quinta-feira, 20 de setembro de 2018

A Arte popular "politicamente incorrecta" dos moliceiros de Aveiro

A FORMA E A LUZ: A Arte popular "politicamente incorrecta" dos moliceiros de Aveiro...: Os barcos moliceiros que navegam nos canais de Aveiro, hoje ao serviço dos passeios turísticos, caracterizam-se pelas decorações "naif" da sua proa (Ver, clicando em cima)

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Pobreza que produz (cada vez mais) Ricos



“Este crescimento [da União Europeia] não produz riqueza, mas ricos”.

A afirmação é de Sérgio Aires, presidente, desde 2012, da Rede Europeia Anti pobreza numa entrevista ao jornal “Público” (AQUI).

Tendo exercido o cargo voluntariamente, vai agora deixá-lo, revelando nessa entrevista uma enorme desilusão com a forma como a questão da pobreza tem sido encarada pelos burocratas de Bruxelas:

“A pobreza é um problema global.

“As causas da pobreza em Portugal, por exemplo, moram em muitos sítios (…).Mas nenhum Estado-membro [da União Europeia] consegue fazer isso [combater a pobreza] sozinho, sem tomar medidas que vão contra acordos europeus. O pilar [Pilar Europeu dos Direitos Socias, apresentado pela Comissão Europeia [!!!] e subscrito por todos os Estados [!!!!]] pede reforço dos direitos sociais para contrabalançar o desequilíbrio que a economia produziu.

“(…) Se [um país como Portugal, ou outro] diz que vai aumentar o salário mínimo, leva logo um puxão de orelhas. Imagine-se que resolve fazer coisas como reduzir o horário de trabalho ou promover programas específicos de combate à pobreza infantil… É uma grande ironia que se peça, no âmbito do pilar, investimento social aos países e se continue a insistir que o mais importante é cumprir as regras do pacto de estabilidade…”.

Sérgio Aires não pode ser acusado de ser um eurocéptico, até porque considera que, fora do quadro comunitário, o combate à pobreza ainda era mais complicado e a situação muito pior, mas avisa que “a pobreza e a desigualdade” na União Europeia “vão fazer explodir os paióis”.

Refere-se, concretamente, à forma como a extrema-direita populista tenta (e aqui é minha a interpretação) misturar o problema da emigração e dos refugiados com a pobreza dos cidadãos europeus e aproveitar-se da própria ambiguidade dos líderes europeus, que legitimaram o discurso da extrema-direita com a forma como impuseram uma austeridade que apenas aumentou a pobreza dos cidadãos para salvar os mais ricos, ao mesmo tempo que tentaram destruir direitos socias, substituindo-os por uma prática meramente caritativa.

Os “paióis” podem explodir já nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, prevendo-se que a extrema direita populista se torne maioritária, o que seria um desastre para o verdadeiro combate à pobreza e para o futuro da União Europeia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O que os conservadores da Igreja podiam aprender com o fim da União Soviética


Nos últimos meses acentuou-se o ataque da ala conservadora da Igreja contra o Papa Francisco (Conservadores ao ataque ).

Na liderança desse movimento está o bispo norte-americano Carlo Maria Viganò, em aliança estratégica com o movimento Tea Party e o líder ideológico da extrema-direita norte-americana, Steve Bannon, que estiveram por detrás da vitória de Trump, sem esquecer o histórico reacionário Cardeal Raymond Burke (Quem são os inimigos do papa. Leia-se também do El País de Agosto, edição brasileira, publicado em Agosto último AQUI).

Seria bom, para além do simples bom senso, que esses conservadores, que querem “salvar”  a Igeja da abertura levada à prática pelo Papa Francisco, na continuação da obra iniciada na década 1950 por João XXIII, aprendessem alguma coisa com a História.

O Comunismo, a mais forte ideologia que  “concorreu” com a Igreja no século XX, na tentativa de cativar a “alma” e a “fé” dos deserdados, e que se revelou o maior logro do século passado, pela forma como os seus valores se afastaram da realidade imposta a ferro e fogo por legiões de burocratas, sem esquecer os crimes associados, conheceu, no final desse século, uma tentativa de renovação e abertura iniciada quando Gorbachev se tornou secretário Geral do PCUS, em Março de 1985.

