terça-feira, 14 de novembro de 2017

Nos Últimos Dias da União Soviética – 3 – Minsk, Julho de 1991


Fim da tarde do dia 28 de Julho de 1991. Estamos no aeroporto de Kiev para apanhar o voo para Minsk, próxima etapa da nossa viagem, com partida prevista para as 18.40.

Durante a espera conheci um jovem guineense que estava em Kiev a estudar direito internacional e viajava, como nós, para Minsk, que ficou contentíssimo por poder falar português.

O avião em que viajamos era um pequeno bimotor, movido a hélice, de 50 lugares, estremecia muito, o céu estava muito nublado, o que para mim, ainda pouco à vontade a voar, tornou a viagem um pouco assustadora, estando sempre a tentar ver os sinais dos passageiros habituados àquele voo. Se estivessem descontraídos, era porque estava tudo a correr bem.

Ao meu lado ía sentado um velhote a ler o “Pravda”, com o peito coberto de medalhas, com quem meti a conversa possível. Para surpresa minha ele foi a única pessoa, em todas a viajem, que me identificou como português. Geralmente pensavam que era italiano e até me confundiram com um turco ou um árabe.

Fiquei a saber que o velhote que estava ao meu lado era um antigo “partisant” que tinha combatido os nazis na Segunda Guerra, tendo-os perseguido a partir da Bielorrússia até à Áustria e Alemanha. Via-se que era um homem informado e viajado.

Chegados a Minsk fomos para o hotel e fiquei com uma primeira impressão da cidade, pareceu-me uma cidade de subúrbio, tipo Odivelas ou Amadora, mas com mais espaços verdes.

O jantar no hotel foi muito animado, cheio de gente, com um conjunto a tocar ao vivo e gente a dançar.

Dia 29 de Julho. O dia é para visitar a cidade de Minsk.É Domingo e encontra-se quase tudo fechado.

De manhã fomos visitar um cemitério que funciona como memorial, pois aí estão sepultados muitos dos cidadãos e “partisans” mortos durante a 2ª Guerra.







Minsk foi uma das cidades mais martirizadas pela guerra, pois foi no solo da Bielorrússia  que se registaram os combates mais violentos e prolongados daquele conflito.

Minsk esteve ocupada pelos nazis e foi toda destruída, não existindo praticamente edifícios antigos, sendo por isso uma cidade moderna, com largas avenidas e imensas zonas verdes. Ao contrário de Moscovo e Kiev as pessoas aparentam viver melhor aqui, as montras estão mais cheias e com maior variedade de produtos.

Tudo aqui é muito mais barato que em Moscovo ou Kiev.

Entre as recordações que aqui comprei, aproveitando os preços mais baratos, está um xadrez em madeira que me custou 60 rublos, cerca de 300 escudos em moeda portuguesa (um euro e meio, na actualidade).

Até o câmbio foi mais barato para nós, pois recebemos mais de 30 rublos por cada dólar, quando nas cidades anteriores um dólar não dava mais de 27 dólares. Pelo que soubemos, o dólar foi revalorizado  na passada 6ª feira, não sabemos se apenas na União Soviética se à escala mundial.

Por outro lado, foi aqui que vi a maior quantidade de pedintes. No cemitério que visitámos, devido ao facto de aí se juntar muita gente para a missa de domingo que se realizava na Igreja ortodoxa próxima, eles eram mesmo muitos, velhotes e crianças.

Continuando a nossa visita pela cidade, a paragem seguinte foi numa imensa praça com uma grande estátua de Lenine em frente de um gigantesco edifício, tudo ao estilo da grandiosidade exagerada da arquitectura estalinista, fazendo lembra as imagens de Bucareste.



A terceira paragem da manhã foi junto da “estátua da Victória”, comemorativa da vitória sobre os nazis..





Após o almoço partimos para uma visita aos arredores de Minsk, que incluiu um museu etnográfico e uma visita ao memorial Khatyn.

As estradas, de 4 faixas, não são muito largas. A paisagem variava entre grandes pinhais e grandes campos de trigo. Muito do trigo estava a estragar-se nos campos, por não ter sido apanhado a tempo, mais um sinal da falta de organização económica deste país.

