sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

“Manifesto contra a Crise", pela ciência, a cultura e as artes".


Quem tem dois dedos de testa já percebeu que "crise" actual tem servido para trazer ao de cima o que de pior existe na política portuguesa e europeia.

A crise revela-se uma das maiores farsas da história recente e tem servido apenas para impor um programa ideológico que visa impor a lei do lucro e do mais forte em todos os sectores e destruir o máximo de direitos conquistados no século passado.

Entre eles estão os direitos à ciência, à cultura e à arte.

A forma como estes sectores têm sido mal-tratados pelo poder político revelam o poder de ignorantes e gente boçal, incapaz de olhar para além das suas folhas de excell ou dos gráficos de contas.

Já o Churchill disse um dia, sobre as intenções de gente desta noutra época,  que, se não preservarmos a cultura a arte e a ciência então não vale a pena defender a civilização.

Por isso aqui revelamos mais um documento que alerta para a necessidade de defender a ciência, a cultura e a ciência dos vorazes apetites do mundo financeiro e das diatribes deste governo de boçais ignorantes, apoiados por gente ainda mais perigosa que está à frente dos destinos europeus :

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

"PRAXISMO"


Confesso que já estou farto de toda esta conversa sobre as praxes.

Confesso que abomino praxes, acho uma estupidez, coisa de gente mentecapta e idiota.

Claro que todos nós, nalguns momentos da nossa vida tomamos atitudes estupidas, mentecaptas e idiotas, mas não fazemos disso um ritual ou uma forma de nos afirmarmos perante os outros.

Tudo aquilo que eu sei de praxes e tenho visto reproduzido em filmes e descrições várias é um conjunto de provas de humilhação, arrogância e desumanidade abjecta.

Se tudo aquilo se passasse numa escola do ensino básico ou secundário (…mas, onde também já há quem tente imitar as praxes “académicas”..) seria classificado como bulling e os prevaricadores sancionado devidamente pela sua prática.

Quando fui para a universidade felizmente não existiam praxes. Quanto muito era considerado coisa decadente , restrita à Universidade de Coimbra.

Os defensores das praxes vêm agora com a desculpa de que estas servem para “integrar os alunos” e para “consolidar amizades “(????).

Pessoalmente sempre me senti integrado nas universidades que frequentei e sempre consegui fazer boas amizades, amizades para vida, sem precisar de passar por qualquer processo de humilhação como o das praxes.

Dizem ainda os mesmos defensores da “coisa” que se deve distinguir as praxes violentas das “normais”.

Mas aquilo que tenho visto é tudo violento, quase ao nível da violação (…em muitos casos literalmente…) da liberdade de cada uma.

A violência não é só agredir fisicamente alguém ou levar alguém à morte, como já tem acontecido. Despejar água sobre alguém, pintar a cara com símbolos fálicos,  obrigar alguém a fazer exercícios físicos, berrar ordens e outras alarvidades é igualmente violento.

Formalmente qualquer aluno pode recusar as praxes, mas se o fizer o mais certo é vir a ser tomado de ponta, marginalizado e até perseguido.

As escolas são espaços de liberdade, de convívio, de estudo  e de integração, mas nunca através dessas alarvidade.

As associações de estudantes devem integrar os estudantes, apoiando-os nas suas dificuldades psicológicas, sociais, económicas,  e integrando-os através de actividades científicas, culturais ou desportivas, nunca através de atitudes vexatórias e de provas iniciáticas de cariz fascista, como são as praxes.

Sou contra a proibição formal das praxes, mas as associações de estudantes, as direcções das escolas, os professores e os alunos com bom senso devem demarcar-se dessas actividades, que devem recair sob a alçada da lei nos casos mais graves.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Recordar Pete Seeger - 4 - Pete Seeger recordado em cartoon´s













Recordar Pete Seeger - 3 - Como eu, com a "ajuda" de Ruben de Carvalho, recordo"aquela noite" em Lisboa:

Recordo-me bem daquele memorável noite, já lá vão...trinta anos e um mês (!!!).

O Pavilhão dos Desportos (hoje Carlos Lopes) estava a abarrotar.

fã de longa data de Pete Seeger, foi a realização de um sonho poder vê-lo ao vivo.

Lembro-me também de Pete Seeger, que se apresentava em palco com toda a humildade que o caracterizou em vida, mas ainda com uma voz forte e firme, ter aproveitado para homenagear o Zeca Afonso que se encontrava na primeira fila, já doente, e que se levantou com alguma dificuldade. 