Muitos viram em Gorbachev um sinal de esperança em renovar o comunismo, recuperando os valores em que essa ideologia se baseou, em defesa dos mais fracos e dos deserdados contra os crimes do capitalismo, tentando mostrar que era possível conciliar a liberdade e a democracia com a melhoria das condições sociais das populações.

Desde logo Gorbachev teve de enfrentar, dentro do seu próprio partido, a oposição dos burocratas bem instalados que não queriam deixar cair o poder que tinham construído à sua volta, mesmo que à custa de renegarem os princípios do socialismo e do comunismo que diziam defender.

Rapidamente começaram a conspirar contra Gorbachev  e a Perestroika (“reestruturação”) e a Glasnot (transparência) que ele defendia para a renovação do movimento comunista.

O ponto alto da conspiração dos “conservadores” foi o golpe de Estado de 19 e 21 de Agosto de 1991.

Como era obvio, o movimento de abertura iniciado por Gorbachev já não tinha retorno, pois as sementes de esperança já se tinham enraizado entre os povos de leste, e foram derrotados rapidamente.

O resultado da irresponsabilidade desses “conservadores” foi terem arrastado toda a ideologia socialista com eles, abrindo caminho à expansão do extremo oposto, a ideologia neoliberal, com as trágicas consequências que todos conhecemos e sentimos hoje na pele.

Os conservadores que agora tentam conspirar contra o Papa Francisco deviam aprender com esse acontecimento e perceberem que, ao tentarem destruir a obra de abertura deste papa, correm  o risco de arrastarem com eles toda a Igreja, destruindo todos os valores que dizem defender.

Os povos, tenham sido os que viviam sob domínio soviético ou sejam os que acreditam nos valores da Igreja, não abdicam facilmente da esperança de liberdade e renovação e  nunca perdoarão àqueles que os tentam enganar e retornar a uma visão conservadora da realidade.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A OCDE e os Professores



Não tenho dúvidas sobre a qualidade técnica no tratamento da informação vinculada pelos relatórios da OCDE.

A minha dúvida começa quando vejo as interpretações que se fazem em relação a esses dados e quando os dados não estão correctos.

A comparação que se tem de fazer, no caso de Portugal, deve ser em relação à mesma situação profissional nos países da zona euro, que é com esses que nos devemos comparar (pois, se temos de cumprir os mesmos critérios de convergência e as mesmas regras financeiras, então também a comparação deve ser feita com a média geral da zona euro...).

Quando se compara o vencimento dos professores com a situação dos licenciados em Portugal, temos de ter em conta algumas situações.

A maior parte dos licenciados que trabalham fora da função pública (como advogados, gestores…jornalistas…) conseguem pagar menos impostos (eu ía dizer “fugir aos impostos”…mas não quero abusar) e por isso declaram menos rendimento do que aquele que é declarado pelos professores que, como qualquer funcionário público, paga mensalmente impostos, não recebendo mais do que 2/3 do vencimento oficial, pelo menos no topo da carreira.

Mas, para além das comparações absurdas exploradas pela imprensa portuguesa (também gostava de saber quanto ganha um director de jornal ou um comentador da televisão, mas nunca vi esses dados em lado nenhum..), fazendo o que se chama “torturar estatísticas” até elas darem o resultado pretendido (ou confirmar os nossos preconceitos políticos neoliberais…), os próprios dados referidos não batem certo com a realidade.

Quando deixei o ensino há uns três anos estava no topo da carreira, embora tivesse sido criado então um novo escalão (eu estava no 10º escalão de então, passei para o 9ª, ganhando o mesmo, e foi criado um novo 10º escalão, para onde ninguém trasitou, tornando-se um escalão fantasma, que, pelo que sei, continua a existir sem ninguém a “frequentá-lo”).

E é aqui que a falácia da interpretação dos dados do relatório da OCDE se confunde com a pura mentira.

Quando estava no antigo 10º escalão (actual 9º escalão) ganhava cerca de 43 mil euros por ano, dos quais recebi cerca de 29 mil, já que os impostos eram logo descontados no acto de entrega do vencimento (tenho os dados do IRS se for preciso comprovar).