A Bielorrússia é considerada o celeiro da União Soviética. Quando do trágico acidente de Chernobyl, embora a central nuclear ficasse mais perto de Kiev ( a cerca de 100 quilómetros), esta região foi a que mais sofreu porque os ventos levaram as radiações para Minsk e arredores e a chuva radioactiva, que então se abateu sobre a região, afectou a produção de cereais, embora de forma diferente do previsto, aumentando a produção de cereais pelo efeito das radiações.

Tenho comido pão aqui e lembro-me sempre se não estarei a comer pão contaminado…

Por falar no pão da Bielorrússia, bebi aqui, pela primeira vez, uma das bebidas mais características da União Soviética, o KBSC (lê-se “quevasse”), feita à base do pão escuro muito característica do país.

Continuando a nossa viagem, a nossa primeira paragem foi no Museu etnográfico da Bielorrússia, com duas salas demonstrativas do artesanato da região, donde se destacam, pela originalidade, os vários objectos de artesanato feitos em palha.

Seguimos depois para o Memorial de Khatyn, que fica a cerca de 40 quilómetros de Minsk. Fica localizado no sítio onde existiu uma aldeia totalmente queimada pelos nazis durante a guerra, sendo os seus habitantes queimados vivos dentro da Igreja da aldeia.


Um testemunho impressionante do sofrimento das populações locais durante a Segunda Guerra.

Regressados ao Hotel, e depois do jantar, tive a oportunidade de dar um pequeno passeio pelos arredores: casas baixas, parecendo vivendas, com grandes quintais e jardins e muitos espaços para as crianças se divertirem, mas o espaço estava mal tratado, com vegetação por cortar.

As ruas são patrulhadas por policias bastante jovens, em grupos de três, e que se dedicam a prender os bêbados que encontram. Estes só não são presos se estiverem acompanhados por alguém sóbrio, geralmente as próprias esposas.

Votando ao quarto de hotel, este é o primeiro quarto com televisão, apesar de ser a preto e branco (as emissões são a cores) e apanhar apenas três canais. Pude ver a transmissão de um festival de musica rock, com vários grupos soviéticos, filmado, pelo que me pareceu, no estádio Olímpico de Moscovo , que ficava próximo do nosso hotel moscovita.

Amanhã deixamos Minsk e partimos de avião até Leninegrado (hoje S. Petersburgo).

domingo, 12 de novembro de 2017

Nos últimos dias da União Soviética – 2 -Em Kiev - Julho de 1991


Depois de um dia a visitar Moscovo, chegamos ao final da tarde ao Hotel, para um jantar rápido, pois tinhamos de partir para a estação de comboio que nos ia levar a Kiev, o próximo destino da viagem.

Estava tudo na maior das calmas a prepara as coisas, quando somos alertados para o facto do comboio partir às 20.20, e não às 22 horas como erradamente tínhamos sido informados.

Numa correria louca o nosso autocarro lá conseguiu chegar à estação, apenas 7 minutos antes da partida.

Era um comboio como mais de 20 carruagens e os lugares reservados para todos os elementos da excursão eram nas nº5 e nº8.

O meu beliche ficava na carruagem nº 8, onde entrei e coloquei as malas, indo depois auxiliar alguns companheiros de viagem mais velhos aflitos com as malas e com o tempo que se aproximava da partida. Foi assim que atravessei as carruagens 6 e 7 para chegar à nº5, para onde ía um desses elementos do grupo, mas que tinha entrado por engano na nº8, indo eu ajudá-lo com as malas, mas quando íamos entrar na carruagem 5, aparece uma revisora, bastante gorda, parecia saída de um velho filme dos tempos stalinistas, aos berros connosco, pedindo-nos os bilhetes e a impedir-nos de entrar na carruagem nº 5 e nós a tentarmos dizer que os bilhetes tinham ficado com o nosso guia na nº8.

Tentávamos falar em inglês (o meu era mau) e ela aos gritos, cada vez mais histérica, em russo, mostrando intensão de nos expulsar do comboio, pelo que, nós, sem os bilhetes na nossa posse, desatámos a correr, passando pelas nº6 e 7,  para regressar à nossa carruagem, enquanto o comboio começava a andar.

Quando tentámos passar da 7 para a 8, aparecem dois revisores e novamente a mesma cena, e nós sem o bilhete na nossa posse, e eles não nos percebiam, nem faziam um esforço por isso.

