quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

DE QUE SE RI ESTA GENTE? :«Portugal passa a 9.º país mais pobre da UE»

De que ri esta gente?

Tiraram o futuro aos jovens deste país, convidando-os a emigrar ou ao desemprego e à precaridade.

Perseguem, sem pudor, os velhos reformados, retirando-lhes as poupanças e descontos de uma vida.

Vingam-se das decisões do tribunal Constitucional infernizando a vida dos funcionários públicos.

Convidam quem trabalha a salários miseráveis ou ao desemprego de longa duração, retirando direitos para salvar banqueiros e corruptos.

Arruínam pequenas e médias empresas, destruindo o mercado interno e perseguindo-as com impostos e regulamentos estranguladores.

Destroem as conquistas de Abril na Educação e na Saúde.

Vergam-se às alarvidades da banca e da troika criminosa.

Talvez se riam das suas próprias afirmações ou da resposta  de Passos Coelho  à sua própria pergunta: “O país vive pior ou vive melhor? Vive melhor!” (??????).

Sim há quem viva melhor, basta olhar à nossa volta para os sinais exteriores de riqueza de alguns…

O país que ”vive melhor” é o dos salários e reformas de luxo daqueles, políticos, banqueiros, (alguns)professores universitários, economistas, que aparecem todos os dias a debitar opiniões na imprensa de “referência” ou nas televisões, a defender as medidas de “ajustamento”, a retirada de direitos a quem trabalha, a redução de salários, o empobrecimento do país que “vivia acima das suas possibilidades”, as mesmas em que eles continuam a viver.

O país que “vive melhor” é o país onde aumentam as desigualdades sociais, onde o desemprego continua escandalosamente alto e cada vez mais de longa duração, onde as reformas são cada vez mais miseráveis (menos para os ex- banqueiros,ex-ministros, ex-políticos do centrão  e ex-“boys” da administração pública), onde ganhar salários por um trabalho não é condição para escapar à pobreza.

O país que “vive melhor” é o país que sobe cada vez mais na classificação dos países mais pobres da União Europeia, que conhece um dramático declínio demográfico e onde a cultura e a ciência são mero negócio.

O grave é que toda esta política criminosa de “ajustamento” se faça á sombra de elogios rasgados e alarves de uma Comissão Europeia, de um FMI e de um BCE, de um Oli Rhen, de um Durão Barroso ou de um Cavaco Silva.

…ou talvez se estejam a rir do cinismo dessa outra proposta do primeiro-ministro: um “programa para a natalidade”, quando são as mesmas políticas por si praticadas que agravam a quebra da natalidade…um programa sério par aumentar a natalidade e rejuvenescer o país implicava fazer exactamente o contrário das malfeitorias que têm feito ao país e aos portugueses, nomeadamente aos mais jovens: criar estabilidade profissional, estancar a emigração dos mais jovens e mais qualificados, melhorar as condições e os direitos do trabalho, acabar com a precarização do emprego, aumentar o rendimento salarial…

Afinal, do que se ri essa gente?

«Portugal passa a 9.º país mais pobre da UE» - Diário de Notícias(clicar para ler notícia).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Morreu Paco de Lucia

Paco de Lucia morreu ao 66 anos.
Considerado um dos melhores guitarristas de sempre, é considerado o responsável para renovação do flamengo.
Uma bibliografia detalhada pode ser lida na página do jornal espanhol Público:

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Retrospectiva de Henri Cartier-Bresson no Centro Pompidou (Paris)




Revistas como o “Le Nouvel Observateur” ou o “L’Objet d’Arte” dedicam-lhe duas excelentes edições, que podem ser encontradas nos quiosques portugueses.

Nascido em 22 de Agosto de 1908, Cartier-Bresson começou por desejar ser pintor, tendo recebido lições de pintura e participado em exposições.

Ainda nas décadas de 30 e 40 havia realizou alguns documentários cinematográficos, um sobre os hospitais republicanos durante a Guerra Civil de Espanha, e outro sobre os prisioneiros da Segunda Guerra.

Mas foi a fotografia que se tornou a sua principal paixão, muito por causa das suas viagens durante a juventude por vários continentes, para acompanhar os negócios da família (o seu pai era dono da fábrica de tecidos CD).

Ao longo dos anos 30 foi consolidando a sua tendência política de esquerda, a aprofundou a sua opção pela foto-reportagem comprometida, mas à qual soube dar um cunho pessoal criativo, muito influenciada pela sua ligação às vanguardas artísticas da época.

Mas foi a sua reportagem sobre a libertação de Paris em 1944, encomendada pelos serviços secretos militares dos Estados Unidos, que o tornaram um fotógrafo famoso.

Em 1947 junta-se a outros foto-repórteres que se formaram durante os anos de guerra e cria a primeira agência fotográfica independente e cooperativa, a Magnum, ao serviço da qual vai realizar várias reportagens na Índia, no Paquistão, na China maoista, na Cuba castrista, no Canadá, tornando-se o primeiro fotógrafo ocidental a entrar na União Soviética depois da Segunda Guerra.

Colabora nas famosas revistas Vu, Life e Paris-Match.

A partir de 1974 dedica-se cada vez mais ao desenho e à pintura.

A sua maneira de fotografar tornou famosa a frase “instante decisivo”, como referência ao momento exacto para captar uma foto interessante.


Falecido em vésperas de completar os 96 anos, em 3 de Agosto de 2004, esta exposição agora disponível no Centro Pompidou recorda a sua obra e pode ser visitada até ao próximo dia 9 de Junho, seguindo depois para Madrid, onde será inaugurada em data ainda não anunciada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Eduardo Lourenço: "Fomos invadidos por uma espécie de vampiros” (notícia da Agência Lusa):


No dia do "Congresso dos Vampiros" (ou de uma das suas "facções") é reconfortante e estimulante ouvir as palavras de Eduardo Lourenço:

Eduardo Lourenço lamentou que a política já não seja uma “política real”

“O ensaísta Eduardo Lourenço disse hoje” (dia 20 de Fevereiro) “ que houve uma invasão por “uma espécie de vampiros”, que são quem controla o sistema inventado pela modernidade, vivendo-se agora um “apocalipse indireto” em “estado de guerra permanente”.

