com fronteiras totalmente artificiais, ora separando povos inteiros, ora misturados populações com culturas muito diferentes.
Refere Kapuscinski que, nos “tempos anteriores ao colonialismo, havia em África mais de dez mil pequenos Estados, reinos, associações étnicas, federações. No seu livro The African Experience (…) Ronald Oliver chama a atenção para um paradoxo muito vulgar: consagrou-se a teoria de que os colonialistas europeus são os causadores da divisão africana.”Uma divisão?”, pergunta Oliver surpreendido. “Foi uma união criada à força, imposta a ferro e fogo! De dez mil passou-se para cinquenta” (p.361).
Iniciou-se então o saque final desse continente de todas as suas riquezas, impondo-lhe um sistema económico, cultural e político totalmente antagónico com a sua cultura e a sua história.
Mas o drama desse continente não terminou quando, nas décadas de 50 e 60 do século passado, se deu início aos movimentos de independência.
Os novos Estados Africanos foram construídos com bases em tais fronteiras antagónicas, numa economia e numa ideologia importada da Europa e, com algumas honrosas excepções, dirigidas por líderes corruptos, que usavam a violência para se manterem no poder, desrespeitando os mais elementares direitos humanos das populações que governavam.
A guerra fria alimentava essa gente, com cada um dos lados do conflito a exibir os seus ditadores de estimação, fornecendo-lhes armamento em troca de vantagens estratégica ou económica. Era o neo-colonialismo em toda a sua força.
Com o fim da guerra fria, a situação não melhorou, as velhas guerras ideológicas transformaram-se em guerras tribais ou de bandos de malfeitores, com massacres de milhões de pessoas, como aconteceu na região dos grandes Lagos.
Um documentário, recentemente exibido na televisão, mostra com as coisas funcionam actualmente.
A um aeroporto da região dos Grandes Lagos, no Uganda, onde se aterra com apoio de um telemóvel, quando este funciona, pejado de destroços de aviões aí acidentados, chega um avião russo que vai descarregar ajuda alimentar da ONU, transportando igualmente armamento para os grupos responsáveis pelos milhares refugiados da região que esperam por aquela ajuda.
Na volta, o mesmo avião transporta para a Europa a valiosa perca do Nilo, peixe muito apreciado, mas cuja criação descontrolada dizimou outras espécies daquela região, arruinando as pequenas comunidades de pescadores locais, que engrossam os milhares de refugiados ou os bandos de salteadores locais.
Os restos da perca, que não são enviados para os consumidores ricos do norte, são transportados em camionetas, percorrendo um caminho em mau estado, durante horas, debaixo de um Sol abrasador, até uma imensa lixeira, com um chão coberto de larvas, onde centenas de africanos recolhem as partes do peixe “aproveitáveis”, para fornecer os vendedores ambulantes da cidades próximas, que fritam esses restos para alimentar os seus habitantes.
Mesmo assim, pode haver esperança para um continente que não deixa indiferente ninguém que o visita, ou que deu à luz o mais humano e grandiosos de todos os políticos dos últimos 50 anos, Nelson Mandela.
Berço da humanidade, esta deve a África um sinal de esperança…

Cem Anos de Publicidade Portuguesa - 3





(Fonte: Ilustração Portuguesa, 1909)
(clicar na imagem, para ver em tamanho maior)

terça-feira, 3 de março de 2009

A "OBRA SOCIAL" SOCRÁTICA.

A notícia vem hoje no Diário Económico: “Valor das pensões será metade dos salários - Estudo da OCDE mostra que as novas regras deixaram Portugal com a 6ª taxa de substituição mais baixa no conjunto dos 30 países”.
No artigo, da autoria da jornalista Margarida Peixoto, pode ler-se que “antes, os trabalhadores podiam contar com uma pensão média correspondente a 90% do último salário recebido; agora, esta taxa será muito mais baixa e para quem se aposentar em 2030 ficará pelos 54,1%”.
Esta situação é tanto mais grave quanto se sabe que a base salarial em Portugal é das mais baixas da Europa. Ou seja, na França e na Alemanha, onde aquela percentagem ainda será pior que a nossa, a base salarial daqueles países e as suas condições sociais vão permitir que, mesmo assim, as condições de vida dos reformados se mantenham com qualidade de vida.
Acrescenta ainda aquele estudo que aquela percentagem se situa “aquém da média (68%) e longe da recomendação de 70% da OCDE”.
Assim se vê a governação de “esquerda” do PS.
Depois de ter tornado o nosso país um daqueles com mais desigualdades sociais na Europa, depois de retirar direitos a quem trabalha, depois de aumentar o desemprego para níveis históricos, ainda antes da crise, depois de investir contra grupos profissionais e sindicatos, depois de iniciar a desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde e a do Ensino Público, aí está mais um resultado da política social socrática.