Desconhecíamos se os outros elementos do grupo tinham conseguido entrar no comboio, pensando já que estávamos ali sozinhos, sem bilhete, a caminho de Kiev, sem que ninguém percebesse o nosso inglês.

Felizmente houve um passageiro russo que deve ter perecebido alguma coisa do que dizíamos e que se abeirou dos revisores, que acabaram por nos deixar entrar na carruagem nº8 onde estavam os restantes colegas de viagem e o guia com o bilhete. Ficámos entretanto a saber que duas das velhotas do nosso grupo não tinham conseguido entrar a tempo, ficando sozinhas na estação de Moscovo. Mais tarde soubemos que elas tinham voltado ao hotel e juntar-se-iam a nós um dia depois em Kiev.

A viagem durou cerca de 13 horas, chegando a Kiev pelas 9.30 da manhã do dia 26 de Julho .

Kiev fazia então parte da União Soviética, distava cerca de mil quilómetros de Moscovo e tinha cerca de 3 milhões de habitantes. Era então a  terceira maior cidade da União Soviética, capital da então Republica da Ucrânia. Tinha sido ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra e foi das que mais sofreu com o conflito. É banhada pelo rio Dniepre, um dos três maiores da Europa e que desagua no Mar Negro.

Kiev é formada por vários canais atravessados por várias pontes  e com muitas zonas verdes. 

As colinas junto ao rio eram banhadas pelo dourado das cúpulas de igrejas e conventos ortodoxos. O metro era menos complicado do que o de Moscovo.

Ficámos no hotel “Typcut” (“Turista”), um nome menos original que o de Moscovo (“Salut”=”Fogo de artifício”), com metro à porta, a estação “Margem Esquerda”.

Nessa primeira manhã em Kiev tivemos tempo livre, entre as 12 e as 14 horas, que aproveitei para visitar um mercado junto ao hotel, onde típicos camponeses ucranianos vendiam  fruta, legumes, vegetais vários, carne e peixe seco.

Junto ao mercado bebi uma cerveja russa e meti conversa com 4 russos que, tal com eu, mal sabiam falar inglês, mas lá nos fomos entendendo. No final dei-lhes moedas portuguesas e esferográficas.

A idéia com que fiquei de Kiev é que era uma cidade mais alegre e cosmopolita do que Moscovo, com mais sol e luz, com gente mais simpática e um estilo de vida mais ocidentalizado.

De tarde fizemos uma viagem panorâmica pela cidade.

Aqui, tal como já tinha acontecido em Moscovo, cruzámo-nos com a comitiva do primeiro-ministro grego, em visita oficial à União Soviética .

Pelo final da tarde, entre as 19.30 e as 21.30, fizemos uma viagem de barco ao longo do Dniepre. O rio possui várias ilhas arborizadas, algumas de grande dimensão, com casas de madeira e praias, muito apreciada pelos russos.





(a fotografia de cima foi tirada por mim em 1991. A de baixo é a mesma vista, na actualidade, tirada da net)

Regressados ao hotel de metro, para aprendermos a andar nele, e aí assistimos a uma festa-baile e encontramos uma grande grupo de espanhóis que fez uma festa quando soube que eramos portugueses.

Antes de me deitar ainda dei uma volta pelo arredor do hotel e fui até uma das pontes de Kiev aí perto.

Próximo do meio da viagem, depois de Moscovo e um dia em Kiev, já me começava a fazer alguma impressão a extrema pobreza económica da União Soviética. Apesar de as pessoas se vestirem mal (um pouco melhor em Kiev do que em Moscovo), apesar de não terem muitos produtos para escolher e os que existiam serem de má qualidade, e muitos serem inacessíveis ao bolso da maioria dos seus cidadãos, todos ostentam um ar digno, raramente aparecem pessoas a pedir esmola. Aqui em Kiev a corrupção e a especulação que se via em Moscovo não era tão notória.

Existiam contudo três coisas positivas que descobri nesse país: o sistema de transportes, com qualidade, rápido , eficiente e barato; a urbanização, apostando-se muito nos espaços verdes, com edifícios, que não sendo bonitos, estavam bem integrados na paisagem; e por último…os selos do correio que tinham muita cola!