“Durante a primeira mesa da 15.ª edição do Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, sob o título “Pensamentos não são correntes de ninguém”, Eduardo Lourenço disse: “Dá a impressão de que, de repente, fomos invadidos, não por uns castelhanos arcaicos nossos vizinhos e que são nossos irmãos e primos, mas por uma espécie de vampiros como aqueles que o cinema de Hollywood ilustra. Não é por acaso que o tema dos vampiros se tornou um tema da moda, os vampiros são emissários da morte, é como se estivéssemos a viver uma espécie de apocalipse indireto”.

“O autor, que disse não acreditar que o tempo desta “espécie de submissão mansa” vá perdurar, ressalvou não querer contribuir para algo como uma “depressão de segundo grau, por conta dos outros”.

“Não sei se é um comportamento muito português dormir em cima daquilo que nos ameaça profundamente e nos põe problemas que não podemos resolver esperando que, com o tempo, com um pouco de sorte, acabemos por sair desta espécie de atoleiro em que estamos mergulhados”, acrescentou.

“Os vampiros não são tão vampiros como isso, são pessoas reais. São as pessoas que controlam o sistema que a modernidade foi inventando pouco a pouco, com os seus novos meios de produção, que aumentaram efetivamente de maneira fantástica a possibilidade que os homens têm de aceder a um certo número de coisas que são importantes”, disse Eduardo Lourenço, já em resposta a questões do público.

“O autor declarou que a televisão é hoje “o objeto mais importante”, tendo o “espaço público desaparecido”, o que deu origem a um momento em que “tudo se passa na televisão, as intervenções dos comentadores na televisão são mais importantes do que a realidade”.

“Eduardo Lourenço lamentou que a política já não seja uma “política real”.

“Passámos […] para um tempo em que aparentemente as guerras já não têm lugar ou são guerras de uma outra espécie, são quase guerras virtuais como se fossem cinema puro, embora os mortos não sejam cinema nenhum. Passámos para um tempo em que estamos - não parece à primeira vista - num mundo em estado de guerra permanente no interior do sistema, não há nenhuma grande produção que não esteja em guerra com uma outra ao lado”, afirmou o vencedor do prémio Camões de 1996.

“Eduardo Lourenço disse ainda não pensar nada sobre o futuro, uma vez que “se pensasse no futuro era o dono do futuro”.

“Assim, o ensaísta, que constatou saber o que é estar “à beira do abismo” por estar próximo do seu próprio, apelou a que se tenha paciência, antes de entrar “enfim na terra da promissão".
“A 15.ª edição do festival literário Correntes d’Escritas decorre entre hoje” (dia 20) “e sábado (amanhã)”.

"*Este artigo foi escrito ao  abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela agência Lusa".

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ucrânia : Venha o Diabo e escolha...


A violência generalizada que se vive nas ruas de Kiev não abona nada a favor da oposição ucraniana.

Infiltrada por grupos nacionalistas de extrema-direita, a oposição ucraniana, ao não se demarcar das atitudes violentas desses grupos, que incluiu, nas últimas semanas, violência contra judeus, denunciada pela comunidade judaica local, perde a razão que tinha no início da crise política.

Claro que, do outro lado temos um governo autoritário, corrupto, que não respeita a vontade da grande parte da população em escapar à influência russa e de se aproximar dos níveis de vida ocidentais….mas onde é que já vimos isto?

Se a Rússia, liderada pelo pouco recomendável sr. Putin, joga na crise ucraniana a sua tentativa de recuperar a influência que detinha nos tempos da União Soviética, a atitude da União Europeia resvala a pura hipocrisia.

Antes de se preocupar com o autoritarismo do poder ucraniano, a União Europeia tem muito para se preocupar no seu próprio seio, não sendo muito diferente aquilo que se passa no governo ucraniano de aquilo que se passa em países do leste europeu integrados na EU, como é ocaso da Hungria.

Ao incentivar a revolta da oposição ucraniana contra o governo, que apesar de autoritário e corrupto foi legitimado por eleições livres, os líderes da UE deviam primeiro explicar como é que se podem substituir  à influência económica russa  na Ucrânia, quando não conseguem apoia convenientemente países da própria União em dificuldade, como Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre…

Foi em grande parte a esperança de um apoio concreto por parte da União Europeia aos seus protestos que incentivou os ucranianos a aumentar os actos de violência generalizada a que estamos a assistir, apoio esse que irá pouco além da retórica habitual.

E quanto às malfeitorias de um governo, como o ucraniano,  legitimamente eleito, mas tomando decisões contra o seu próprio povo, pela violência policial contra ao protestos legítimos, pelo desrespeito em relação ao bem-estar económico-social dos seus cidadãos, pela violação de promessas e programas eleitorais pelos quais foram eleitos, tomando todas essas decisões nas costas dos cidadãos, a União Europeia não tem muita legitimidade para criticar, pois esse tipo de decisões é o pão nosso de cada dia, como bem o sabem os cidadãos portugueses, irlandeses, espanhóis, franceses, italianos, gregos e chipriotas, entre outros.

O que está em causa, na crise ucraniana, não é uma luta entre o “bem” (os pró-europeus) e o “mal” (os pró-russos), mas é mais uma vez o desenterrar de velhos conflitos e jogos de poder que têm marcado a história do centro da Europa.

A Ucrânia, na sua história recente, esteve quase sempre do lado errado da história. Muitos ucranianos participaram no “Holodomor”, o genocídio stalinista contra os camponeses daquele país na década de 30, através de uma desastrosa política de colectivização forçada que provocou a morte pela fome de milhões de ucranianos, ao mesmo tempo que 4/5 das elites ucranianas eram massacradas por Stalin.

Quando da invasão nazi, em 1941, outros ucranianos, que receberam as forças hitlerianas com “libertadoras”, colaboraram alegremente com os nazis  na repressão sobre a população de origem russa e outras minorias, que custou entre 5 a 8 milhões de mortos, entre os quais  meio milhão de judeus.

A memória desses tempos, o peso da influência russa, a maior minoria que representa quase 20% da sua população e a atitude irresponsável dos dois lados, Rússia e União Europeia,  pode provocar uma tragédia de grandes dimensões no centro da Europa, uma espécie de Jugoslávia em ponto grande.