Foi a última vez que eu, e muitos dos presentes, vimos o Zeca, que morreria pouco mais de quatro anos depois.

Do concerto resultou um LP duplo, que eu comprei assim que saiu, e, mais tarde um CD com um livro de fotografias e uma biografia de Pete Seegar, que também  adquiri religiosamente alguns anos depois.

Foi ainda com uma felis surpresas que pude ver o reaparecimento de Pete por ocasião da cessão comemorativa da tomada de posse do presidente Obama.

Aqui vos deixo a descrição desse concerto por um dos  responsáveis por esse grande concerto que ficou na memória musical de todos a que ele assistiram:


"Ruben de Carvalho recorda concerto "memorável" de Pete Seeger em Lisboa

in Lusa e Blitz on-line de 29 de Janeiro de 2014:

"Em 1983, o músico norte-americano que hoje faleceu tocou em Lisboa, "a pedido" de figuras como Sérgio Godinho. Do espetáculo esgotado nasceu um álbum ao vivo.

"O músico norte-americano Pete Seeger, que morreu na segunda-feira aos 94 anos, deu em 1983 um concerto "memorável" em Lisboa e que ficou registado em álbum, recordou à Lusa Ruben de Carvalho, um dos promotores do espetáculo.

"Considerado uma das figuras primordiais do folk norte-americano, Peter Seeger fez da canção uma arma de ativismo social e político, juntando-se a vários movimentos cívicos pelos direitos humanos ao longo do século XX, contra a opressão e a guerra.

"A 02 de dezembro de 1983 atuou no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, para uma plateia que esgotou os bilhetes "num ai, em dois dias", e o concerto acabou por ser editado em álbum, acompanhado de um pequeno livro e um folheto com fotografias.


Ruben de Carvalho recorda concerto "memorável" de Pete Seeger em Lisboa -


"Fizemos várias tentativas para trazer o Pete Seeger a Portugal e conseguimos depois de lhe ter escrito uma carta. Criámos uma comissão, com João Paulo Guerra, José Jorge Letria, Daniel Ricardo e o Sérgio Godinho", recordou Ruben de Carvalho, antigo jornalista e membro do Comité Central do PCP.

"Ruben de Carvalho, responsável pelo ciclo "Hootenanny", de blues e folk, na Culturgest, afirmou ainda que na altura do concerto conseguiu convencer Pete Seeger a não atuar sozinho em palco, tendo contado com as participações de Júlio Pereira, Zé da Ponte e Guilherme Inês.

"Houve ainda uma projeção de "slides" com as letras das canções numa tela com imagens criadas pelo artista plástico Rogério Ribeiro.

"Não tínhamos pensado em gravar o concerto, mas o ambiente era tão simpático que se conseguiu reunir condições para isso", disse.

"Por essa razão, pela adesão do público - que Pete Seeger iria recordar noutras ocasiões - Ruben de Carvalho tem na lembrança "uma coisa verdadeiramente memorável. Foi uma coisa gloriosa".

"Ruben de Carvalho admitiu ser um enorme fã da família Seeger ("já cá trouxe o irmão Mike Seeger e o sobrinho Anthony Seeger"), descrevendo Pete Seeger como "um exemplo de firmeza ideológica", um nome fundamental "de toda uma geração que fez parte da folk".

"Juntamente com Woody Guthrie, foi um dos responsáveis pela divulgação da música folk norte-americana, assinando canções como "Where Have All the Flowers Gone?", "If I Had a Hammer (The Hammer Song") e "Turn, Turn, Turn", e interpretando temas como "We Shall Overcome".

"Tocador de guitarra, ukulele e banjo (instrumento no qual tinha gravada a frase "Esta máquina cerca o ódio e força-o à rendição"), Peter Seeger participou em 2009 no concerto de celebração da eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, interpretando, ao lado de Bruce Springsteen e do neto Tao Rodríguez-Seeger, a canção "This land is your land", de Guthrie.

"Os 90 anos do músico foram celebrados no Madison Square Garden, em Nova Iorque, com um concerto em que Bruce Springsteen o apresentou como "um arquivo vivo da música americana e da sua consciência, um testemunho do poder da música e da cultura".

"Alinhamento do disco Pete Seeger Ao Vivo em Lisboa (gravado a 2 de dezembro de 1983).