No segundo dia em Kiev, 27 de Julho, visitámos a catedral de Stª Sofia, fundada no século XI, o mais antigo monumento cristão, ortodoxo, do leste da Europa.

Também na preservação do património os soviéticos parece que têm algum cuidado, sendo de uma beleza indescritível as cúpulas douradas das igrejas e os frescos que cobrem a totalidade do seu interior.


Naquela catedral foi possível ver frescos pintados em épocas diferentes em camadas sucessivas.

Percorri as ruas à volta da catedral. Fui a um pequeno café, que apenas servia chás e cafés com leite e 3 ou 4 variedades de bolos secos e tostas com conservas, muito pobrezinho, mas foi o único café que encontrei para comer qualquer coisa.

Entrei numa ourivesaria, onde, apesar da pouca variedade de objectos expostos,   reinava uma enorme confusão. O problema, começo a descobrir, está na “organização”: primeiro escolhe-se o objecto; depois vai-se para uma fila para pagar na caixa com uma data de papéis na mão; depois levam-se os papéis ao balcão e, finalmente, depois de se espera noutra fila, recebe-se o objecto. É assim que funciona quase tudo, triplica o tempo de espera e provoca imensas filas.

Deslocando-me a outra rua próxima, deparei-me com uma pequena manifestação de nacionalistas ucranianos, coma as bandeiras da Ucrânia (faixas em amarelo e azul), gritando várias palavras de ordem pela independência da Ucrânia e contra o “fascismo” e que estava a ser filmada por um canal de televisão. A manifestação decorri frente a um grande edifício que me disseram ser a sede local da policia e do KGB. Só lá estavam três policias de ar calmo, separados dos manifestantes por uma pequena barreira em ferro.

Tentei falar em inglês com um dos manifestantes que me explicou que a razão daquela manifestação era protestar contra as condições de vida da população da Ucrânia. Fez uma grande festa quando soube que era português e começou a falar-me de um jogo entre o Dínamo de Kiev e o Porto. Não pude ficar mais tempo pois tinha de voltar ao autocarro que me levaria ao Hotel. Desejei-lhes Boa Sorte, mal adivinhando que não faltaria muito tempo para a Ucrânia se tornar independente. O que terá acontecido àquelas pessoas?

Voltámos ao Hotel para o almoço, excelente mais uma vez, especialmente as sopas.

À tarde fomos visitar o “Mosteiro de Laura”, um dos mais importantes da Igreja Ortodoxa. A profusão de monumentos religiosos ortodoxos na região de Kiev deve-se ao facto de esta ter sido a primeira capital da Rússia, a chamada Rússia de Kiev, fundada no século XI.


Para além das suas exuberantes cúpulas, existe no Mosteiro de Laura o museu das joias preciosas, com peças do século IV a.C ao século XX.

Tendo começado a chover, apesar do calor que se fazia sentir em Kiev, já não podemos vistar as catacumbas do mosteiro, já que estas, devido à humidade, fecham sempre que chove.

Tendo regressado ao Hotel fui, depois de jantar, dar uma volta por Kiev, começando por fazer uma viagem de metro até ao fim da linha que passa frente ao Hotel. Este metro é de superfície junto ao Hotel, passando depois por cima do rio Dniepre, tornando-se depois subterrâneo. A beleza das estações subterrânea não fica nada a dever às famosas estações do metro se Moscovo (que só visitarei no final da viagem, quando regressarmos a Moscovo).


A última estação da linha ás sair a uma gare ferroviária, num subúrbio da cidade, pelo que voltei e segui até à estação que ficava no centro da cidade, numa ampla e bela avenida, cheia de gente, mas onde infelizmente não havia uma única esplanada para desfrutar do movimento.

Nesse avenida encontrámos apenas duas lojas abertas , cheias de gente que comprava o pouco queijo ou a pouca manteiga que aí se vendia, e a confusão era, mais uma vez, gerada pela forma como essas lojas funcionam, e que descrevi noutra parte desta memória de viagem.

O dia 28 de Julho foi o último dia passado em Kiev, antes de partirmos para Minsk.

De manhã vistamos um museu etnográfico a 30 quilómetros de Kiev. Esse museu reproduz vários tipos das aldeias da Ucrânia dos século XVIII, XIX e XX, tal como eram antes da Revolução, uma espécie de “Portugal dos Pequeninos”, talvez idealizado num assomo de má consciência das autoridades soviéticas pela tragédia vivida no mundo rural ucraniano durante os tempos stalinistas.