No actual conflito é caso para dizer…venha o diabo e escolha.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

No Centenário de Charlot : recordar a vida de Charlie Chaplin

A propósito do centenário do “nascimento” da personagem Charlot, que se comemora este mês, aqui recordamos um trabalho da nossa autoria, publicado por ocasião da morte de Charles Chaplin, em 25 de Dezembro de 1977(Ver AQUI o Site oficial de Charlie Chaplin) .
Este foi um dos primeiros artigos da minha autoria publicados na imprensa local, neste caso no jornal “Oeste Democrático”, que tinha sido fundado pelo meu pai em 1975 e desde o seu falecimento em Outubro desse ano era então dirigido por António Augusto Sales (mais tarde por Manuel Candeias).
O trabalho que agora divulgamos foi publicado ao longo de três edições daquele semanário, em 20 de Janeiro, 3 e 17 de Fevereiro de 1978, sob o título de “Charles Chaplin : Vida e Obra”, incluído numa secção de divulgação de cultura popular que eu mantinha nas páginas desse jornal, intitulada “Análise”.
Mantivemos o essencial do texto, corrigido de algumas pequenas imprecisões e gralhas:

CHARLES CHAPLIN – UMA VIDA

OS PRIMEIROS PASSOS

Charles Spencer Chaplin nasceu a 16 de Abril de 1889 em Lamberth, bairro pobre de Londres (“14 dias antes de Hitler”).

Os seus pais eram artistas de «music-hall». Sua mãe, Hannah Hill, pianista e cantora com o nome artístico de Lily Harley, passou grande parte da sua vida internada em casas de saúde (faleceu em 1928), principalmente após a morte do seu marido, barítono de variedades e alcoólico, falecido em 1894.

Neste mesmo ano, apenas com 5 anos, Chaplin substituiu a sua mãe numa peça de teatro
Durante vários meses Charles e Sidney (o seu irmão) viveram num asilo.

Em 1908 é contratado por Fred Karno para trabalhar na companhia de teatro “London Comedians”, onde veio a conhecer o famoso Stan Laurel (o “estica” da dupla “Bucha e Estica”), fazendo ambos parte da equipa de hóquei em pa­tins da Companhia.

Dois anos depois vai a Pa­ris e aos Estados Unidos nu­ma digressão teatral, que se volta a repetir em 1912 e onde teve oportunidade de conhe­cer Mack Sennett que o con­trata para a Sociedade Keystone de Hollywood.

Em 1914 estreia-se no mundo do cinema, protagonizando 35 filmes e tornando-se o cómico mais conhecido e mais bem pago do mundo. O primeiro filme onde aparece, “Making a Living” é realizado em Janeiro e estreia-se no dia 2 de Fevereiro. A personagem de “Charlot” aparece no filme seguinte, “Kid auto races at Venice”, realizado em Fevereiro. Cha­plin explicava assim a criação die Charlot:
“Não tinha a menor ideia da maneira como havia de me apresentar. Mas, quando me dirigia para o vestiário, disse para com os meus botões que ia vestir umas calças largas de mais, pôr uns sapatos enor­mes e completar o conjunto com uma bengala e um cha­péu de côco. Queria que tudo estivesse em contradição: as calças exageradamente largas, o casaco muito apertado, o chapéu pequeno de mais e os sapatos enormes.
“Devia ainda resolver se as­sumiria um ar de jovem ou de velho, mas, lembrando-me de que Sennett me tinha jul­gado mais velho, acrescentei à minha cara um pequeno bi­gode que, segundo me pare­cia, dar-me-ia mais alguns anos, sem ocultar a minha ex­pressão”.

Mas como explicar êxito que desde logo aquele per­sonagem conquistou? Um crí­tico de cinema explicava-o do seguinte modo:
“Na América, o chamado “novo mundo” da competição desapiedada da guerra, de to­dos contra todos nas suas cidades babilónicas e desu­manas, surge de repente um homem, um homenzinho mal ajeitado, remendão e recalcitrante, que corre continuamente no labirinto, cruza-se diante dos nossos olhos, desaparece, volta a aparecer, sobe, desce, cai, levanta-se, apanha pancada, procura trabalho, barafusta, é despedido, tem uma fome crónica de comida para o corpo e de ternura, de carinho e de amor que não encontra por mais que procure (…).
“De quem ( do que) foge Charlot? Dos seus perseguidores implacáveis, os guardiões do sistema que se sentem ameaçados pela força daquele homenzinho fraco que, furtando-se à engrenagem, procura incansavelmente a justiça, a verdade, o bem, no mundo da injustiça, da mentira e do mal. Há sempre um polícia façanhudo, um patrão, um proprietário, um dono de qualquer coisa, que corre atrás de Charlot e de quem ele foge a sete pás. Mas não desanima”.

Ainda nesse ano de 1914, em Abril, Chaplin torna-se argumentista e realizador dos seus pró­prios filmes, no 12.° filme da sua carreira, “Caught in Cabaret” (“Charlot Rapaz de Cafés”).

Entre 1915 e 1918 a sua ac­tividade é cada vez mais in­tensa. Nesse período realiza cerca de 50 filmes, dos quais há a destacar “The Tramp” (“Charlot Vagabundo”), “The Fireman” (“Charlot Bombei­ro”), ambos de 1915, “Easy Street” (“Charlot Polícia” ou “A Rua da Paz”) em Janeiro de 1916 e “The Emigrant” (“Charlot Emigrante”) em Ju­lho de 1917.

Em 1918 surge um dos seus primeiros problemas na vida cinematográfica: a First Na­tional recusa-se a distribuir a primeira versão de “Char­lot nas Trincheiras”, cuja ver­são inicial era de 5 ou 7 bobinas, sendo divulgada ao público apenas com 3 bo­binas.

O negativo original, desco­nhecido até hoje, encontra-se, entre outros segredos, num fortim de cimento, na sua re­sidência da Suíça, onde Cha­plin costumava guardá-los. Sobre este filme escreveu George Sadoul:
“Charlot nas Trincheiras” começa por uma exposição dos seus motivos, por um libelo contra as misérias da guerra. A primeira parte não é cruel­dade mas sim acusação. Cha­plin toca no fundo da miséria humana, na trincheira inunda­da onde o seu personagem procura dormir entre ratos e piolhos, tendo por companhei­ros a solidão, a lama e a água que o submerge.
“Depois, o disfarce poético de um tronco de árvore fá-lo passar para o outro lado do mundo real... O soldado en­contra uma francesa, num ce­nário de ruínas e o amor em­presta calor à cena”.
“Uma comunhão se estabe­leceu desde 1915 entre Char­lot e os soldados. “Charlot nasceu na frente”, escrevia, num justo resumo,, o antigo combatente Blaise Cendrars.
“Os soldados tinham-lhe fala­do de Charlot com tanto en­tusiasmo que ele julgou tra­tar-se de algum dos seus co­legas. Charlot era o irmão desses desgraçados, dentro dos quais subia a revolta con­tra uma guerra para a qual tinham sido arrastados”.