Há ainda que lembrar que, nos anos da troika, houve um corte significativo do vencimento de base , nos subsídios de férias e natal  e um significativo aumento de imposto, pelo que, nos últimos anos que por lá andei, recebia menos de 25 mil euros por ano.

Não percebo onde é que a OCDE foi buscar os 56 400 euros que aquele estudo atribui como vencimento dos professores no topo da carreira em Portugal (contra a média de 51 mil na OCDE) e que justificam a afirmação de que estes ganham mais do que os outros licenciados e do que a média da OCDE no topo da carreira.

É pura mentira!!!

E mesmo que houvesse algum professor no novo 10º escalão, o rendimento bruto (sem descontar impostos) não chega aos 48 mil euros (fazendo as contas por alto!!!!!!).

Só por isso, o actual relatório da OCDE não merece crédito.

Alguém anda a recolher dados errados e a OCDE (e os jornalistas e comentadores portugueses) parece que acreditou neles…

Por cá esperava-se que os jornalistas  e comentadores, que ganham mais que os professores, fizessem, no mínimo, o seu trabalho de investigação.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Festa do Livro do “Avante e o “caso” Luaty Beirão.



Segundo foi divulgado em Agosto pela SIC, o livro de Luaty Beirão, sobre a sua prisão em Angola, editado pela “Tinta da China”, teria sido excluído da lista de livros da tradicional Feira do Livro da Festa do “Avante”.

Os organizadores da “Festa” declararam na altura que os critérios de escolha de livros para a Feira não são da responsabilidade dessa organização mas da distribuidora responsável pela Feira que se realiza no recinto do evento.

Foi assim com alguma curiosidade que, este ano, percorremos o recinto da Feira do Livro da Festa do “Avante” procurando detectar duas coisas:

- Se a editora “tinta da China” tinha retirado os seus livros em protesto;

- Se existia um critério de censurar livros incómodos par o PCP e para os convidados internacionais.

Como documento fotograficamente em baixo, nada disso se observou:

Vários livros editados pela “Tinta da China” encontravam-se expostos, alguns até com destaque, nessa Feira.

Encontramos também muitas obras que chocam com a presumível “ortodoxia” da organização.
A biografia  de Pacheco Pereira sobre Álvaro Cunhal, biografia não oficial, estava em lugar de destaque, obra, aliás, editada pela “Tinta da China”.

Encontrámos ainda obras de autores críticos do comunismo, como Vargas Llosa ou do escritor Cubano, critico do regime, Leonardo Padura.

Em termos ideológicos, encontramos várias obras de autores não comunistas, críticos de todos os “totalitarismos”, como Hannah Arendt, ou autores de correntes esquerdistas, rivais do comunismo ou críticos do PCP (“Luar”, anarquismo, maoismo…).

Encontramos mesmo um livro de Jaime Nogueira Pinto.

Quanto ao argumento usado segundo o qual havia uma preocupação em não “incomodar” países ou comitivas convidadas, também ficou desmentido pelo facto de aí termos encontrado livros críticos, por exemplo, da Coreia do Norte (designada como “Gulag” no título de um dos livros), ou uma investigação sobre a corrupção do poder angolano.

Perante estes factos, o “Caso Luaty Beirão” não parece passar, ou de uma história mal contada, explorada politicamente contra a “Festa”, ou de um lamentável excesso de zelo de um qualquer funcionário mais ortodoxo da distribuidora, ou ambas as hipóteses.

Claro que, sendo esta uma festa partidária, dominavam em cerca de 1/3 as obras “oficias” do PCP, ou os autores próximos do partido.

Este ano o destaque era para José Saramago e o bicentenário de Karl Marx.

Duvido até que, numa festa do género organizada por qualquer outro partido português se encontrasse a diversidade ideológica que encontrámos nesta feira

As Fotos, tiradas na Feira do Livro da “Festa” do “Avante”, que revelamos em baixo, “falam” por si:













A "Festa" do Livro do "Avante"













Caricaturas de José Saramago na Festa do "Avante"