Nesse museu ao ar livre repoduz-se o ambiente das aldeias de então, onde as casas eram construídas com vários materiais tradicionais, de acordo com a posse de cada um e que reproduziu a rigidez social dos tempos czaristas. Aqui existem alguns originais moinhos em madeira.

A visita culminou com uma patuscada num restaurante aí existente, todo construído em madeire e no meio de uma frondosa mata, explorado por iniciativa  privada, sinal dos tempos da Perestroika.

Regressados ao Hotel, e depois de almoço, preparamos as malas para a partida,mas fizemos ainda uma última visita guiada durante a tarde.

Cruzámo-nos com mais uma manifestação nacionalistas, desta vez de militares ucranianos que defendiam a criação de um exército ucraniano. Embora o número de manifestantes fosse pequeno, eram um pouco mais agressivos do que os da outra manifestação.



Ainda vistámos outra Igreja de belas cúpulas douradas barrocas, e partirmos para o aeroporto de Kiev para partirmos para Minsk, o nosso próximo destino.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nos últimos Dias da União Soviética (uma viagem em 1991)


Quis o destino que a minha primeira viagem para fora da Península Ibérica, e a primeira de avião, se fizesse para Moscovo, em 23 de Julho de 1991, restavam poucos dias para o fim da União Soviética.

Foi uma sensação estranha a primeira vez que levantei voo, eu que até então apenas tinha viajado numa pequena avioneta.

Mais estranho ainda foi a rapidez com que depressa avistei os Alpes, apenas duas horas depois da partida, uns Alpes ainda cobertos de neve, apesar de ser Verão, e, logo de seguida, os grandes lagos da Suiça, num dia límpido onde, por causa da altura da Suiça, avistávamos nitidamente do avião os carros que circulavam à volta desses lagos.

Depois de passarmos pelos espaços aéreo das então Republica Federal Alemã e Checoslováquia, aproximámos-nos de Moscovo, após cerca de cinco horas de viagem, numa descida que meteu algum medo para quem, como eu, nunca tinha viajado àquela altura, pois só se avistavam enormes bosques, no meio dos quais um “pequeno” aeroporto, minúsculo daquela altitude, mas do qual rapidamente nos aproximamos para uma aterragem sem sobressaltos.

Estava em Moscovo, capital do Império Soviético, a viver os seus últimos dias como tal, embora ainda ninguém o soubesse.

Atravessámos um aeroporto pouco movimentado, com filas de computadores desligados, mas as formalidades, ao contrário do que imaginava, foram pouco demoradas. Jantámos num restaurante do aeroporto e saímos, já de noite, pelas 23 horas, hora de Moscovo, a caminho do hotel, nos arredores da capital, atravessando a cidade de autocarro, onde, através dos vidros, observei as ruas pouco movimentadas e pouco iluminadas, vislumbrando à distância, pela primeira vez, as míticas torres da Praça Vermelha.




Depois de atravessarmos a longa “Avenida Lenine”, com mais de 17 kilómetros, quase no final desta, à direita, lá chegámos ao  Hotel “Salut”, construído para os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980.



(Hotel Salut na actualidade)

Eram 4 horas da manhã do dia 24 Julho quando acordei com uma surpreendente luz do dia, que as grossas cortinas do quarto não filtravam, voltando a adormecer para voltar a ser acordado às 6 da manha, desta vez pelo rádio do quarto em altos berros, a debitar o hino da União Soviética com que iniciava a emissão do dia.

Depois de o desligar voltei a adormecer, sendo novamente acordado, pelo telefone. Do outro lado da linha oiço uma voz masculina em russo, que eu julgava ser o despertador que eu tinha pedido para as 8 da manhã, tratando de me apressar com o banho e a higiene matinal. Uma hora depois, tocou novamente o telefone, desta vez responde uma voz feminina em russo, a quem agradeci intrigado, saído para o átrio, o local de encontro com os restantes elementos da excursão para iniciar a visita a Moscovo. Para grande espanto, não se encontrava ninguém no átrio, a não ser os empregados do Hotel, pensando que me tinha atrasado. Foi quando reparei novamente, ao regressar ao quarto, no relógio electórnico que só marcava 8 da manhã. Tinha-me levantado uma hora mais cedo, já que o primeiro telefonema tinha sido um qualquer engano e o segundo, esse sim tinha sido para acordar.