Neste mesmo ano Chaplin monta o seu próprio estúdio cinematográfico. Em Abril está pronto o primeiro fruto deste novo período da sua vida : “A Dog’s Life” (“Vida de Cão”). É ainda em 1918 que Chaplin se casa pela pri­meira vez, com Mildred Harris (nessa altura com 16 anos), vindo a divorciar-se dois anos depois, sendo acusado por ela de “cruel­dade mental” e obrigado a uma indemnização de 100 mil dólares. Chaplin tem de fu­gir com o negativo do filme de “O Garoto de Charlot”, pois os advogados de Mildred ameaçavam confiscá-lo. Deste casamento Chaplin teve um filho ( nascido em 7 de Junho de 1919) que faleceu poucos dias após o seu nascimento.

A partir de 1919 Chaplin torna-se produtor dos seus próprios filmes, fundando a Limited Artists conjuntamente com Mc Adoroy, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e David Griffith.

Em 1921 deslocou-se a Lon­dres para apresentar “O Ga­roto de Charlot”, sendo re­cebido triunfalmente e, se­gundo uma testemunha da época, “O delírio da multidão é tal que o chefe da polícia lhe pede para não atirar flo­res da janela do hotel pois receia que alguém fique es­magado na disputa pela pos­se dessa frágil recordação”. Perante tal delírio Chaplin in­terrogar-se-ia: “Mas tanto barulho por um simples ac­tor de cinema. Se ao menos, para lhes agradecer, eu pu­desse realizar qualquer coisa realmente valiosa: resolver o problema do desemprego, por exemplo...”.

“O Garoto de Charlot» foi a sua primeira Jonga metra­gem.

Em Fevereiro de 1923 realizou o seu 70º filme e a sua últi­ma média metragem: “O Pe­regrino”.
É também desta época o falado romance com Pola Negri (1922-23) que mais uma vez lhe virá causar al­guns dissabores.

Em Outubro desse mesmo ano realiza “A woman of Pa­ris” (“Opinião Pública”) fil­me quase desconhecido e no qual desempenha o papel se­cundário de um modesto fun­cionário dos caminhos-de-ferro.

Ainda em 1923 inicia os preparativos para a realiza­ção de “A Quimera de Ouro”.

Em 24 de Novembro de 1924 casa-se com Lilitta McMurray, mais conhecida pelo seu nome artístico de Lita Grey, da qual teria dois filhos: Charles Jr. (28 Junho de 1925 - suicidou-se em Hol­lywood no ano de 1968) e Sidney Jr. (30 Março 1926). Tal como o anterior este ca­samento só durou dois anos, divorciando-se em 27 de Agos­to de 1927.

A 16 de Agosto de 1925 estreia-se em Nova Iorque “A Quimera de Ouro” (The Gold Rush), segundo Chaplin a sua obra-prima. Este filme rende-lhe 5 milhões de dóla­res e em 1942 e 1956 são dis­tribuídas versões sonoras e comentadas por Chaplin.

O ano de 1926 foi mais um período difícil para Chaplin. Lita Grey arma um escândalo à volta do seu caso com Cha­plin e a imprensa conserva­dora aproveita-se do facto para fomentar uma tremenda pro­paganda contra o homenzinho de chapéu de côco e bengala. Mas os intelectuais mais esclarecidos de todo o mundo apoiam e defendem Chaplin do puritanismo fascista em ascensão. É o caso de Louis Aragon que edita um manifesto intitulado “Hand’s off Love” (“Tirem as mãos do amor”), denunciando a hipocrisia sexual pequeno-burguesa (aderem a este manifesto grandes nomes do surrealismo tais como Louis Breton, Paul Eluard, Max Ernest, Prévert e tantos outros).
Mais uma vez a tremenda força de vontade e capacidade criativa de Chaplin serão postas à prova ao desempenhar o seu papel no filme “The Circus” (“O Circo”) estreado em 1928. Para desempenhar o seu papel nesse filme Chaplin tem de aprender a andar na corda esticada como um profissional de circo.

Se até aqui Chaplin tinha encontrado obstáculos de toda a ordem, os verdadeiros problemas, os verdadeiros problemas e a verdadeira luta contra o obscurantismo vão surgir a partir de 1929. Os Estados Unidos entravam em crise, levando os pequenos produtores independentes à falência. Chaplin aguenta-se graças à sua grande resistência e ao grande apoio do público europeu, à beira do desespero e com a besta fascista à espreita. Mas talvez o facto mais importante para a industria cinematográfica da época tenha sido o aparecimento do sonoro, nesse mesmo ano, que se esteia no filme “O Cantor de Jazz”, pondo à prova a capacidade de adaptação dos realizadores e actores do cinema mudo.

CHARLOT CONTRA O FASCISMO

“É um judeu desprezível, mesquinho e ávido” ( Goebbels, ministro da propaganda de Hitler).

“É um comunista, e ainda por cima um imoral” (Comissão de actividades anti-americanas).

“É o inimigo declarado dos grandes empresários e da polícia” (cadeia de jornais Hearst-anos 30).

...Estas algumas opiniões sobre Charles Chaplin dadas por “ilustres” personalidades e organismos, cuja importância e ensinamentos na manipulação da opinião pública não pode ser negada.

Pois foi de tais personalidades e organismos e as suas influências que Chaplin teve de se defender.

E claro que Chaplin, inconformista e individualista de raiz, encontrava-se na lista negra de todos os totalitarismos e conservadorismos que dominaram a primeira metade do século XX, pronto a ser abatido ao mais pequeno deslize.

A primeira tentativa para abater Chaplin surge quando este, em 1931, se recusa a assinar um contrato de 600 mil dólares para fazer um filme falado. O filme “Luzes na Cidade”, cuja realização se iniciara nesse ano, sofreu as consequências dessa atitude, sofrendo um boicote sistemático à sua distribuição, levando Chaplin à beira da falência.