Primeira edição da revista COLOR

Acaba de ser colocado à venda em Portugal o primeiro número da revista norte-americana de fotografia “COLOR”, com a data de Abril de 2009.
Da responsabilidade do mesmo editor da prestigiada “B & W”, John Lavine, visa divulgar a fotografia a cores nas suas diversas variantes, da fotografia artística ao fotojornalismo.
Nesta sua edição inicia a publicação de uma história da fotografia a cores, da autoria de Carol McCusker, curador do Museu de Arte Fotográfica de San Diego.
A primeira parte dessa história aborda o período que vai de 1840 a 1940, analisando as tentativas pioneiras de Talbot e Daguerre e o recurso a artistas para colorir as primeiras fotografias, até à obtenção da primeira fotografia a cores em 1861, pelo físico escocês James Clerk Maxwell (1831-1879). A exploração da cor na fotografia conhece, no fotógrafo francês Louis Ducos du Hauron (1837-1920), a sua expansão como arte. Mas é nos anos 30 que a fotografia a cores se vai popularizar com a comercialização do Kodachrome. O resto da história contínua na próxima edição.
Segue-se um dossier especial sobre a obra de Eliot Porter, nascido no Illinois em 1901 e falecido em 1990, considerado o “Ansel Adams da cor”.
Sobre Ansel Adams e a sua pouco conhecida incursão na fotografia a cores pode-se ler também um pequeno artigo.
Além de várias notícias sobre edições e exposições, este número lança um primeiro grande concurso dirigido a todos os fotógrafos que usam a cor nos seus trabalhos.
Completam esta edição vários portefólios dos fotógrafos Saul Leiter, Jeffrey Becom, Carolyn Cole, Douglas Ethridge, Irving Greines, Maggie Taylor, autora da capa desta edição, Michael Thompson e Huntington Witherill, revelando várias formas de explorar as potencialidades da fotografia a cores.
O meu amigo e conterrâneo Nana Sousa Dias (do qual se pode apreciar um portefólio nos meus sites, registados na coluna do lado), foi um dos primeiros portugueses a ter direito à publicação de um portefólio na “B&W”. Veremos quem vai ser o português a estrear-se na “COLOR”.

BD - 30 anos do Rei Minimus - 4




(clicar na imagem para ver em tamanho grande)

domingo, 1 de março de 2009

crónica de um congresso "norte-coreano".

Tal como se esperava, nada de substancialmente novo saiu deste congresso.
O mote para a campanha eleitoral do PS está lançado: por um lado a vitimização do chefe, insistindo na “campanha negra” (que parece ter dado sinal de si no apagão de ontem à noite); por outro o discurso de “ou a maioria absoluta ou o caos”.
Sobre a apregoada “campanha negra”, como cidadão, muito gostava que o nosso primeiro concretizasse a sua origem, dando um cabal esclarecimento público sobre a mesma. Se tivéssemos um verdadeiro Ministério Público, este devia chamar o Primeiro-Ministro para prestar esclarecimentos sobre o que sabe do assunto.
Sobre a “maioria absoluta”, este deve ser o único país europeu onde o tema motiva discursos políticos e campanhas eleitorais. Na maior parte dos regimes democráticos governa-se sem maiorias absolutas. É mais um sinal de menoridade democrática dos nossos líderes políticos.
Este congresso, em vez de debater ideias e programas para melhorar a situação do país, limitou-se ao mero ataque pessoal contra adversários à direita e, principalmente, à esquerda.
Três “factos” ficam a marcar a história deste congresso:
- o discurso contra o Bloco de Esquerda, apontado como o principal inimigo a abater, dando de barato que o eleitorado de direita, provavelmente embevecido pela acção deste governo, não vai abandonar o PS e voltar-se para o “seu” partido natural, o PSD, assim como a ideia de que não vai perder um único voto para o PCP;
- a ausência de Manuel Alegre, que, com esta atitude, se deixa isolar dentro do partido. Veremos quais as consequências pessoais e políticas deste “não -acontecimento”;
- a escolha de Vital Moreira para liderar a lista do PS ao parlamento europeu. Aqueles que esperavam um sinal à esquerda, escolhendo Ferro Rodrigues para esse cargo, ou um sinal aos independentes, escolhendo Freitas do Amaral, apanharam com um dos mais acérrimos apoiantes ideológicos deste governo.
Contudo isto, passou praticamente despercebido o programa eleitoral apresentado ao congresso, todo ele numa tentativa hipócrita de encostar Sócrates à esquerda.
O responsável pela maior deriva neo-liberal em Portugal, vem agora apresentar-se como crítico desse mesmo neo-liberalismo, embarcando na onda do momento.
Este congresso só convenceu os que já estavam convencidos.