Aproveitei o tempo de espera para dar uma volta pelos arredores do Hotel.

(vistas do meu quarto de Hotel)

Via-se gente a passear os seus cães e os campos invadidos de corvos, que aqui são cinzentos, grandes e mansos como pombos, e que, descobri depois, abundavam por toda a cidade.

Finalmente, depois de um refastelado e variado pequeno almoço, lá partimos para uma primeira visita a Moscovo.

Moscovo era então uma cidade com cerca de 10 milhões de habitantes e quase 100 quilómetro de extensão, com grandes zonas verdes e bairros sóbrios.

Os poucos carros que circulavam eram quase todos da marca “Lada”, um modelo idêntico ao “FIAT”, ou de marcas desconhecidas no ocidente. Viam-se muitos e robustos camiões e a maior parte dos carros pareciam saídos dos anos 50/60.






A nossa primeira paragem foi na Universidade de Moscovo, um dos edifícios mais icónicos da era soviética, um majestoso edifício , nos arredores da qual pudemos visitar um grande miradouro com uma vista sobre a verdejante cidade, visitando depois uma das características Igrejas ortodoxas que lhe ficavam próximo, e onde comprei, a uma velha devota, um interessante crucifixo, com a cruz ortodoxa, todo em metal. Nunca percebi se era uma réplica, vendida a turistas, ou se a velhota resolveu fazer algum dinheiro com um objecto pertencente à Igreja.





Prosseguimos com uma viagem de autocarro por Moscovo. Aqui os sinais funcionavam ao contrário: primeiro o vermelho, depois o amarelo, e finalmente o verde.

Parámos num sitio com algumas lojas. Tinha observado que, por aqui, as montras eram raras e as que existiam tinham pouca decoração e, vislumbrando para dentro, com poucos produtos para vender, e os que existiam eram pouco variados.

As pessoas vestiam-se de forma modesta, mas limpa, embora os modelos e os tons fossem variados. Só entre os mais jovens o vestuário era mais moderno.

Depois de regressarmos ao hotel para o almoço, muito bem servido, regressámos à tarde para visitar a emblemática Rua Arbat, uma vasta rua, maior que a nossa Rua Augusta, de casario bem decorado e colorido, com muito comércio de rua e com montras bem mais recheadas e decoradas que aquelas que até então tínhamos visto.











Por todo lado jovens com bancas onde vendiam artesanato e pintura, onde faziam retratos aos turistas, músicos de folk e jazz, cafés e pequenos restaurantes, com muito movimento.

Nas breves conversas possíveis com alguns dos vendedores, todos perguntavam se eramos árabes ou turcos e faziam uma grande festa quando sabiam que eramos portugueses.

Foi também nesta rua uma das raras vezes que vi crianças de etnia  ciganas a pedir esmola, em grupos de 4 ou 5.

Nessa visita perdi-me dos restantes membros da excursão, por não ter ouvido com atenção a hora de encontro, tendo chegado ao local previsto quase duas horas depois do indicado. O que me valeu é que o mesmo aconteceu a outro colega de viagem, que já tinha estado em Moscovo e arranhava umas palavras em russo, tendo conseguido encontrar uma estação de metro ali perto ,para podermos regressar ao Hotel.

O problema era descobrir qual a estação mais próxima do Hotel.

Em Moscovo existiam então mais de 10 linhas de metro e mais de 100 estações, algumas distando entre si dezenas de quilómetros, algumas com a extensão de 80 quilómetros, e todas as indicações estavam em Russo. Às vezes uma palavra extensa apenas se distinguia de outra pela posição de outro carater, tudo em cirílico. Tínhamos connosco a indicação do metro mais próximo do Hotel, mesmo assim a estação ainda ficava a mais de 500 metros do mesmo. Era quase como procura agulha em palheiro naqueles grandes mapas de parede.

Ainda por cima era hora de ponta, e a confusão nas plataformas e dentro dos combóis era imensa, um verdadeiro formigueiro que contrastava com o que tínhamos visto à superfície, bem mais calmo e menos confuso.