Mais uma vez Charles vem à Europa procurar salvar o filme e, deste modo, a sua independência em relação às exigências dos produtores e distribuidores Americanos, cada vez mais poderosos económica e politicamente. Percorre os principais centro culturais da Europa - Londres, Paris, Berlim, Viena, Veneza, Florença, Roma e Nápoles — partindo em seguida para o Japão, passando pela Índia, onde se encontra várias vezes com Gandhi, e por Singapura. O filme “Luzes na Cidade” é um êxito completo, saindo reforçada a independência pessoal e económica de Chaplin.

No ano seguinte escapa ileso de uma tentativa de homicídio perpetrada por William Randolph Hearst, rei da imprensa americana, e é Thomas Ince, “pai” do “Western”, que acaba por morrer por engano, em consequência desse mal esclarecido acto. Hearst consegue subornar as testemunhas e o caso é abafado pela imprensa (ver «Expresso» de 30 de Dezembro de 1977).

Em 5 de Fevereiro de 1938 estreia-se em Nova Iorque “Tempos Modernos”, um dos filmes mais importantes de Chaplin e no qual é violentamente criticado o capitalismo e focada a desumanização do tipo de trabalho imposta por este sistema económico. O filme obtém pouco êxito nos Estados Unidos devido à feroz campanha feita contra ele, sendo acusado de propaganda comunista, enquanto, por outro lado, a Alemanha e a Itália, já dominados pelo nazi-fascismo, proíbem a sua exibição. Porém, este filme obtém um êxito fabuloso em Londres, Paris e Moscovo.
Nesse ano Chaplin casa-se com Paulette Godard, em Cantão, na China, não tendo filhos deste matrimónio que durou 5 anos. Paulette Godard, pseudónimo de Paulina Levy, tinha interpretado um papel de garota em “Tempos Modernos” e o de Hannah em “O Grande Ditador”.

Esta última película começa a ser preparada em 1938, secretamente, e a sua realização inicia-se no ano seguinte.

Em Hollywood e em Washington, respectivamente o cônsul nazi e o embaixador alemão pressionam os produtores americanos, ameaçando-os de um boicote total aos filmes norte-americanos na Alemanha, se não impedissem Chaplin de fazer esse filme:
“Hollywood, receosa da perder as suas posições na Alemanha, onde tinha investido importantes capitais entes da subida de Hitler ao poder, não tardou em exercer forte pressão sobre Chaplin (com a aprovação tácita das entidades oficieis e o apoio da imprensa de Hearst) para que desistisse da realização da fita.
“Chaplin tentou resistir, mas algum tempo depois foi forçado a interromper as filmagens em virtude dos violentíssimos ataques dos isolacionistas de ambos os partidos, republicano e democrático. A ofensiva isolacionista partia de uma comissão parlamentar chefiada por Martin A. Dies, anteriormente criada para fiscalizar as actividades dos grupos existentes nos Estados Unidos, mas que passou a orientar a sua acção, declarada a guerra na Europa, contra todos os que manifestassem simpatia pela causa aliada".

Só “depois da queda da França, Chaplin retomou a realização de “O Ditador”, que concluiu em 1940” (Alves Costa, in “Memória do Cinema”). “O Grande Ditador” foi, aliás, a primeira película sonora de Chaplin, estreando-se em Nova Iorque em 16 de Outubro de 1940, sendo proibida na Argentina e em vários países da América Latina, mas obtendo grande êxito nos países anglo-saxónicos. É deste filme o célebre “discurso do ditador”.

Chaplin recusa o prémio da crítica concedido a este filme. Acerca desta película, e quando da sua estreia em Paris após á guerra, Chaplin afirmaria: “Os Ditadores actuais são fantoches que os industrias e financeiros manobram.

Após se ter divorciado de Paulette Godard, Chaplin casa-se com Oana O´Neill, a 16 de Junho de 1943, sendo esta, devido a este casamento, desertada pelo seu pai, o dramaturgo Eugenfe O’Neill. Deste casamento nascem Geraldine (1944); Michael (1948); Josephine (1949); Victoria (1951); Eugene (1953); Jane-Cecil (1957) e Christoph-James (1962).

Em 1947 Chaplin abandona a personagem tão característica de Charlot e metamorfoseia-se num homem elegante, frio, calculista, o oposto em todos os sentidos a Charlot: nasce “Monsieur Verdoux”, baseado numa ideia de Orson Welles. Neste filme Chaplin desmascara uma sociedade hipócrita, dita defensora de certos valores  de certa conduta social, tendo como único feito, melhor levar a aceitar uma sociedade repressiva, autoritária, castradora e frustrante, necessária à manutenção da desigualdade e da injustiça. Mais uma vez Chaplin vê-se alvo das mais violentas campanhas contra este novo “Monsieur Verdoux” (“o Barba Azul”), que vinha incomodar a consciência de muito “boa” gente bem instalada na vida. Para além das ameaças recebidas de particulares a quem os seus filmes perturbavam, Chapim teve de enfrentar a “Liga da Decência”, os “trusts” financeiros e a “comissão contra as actividades antiamericanas» numa altura em que o senador Mac Carthy lançava o terror entre os meios intelectuais, com a sua campanha de “Caça às bruxas” e aos “comunistas” (e de comunistas eram apelidados liberais como Chaplin).

No seu discurso final Monsieur Verdoux afirmava: “Um assassinato faz um criminoso, milhões de mortos podem fazer um herói. Se me sujei de sangue, o mundo encorajou-me: Não é ele que fabrica as armas de destruição com que se exterminam os homens, matando mulheres e crianças indefesas? Nós seremos destruídos pelo excesso do Bem ou do Mal. E se me dizem que demasiado Bem não pode fazer mal, eu pergunto como podemos sabê-lo, se do Bem nunca tivemos bastante”.

Com o terror maccarthyista a expandir-se pelo na maior potência do ocidente, Chaplin apercebia-se do cerco que se apertava sobre ele e todos aqueles como ele que não aceitavam um novo tipo de obscurantismo e puritanismo neofascista. Afirmava Chaplin, nos inícios da década de 50: “talvez um dia destes eu venha a ser declarado indesejável neste país: para mim seria apenas a prova de que já vivemos numa democracia”.

Tal não demorou a acontecer.

Quando em Setembro de 1952 partiu no Queen Elizabeth para Inglaterra em gozo de férias recebe a notícia de que o secretário da justiça lhe tinha retirado o seu visto de regresso aos Estados Unidos. Para o rever tinha de se submeter a um inquérito para provar a sua valia moral. A imprensa norte-americana acusa-o de comunista por ele, durante a guerra, ter exprimido simpatia pelas forças soviéticas que combatiam o nazismo. A tal acusação respondeu Chaplin: “durante a guerra senti simpatia pelos russos que estavam a aguentar a frente. Devemos estar-lhes gratos. Eu não sou um político e não sou russo, sou um cidadão do mundo”, acrescentando : “Fui sempre um internacionalista, e apenas isso”.

Quando chegou à Grã-Bretanha foi recebido entusiasticamente e o escritor católico Graham Green dirige uma carta aberta ao famoso cineasta onde se podem ler as seguintes passagens:
“...Com espanto e pesar nosso, Chaplin rendeu a mais alta homenagem possível aos Estados Unidos ao instalar-se dentro das fronteiras norte-americanas. Agora sentimos desgosto, mas não espanto, por ver a paga que lhe é dada, não pelo povo americano em geral, mas por aquelas autoridades que parece receberam ordens de homens como Mac Carthy. Ao ser invadida a Rússia, o senhor falou em sua defesa numa reunião pública, em San Francisco, a pedido do Presidente dos Estados Unidos. A ocasião não era para meias palavras nem para frases de duplo sentido, e as suas palavras foram tão claras como as de Churchill ou Roosevelt. Mas o senhor teve o atrevimento — dizem agora — de se dirigir ao público empregando a palavra “camarada”. Eis a maior acusação que lhe fazem. E eu pergunto: o que estaria fazendo Mac Carthy naqueles dias?
“Recordando as épocas de Titus Oates e do terror na Inglaterra, queria pensar que os católicos norte-americanos, corpo poderoso, lhe concederão s sua simpatia e o seu apoio. Sem dúvida, um semanário católico dos Estados Unidos não ficará calado. Refiro-me ao “Commonwealth”. Mas...e o cardeal Spellman? E todo o resto? Agora me recordo que Mac Carthy também é católico...”
“...A desgraça de um aliado é a nossa desgraça, e ao atacá-lo a si os “caçadores de bruxas” mostraram que não se trata de um assunto meramente nacional. A intolerância, em qualquer parte, fere a liberdade em todos.”

No dia em que completava 64 ano (16 de Abril de 1953), Chaplin apresentou-se perante o cônsul dos Estados Unidos em Lausanne e diz-lhe: Chamo-me Charles Chaplin. Vivi quase 40 anos nos Estados Unidos, donde saí em Setembro passado. Deram-me um visto de regresso, mas não penso utilizá-lo. Aqui o tem. Entrego-lhe pedindo que o envie ao seu Governo. Passe V. Ex.‘ muito bem, Senhor Cônsul”.

E assim se encerrava o capítulo mais agitado da vida de Charles Chaplin. Agora a idade iria a começar a pesar na sua vida, na sua obra e mesmo no seu inconformismo.

CHAPLIN CEDE À MORTE

Tudo o que é espontâneo, criativo, inconformista, é vida. A vida é isso mesmo. A capacidade de transformar, de ser consciente, de ser diferente e, ao mesmo tempo, solidário para com os outros seres humanos e  a natureza. Tudo o resto não passa de sobrevida ou sobrevivência, de morte ao relanti.

Enquanto inconformista, enquanto criador, Chaplin viveu, por isso foi tão importante para a humanidade, por isso nunca será esquecido: “O que reste após a morte é a consequência dos nossos actos”.

Mas os anos o a glória pesam, a defesa da “prestígio” (mas o que é isso?) e o poder mágico do dinheiro também. E o primeiro a ser atingido é o inconformismo. Com a perda desse inconformismo mais facilmente se é devorado por esto tipo de sociedade que não admite desvios ao seu quotidiano (reprodutor da determinado sistema económico) tais como a criatividade, a espontaneidade ou a imaginação.

Como um último grito de revolta contra essa tal sociedade a sufoca-lo e a engoli-lo, contra esse quotidiano diariamente assumido e onde reina o consumo de objectos, de homens e da natureza, Chaplin realiza em 1957, em Londres, “Um Rei Em Nova Iorque”, o seu primeiro filme rodado fora dos Estados Unidos “ no qual ele encarna o rei Shaklov. Este filme seria cortado pela Censura norte-americana e estreado em Londres, em Setembro, num pequeno cinema de segunda categoria devido a pressões norte-americanas.

Chaplin fecha-se depois para o mundo, em Corsier-Sur-Vevey, na Suíça, escrevendo dois livros: “Autobiografia”, editado em 1964, e “A Minha Vida em Imagems”, em 1974.

Entre estes dois livros, dá-se a confirmação da “derrota” de Chaplin, perante a aproximação da morte, é-nos dada com o péssimo filme “A Condessa de Hong-Kong”, estreado em Janeiro de 1967.

Este filme é o pretexto para os senhores de Hollywood, muita “arrependidos” pela perseguição que lhe tinham movido durante décadas, resolverem homenageá-lo, procurando assim transformá-lo numa inofensiva peça de um museu do cinema.

Em Janeiro de 1972 Chaplin declara aos Jornalistas: “Hoje nade há a perdoar (…). Hoje, sinto-me demasiado velho para algo que me force a regressar à America”.

Mas Hollywood acena-lhe com um “óscar” especial da academia.

Chaplin, de 83 anos, cansado e conformado não resistiu e compareceu em Hollywood em 4 de Abril de 1972 para receber a estatueta, uma espécie de “óscar póstumo” à sua criatividade.

“Tenho um grande afecto pelos Estados Unidos. Afinal, foi um pais onde passei 45 anos da minha existência e do qual possuo recordações muito agradáveis. Quanto às coisas desagradáveis já nem as recordo. Aliás, deixaram de ter para mim qualquer significado válido”, afirmou Chaplin nessa ocasião, acrescentando: “só posso dizer obrigado pela honra que me deram ao convidar-me”.

Como se teria divertido Charlot à custa das afirmações desse “velhinho” que dava pelo nome de Charles Chaplin. Mas nem o próprio Chaplin conseguiria destruir Charlot e toda a mensagem humana da sua obra de juventude.

E foi Já sem qualquer surpresa que vimos Chaplin, ao festejar o seu 85º aniversário ao ar livre, na sua casa de campo, com champagne, convidar o presidente do município e o chefe da polícia da vila de Corsier-Sur-Vevey. Quantos pastéis de nata não teria lançado Charlot à cara de tão ilustres convidados.