Finalmente, com a ajuda de alguns moscovitas, lá descobrimos a linha que tínhamos de seguir. Era a nº 1.

Chegados à ultima estação da linha, que ficava a 500 metros do Hotel, lá tivemos de caminhar de noite, tendo começado entretanto a chover.

Chegados ao Hotel por lá fiquei à noite, jantando uma excelente e bem servida refeição, com direito a um chá.

Como estava a chover muito desloquei-me para o bar do Hotel, onde passava num televisor uma selecção de videoclips, gravados por satélite a partir do “Channel Plus”, passando musicas de Peter Gabriel, Sting e outros tops ocidentais do momento.

Pela primeira vez na viagem bebi uma bebida alcoólica, um vodka, como não podia deixar de ser, pelo preço de 5 rublos.

No dia seguinte, 25 de Julho, fomos finalmente ao Kremelin, começando a visita pela espectacular Igreja da Anunciação, de grandes cúpulas douradas e magnificas pinturas a fresco e imagens de icons.







Passámos depois à Praça Vermelha, limitada no lado do rio, pela Catedral de S. Basílio, de grandes cúpulas coloridas, que mais parece um brinquedo, e do lado oposto, pelo Museu de História Nacional. À direita, o muro do Kremelin, junto do qual, no seu inicio, fica o Túmulo de Lenin e, na continuação deste, ao ar livre, os túmulos das principais personagens da história soviética, de astronautas a Stalin. Também aqui se localiza a bancada de onde costumavam ficar os lideres soviéticos que assistiam às grandes paradas militares ou comemorativas.











Do lado contrário o grande edifício do GUM, então o maior centro comercial de Moscovo, que foi o edifício que visitámos depois da Igreja da Anunciação. O GUM era um edifício de dois andares com pequenas lojas onde se vendiam toda a espécie de produtos. A maior parte dos produtos não me pareceram de grande qualidade, principalmente os de vestuário e calçado. De qualquer modo estava cheio de gente, formando-se grandes filas para pagamento das compras.



Almocámos num Hotel contínuo ao GUM, o Hotel Moscovo, então o mais luxuoso da capital soviética.


(interior do Hotel Moscovo, tirada da net)

No restaurante fomos assediados pelos empregados e outras pessoas que nos procuravam vender tudo e mais alguma coisa em troca de dólares, quase se esquecendo de nos atender.

O serviço e a comida não eram tão boas como no nosso hotel. Tinham contudo uma excelente sopa. As sopas, pelos menos em Mocovo e nessa época, eram muito saborosas.

Depois de almoço deslocámo-nos de autocarro até ao “Museu das Realizações Económicas”, um enorme espaço ao ar livre com vários pavilhões e espaços verdes que procurava ser uma montra das actividades económicas da União Soviética ao longo do tempo.

O espaço mais interessante era o “Cosmos”, dedicado à astronáutica soviética, mas que, infelizmente, nesse dia se encontrava fechado. Mesmo assim, espreitando para dentro do pavilhão, era possível ver uma réplica do Sputnick e outra réplica, também em tamanho natural, de um foguetão bem como, ao ar livre,  uma plataforma de lançamento.

Estivemos aí num bar, onde as bebidas eram pagas em dólar (uma imperial= a 1 dólar..).

Regressámos ao Hotel, pois nessa noite tínhamos de nos deitar cedo, pois partiríamos de madrugada, de comboio a caminho de Kiev, para um estadia de dois dias, seguindo-se outra estadia de dois dias em Minsk, visitando ainda a então Leninegrado, hoje S. Petersburgo, onde ficámos também dois dias, regressando a Moscovo de 2 a 5 de Agosto.

Mas a essas viagens voltaremos noutra ocasião.

Só recordar que, menos de 15 dias depois do nosso regresso, dava-se o golpe conservador stalinistas de 19 de Agosto, derrotado pelas forças democráticas, desencadeando o fim da União Soviética.


Aqui fica uma parte das nossas “recordações soviéticas” a poucos dias de mais uma semana que iria de novo abalar o mundo .

( a maior parte das fotografias foram recuperadas a partir dos negativos dessa  viagem, cujas fotos foram tiradas numa "Kiev",máquina russa analógica, que tínhamos comprado anos antes a uma amiga que estudava na Bulgária)