E foi num dia de Natal, 25 de Dezembro de 1977, que a morte o veio buscar, aos 88 anos.
Quando do seu enterro e segundo notícias dos jornais: “um dos raros visitantes admitidos na vivenda foi um petiz de Çorsier, trazendo uma grande rosa que entregou, a soluçar, ao guarda encarregado de atender os forasteiros”.

Não resistimos, para terminar, em transcrever uma passagem do livro de Alves Costa “Memória do Cinema” (uma das obra que nos serviu de referência para este artigo):

“Mais ou menos Charlots todos nós somos. Mas Charlot não é só a nossa caricatura, é também e nossa vingança (sobretudo desde Charlot no Music-Hall até ao “Peregrino”). Ele, ao menos, no meio dos seus infortúnios, pode deitar um gelado no decote da grande dama da “alta”; ele, ao menos pode retribuir os pontapés no rabo que todos nos recebemos dos valentões, dos prepotentes e dos polícias. Não é muito mais corajoso do que qualquer de nós. Mas o seu engenho, a sua malícia, a sua argúcia, a sua irreverência dão-lhe uma ousadia que gostaríamos de ter. Na sua solidão, na sua inadaptação ao meio, apesar dos maus tractos que a vida lhe dá, tem artes a tem força pana deitar de cangalhas, pelo ridículo, convenções, preconceitos, vaidades, hierarquias e todas as formas de felsa moral, de falsa caridade, de falsa superioridade, de falso poder”

Morreu Charles Chaplin, viva Chartot.

Venerando António

CEM ANOS DE CHARLOT : Charlot et le Parapluie 1914

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Memória de um tempo que tem de ser presente por Ana Paula Alexandre.


Saímos de casa e a rua tornou-se nossa e os heróis, em cima de chaimites, eram iguais a nós, estavam ali e também eram nossos…

As fábricas, os campos, os barcos pertenceram-nos; homens e mulheres, de rosto queimado pelo sol e pela geada do interior da nossa terra, saíram das aldeias, vieram ver o outro lado do mundo e exclamaram: Olha o mar! e ficaram encantados, porque o mar também lhes pertencia…

Correu um vento novo pelas planícies e pelas serras e mãos calejadas sentaram-se pela primeira vez em bancos de escola e aprenderam a escrever o seu nome em letras grandes e assumidas.

O futuro já tinha chegado e o impossível tinha-se cumprido.

Os vampiros refugiavam-se atrás do nevoeiro e as hienas trabalhavam na sombra….

O amor, esse inventava-se, sem sinais proibidos, descia a avenida de mãos dadas com o sol e até a liberdade tinha atracado no Tejo.

Hoje, as hienas estão aí, os vampiros escondem o céu do nosso país e só o mar mostra a revolta…

Nenhum povo, depois de ter conhecido o sol, pode ficar silenciado por um tempo de chuva!

Se somos um país de marinheiros, por que é que estamos a deixar o mar sozinho?!

ANA PAULA ALEXANDRE

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

No Dia Mundial da Rádio - A Minha Memória do tempo da Rádio:


Comemorando-se hoje o dia mundial da rádio, recordo o meio de comunicação que mais me seduziu ao longo dos tempos.

Pertenço à primeira geração de portugueses que conheceram a televisão, mas a rádio foi sempre uma presença mais assíduo nos dias da infância e da juventude.

Foi através da rádio que segui os primeiros acontecimentos nacionais e internacionais, desportivos, culturais e musicais, de que me lembro.

Já aqui escrevi que foi ao ouvir rádio que soube do assalto ao comboio correio na Inglaterra, um dos mais rocambolescos assaltos de sempre, no verão de 1963, ou da morte de Edith Piaf, em Setembro desse anos, e do assassinato de Kennedy, em Novembro.

Foram as primeiras notícias do mundo de que me lembro.

Apesar de ter televisão em casa desde muito novo, esta só iniciava a sua emissão no início da noite, e assim era através da companhia de um rádio aceso na sala que íamos brincando, fazendo os trabalhos de casa e conversando em família.

Lembro-me dos noticiários da Emissora Nacional ou dos Parodiantes de Lisboa no Rádio Clube Português que nos acompanhavam à hora do almoço em família, base de muitas conversas e comentários sobre o mundo e a vida.

Foi ainda através da rádio que todos seguimos avidamente as notícias do 25 de Abril.

O rádio portátil a pilhas veio revolucionar o meio, permitindo transportar a musica e os acontecimentos do mundo para toda a parte.

Depois de Abril acompanhei as emissões do Rádio Clube Português em FM, que foi onde muitos da minha geração tiveram contacto com a história do rock e do pop, descobrindo as musicas que passaram pelas nossas vidas.

Tive o privilégio de ter conhecido por dentro os míticos estúdios do antigo Rádio Clube Português, pois um projecto meu foi seleccionado para uma hora de programação num programa do José Nuno Martins, isto no inicio da década de 80, tendo conhecido na ocasião outro mítico nome da rádio, o João David Nunes.

Pouco tempo depois envolvi-me nos projectos de lançamento das rádios locais, andando de antena na mão, com microfone e gira-discos, com um grupo de amigos, de casa em casa, a fazer as primeiras emissões de rádio pirata, actividade formalizada depois em projectos como a Rádio Extremadura e a Rádio Oeste, ao longo de mais de dez anos, acompanhando ainda, por afinidade pessoal, o projecto da TSF, tendo conhecido os primeiros estúdios e alguns dos históricos dessa rádio.

Ainda hoje prefiro a companhia da rádio à televisão.

Actualmente não começo o dia sem ouvir as notícias na Antena 1, aquele que é actualmente o meu projecto de rádio preferido.

Apesar de todas as ameaças, nem o vídeo, nem os novos meios de comunicação conseguiram “matar” o prazer de ouvir rádio.

NO DIA MUNDIAL DA RÁDIO: António Silva explica como funciona O Aparelho de Rádio.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Enfim, a História Aproxima-se dos Povos - o século XVIII em Portugal visto por uma historiadora brasileira - um texto escolhido por Maria Laura Madeira.

Enfim, a História aproxima-se dos povos

 por Maria Laura Madeira

A História vai-se aproximando dos povos e realizando o velho sonho de discretos investigadores, aos quais interessa sobremaneira, antes das ditas façanhas, entender e fazer entender os conceitos por que se pautaram...

Alguns povos, como o nosso, sofrem ainda hoje como vítimas dum conceito feudal da organização social, levado ao extremo, e até contando com a anuência servil dos povos. Afinal, já nos nossos dias, vemos como os deputados se auto-promoveram com vencimentos e regalias muito acima dos governados, sem lhes importar a miséria e a injustiça lançadas sobre a grande maioria deles. Entre outros escândalos, que vamos conhecendo. Esquecem um princípio fundamental da República: o exemplo.

Sem embargo de termos alcançado entretanto um nível cultural que já nos permitiria ser bem mais exigentes no cumprimento de princípios fundamentais. A Educação e a Cultura, como a Cidadania, deverão merecer-nos o maior dos cuidados, para que o sentido crítico e a liberdade de expressão efectivamente se exerçam e dêem frutos nas novas gerações.

Ou continuaremos pasmados, manipulados, fascinados como tolos diante do exibicionismo de alguns, perigosamente, como no tempo de D. João V e de suas frívolas cortes e ambições...(como exemplo).

Parabéns aos jovens historiadores e investigadores que enfim se debruçam e esmiúçam o testemunho suado e sofrido dos que sempre ficaram à margem da História...A civilização agradece.:

 MLM/2014

P.S. A Globo passa pelas 20 horas uma novela notável, que já tem uns aninhos, acerca de como nasceu a cidade do Rio de Janeiro, logo a seguir à libertação dos escravos e ao aparecimento  das actuais «favelas». A não perder, na linha do que atrás deixei dito. 
Mlaura

Heranças de Portugal


Paço Real - Lisboa
(pintura a óleo do séc. XVIII)

"Apesar da forte influência inglesa na economia, e que aumentava cada vez mais a ponto do historiador britânico Eric J. Hobsbawn (1920-2012) se referir a Portugal como colônia não oficial do Império Britânico no século XIX, a França era o modelo em termos de moda, cultura e vida cortesã no Brasil Colonial. Após terminada a Unificação Ibérica, em 1640 (vista pelos portugueses como uma humilhante dominação que durou 80 anos), criou-se uma atmosfera de rejeição aos hábitos da Espanha, passando assim a França a ser a grande fonte inspiradora.
Dom João V

"Dom João V (1689-1750) sonhava em passar para a História como o Rei-Sol lusitano. O monarca e os nobres copiavam as roupas e os acessórios franceses, e sempre com grande ostentação. Vários viajantes relataram os excessos da elite lusitana. Lisboa, porém, não estava nem perto de se tornar Paris. Nem todos as sedas, rendas, joias e perucas conseguiam disfarçar a precária situação financeira de Portugal. Ainda assim, o ouro e os diamantes levados do Brasil alimentavam as manias da nobreza empobrecida.
Rainha Dona Maria Ana
"As atividades sociais e culturais em Lisboa eram poucas. O rei e a rainha não transformavam o cotidiano em um espetáculo, como era comum em Versalhes. As trocas de roupas não eram um ato público, o casal real fazia as refeições sozinho, o rei caçava com poucos acompanhantes. A rainha Dona Maria (1683-1754) era chamada de carola à boca pequena, só saindo para ir às missas. As construções também seguiam o estilo da corte. O Paço Real, o Rossio, os palacetes dos nobres mais importantes, todos apresentavam o mesmo ar pesado e sem imaginação (Lilia Schwarcz discute detalhadamente este tema em “A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis”). O Convento de Mafra, era a mais grandiosa obra do barroco português e a menina dos olhos de Dom João V, mas era um Palácio-Convento considerado feio e faraônico (ver o belíssimo “Memorial do Convento”, de José Saramago).
Convento de Mafra
"Não havia praticamente vida social. Com exceção de alguns espetáculos teatrais e dos eventos religiosos (missas, procissões e autos-de-fé), os nobres não tinham muito o que fazer. As artes, como pintura, escultura, música, teatro, ópera e até literatura (terreno onde sempre floresceram grandes nomes lusitanos), enfrentavam uma fase de marasmo. Somente a religião vivia um furor cada vez maior. Diziam as más línguas que Dom João V era tão católico, que buscava as amantes entre as freirinhas dos conventos…A religiosidade exacerbada, nos moldes da Idade Média, era uma das peculiaridades da sociedade portuguesa. A Europa via os portugueses como supersticiosos e ignorantes.
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Procissão portuguesa séc. XVIII
"O que aconteceu com as glórias e as conquistas lusitanas? Como explicar a penúria que convivia com abundância de ouro, diamantes, açúcar e escravos do Brasil? Além de apegado à Igreja, que é uma instituição essencialmente conservadora, Portugal sempre se manteve isolado em relação às novidades e ideias que transformaram o mundo. A Reforma Protestante, o Iluminismo, os ideais das Revoluções Francesa e Industrial, os conflitos dos Estados Unidos, tudo sempre parecia chega atrasado a Portugal, ou a nem mesmo interessar aos lusitanos (salvo a pequenos grupos da elite), que insistiam em olhar para o passado das grandes navegações. Na economia, Portugal se contentava em esbanjar o ouro brasileiro em projetos grandiosos e inúteis. Sem investimentos em infraestrutura, sem se preocupar em fortalecer as manufaturas e as indústrias incipientes, a economia portuguesa afundava rodeada de riquezas. Nem os esforços de Dom João V, nem a mão de ferro do Marquês de Pombal (1699-1782) conseguiram reverter a situação.
Sebastião José de Carvalho e Melo
"A vida na corte no Antigo Regime era um jogo complexo de aparências. Portugal tentava seguir este modelo mesmo com uma corte pobre e pequena. E continuou insistindo nestes hábitos cortesões, mesmo quando já estavam obsoletos. Sabemos que no Brasil as coisas foram muito semelhantes: uma elite sem título que vivia de aparências, investindo o que podia e o que não podia em tecidos, joias, roupas, sapatos, escravos, carruagens e liteiras.
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Senhora brasileira do séc. XVIII
"A herança portuguesa é paradoxal e cheia de interrogações, sem deixar de ser também bela e rica. Conhecendo-a. podemos refletir bastante sobre a realidade brasileira e sobre alguns hábitos de tempos passados, que permanecem até hoje entre nós".
Texto do historiadora  Márcia Pinna Raspanti