1 Introdução Ao Espectáculo
2 Union Maid
3 Guantanamera
4 Italian Flute
5 I Come And Stand At Every Door
6 We Shall Overcome
7 Wasn't That A Time
8 Christo Ya Nació
9 Well May The World Go
10 This Old Man
11 We Shall Overcome"



Recordar Pete Seeger - 2 - Pete Seeger em Portugal , recordado por Nuno Pacheco (Público)


"Pete Seeger em Lisboa, numa noite febril de 1983



"Foi no dia 2 de Dezembro de 1983 e havia uma enorme ansiedade para ver Pete Seeger. Sim, vê-lo a cantar de perto, porque ouvi-lo já todos o tinham ouvido. Dos discos, da rádio, da lenda que ele nobremente tecera numa mistura de brio e humildade. Não era uma vedeta nem queria sê-lo, era um porta-voz de ansiedades, de histórias, de poemas, de vidas alheias, de alegrias e de imperativos de justiça.

"No Pavilhão dos Desportos (mais tarde Carlos Lopes) a gente era muita e o som era mau, mas ninguém se importou com isso. Quando Seeger, então com 64 anos, chegou ao palco, foi recebido com uma tempestade de aplausos. “Faltava-nos Pete Seeger”, declarava por escrito a comissão encarregada de organizar o concerto, como se fosse uma cimeira ou convénio. E deixou de faltar.

"No palco, ele fez o que melhor sabia: cantar histórias. De vida, de esperança, também de morte – uma outra forma de reacender a esperança. Cantou canções dele próprio e de Woody Guthrie, José Martí, Carlos Mejía Godoy ou de Nazim Hikmet (por sinal o poema onde o poeta turco dá voz ao fantasma de uma menina morta em Hiroxima).

"Ouvimos Guantanamera, Union maid, Wasn’t that a time, Christo ya nasció, Well may the world go, We shall overcome e muitas outras canções feitas hinos. E nunca ao longo da noite na sala se fez silêncio, fosse com palmas sincopadas ou coros desafinados, todos queriam participar. Afinal, estava ali Pete Seeger. E que outra oportunidade  haveria de voltar a cantar com ele? Nenhuma.

"Dessa noite ficou um bom disco (LP, mais tarde reeditado em CD) e um bom livro. E ficou a memória de uma noite de festa, ansiosa, febril, por algo indistinto a que poderíamos chamar futuro. E era já passado".

Recordar pete Seeger - 1 - :Biografia de Pete Seeger, por Mário Lopes (Público)


"Morreu Pete Seeger, o decano da folk americana

Por Mário Lopes 
"O autor de If I had a hammer, activista que atravessou todas as convulsões do século XX, morreu aos 94 anos em Nova Iorque.

"Pete Seeger, o decano da folk americana, o activista pelos direitos civis e pela ecologia, morreu de causas naturais, disse a família ao New York Times, na manhã de segunda-feira no Hospital Presbitariano em Nova Iorque, onde estava internado há seis dias. Tinha 94 anos.

"Um dos grandes responsáveis pela transmissão do conhecimento sobre a música de raiz americana aos seus compatriotas, autor de Turn turn turn, If i hada a hammer  e responsável pela popularização enquanto hino de We shall overcome, Pete Seeger atravessou todas as convulsões do século XX e as do início deste em que vivemos actualmente. Sempre presente. Como nota em obituário o Washington Post, cantou contra o terror de Hitler, nas décadas de 1930 e 40, opôs-se à utilização da energia nuclear, foi incluído na lista negra do McCarthismo na década de 1950, juntou-se, na década seguinte, aos movimentos pelos direitos cívicos liderados por Martin Luther King e aos protestos dos estudantes americanos na década de 1960, e, já nonagenário, fez questão de marcar presença nas mais recentes manifestações Occupy Wall Street: “Desconfiem dos grandes líderes”, declarou nesse contexto à Associated Press, em 2011. “Desejem que existam muitos, muitos pequenos líderes.”

"Companheiro de estrada de Woody Guthrie no início de carreira, com influência marcante na ascensão de uma figura chamada Bob Dylan (foi ele que o recomendou a John Hammond, que o contrataria para a editora Columbia), Pete Seeger era, como titula o obituário do Los Angeles Times, “a consciência da América”. Várias das suas canções foram alvo de diversas versões, muitas vezes com maior popularidade. Cantaram-no, por exemplo, Marlene Dietrich (em inglês, francês e alemão), Peter, Paul & Mary ou os Byrds. Em 2006 Bruce Springsteen dedicou-lhe um álbum inteiro, We Shall Overcome: The Pete Seeger Sessions.

"Nascido a 3 de Maio de 1919 em Manhattan, Nova Iorque, viveu uma vida longa e preenchida, activa até ao fim. “Ainda há dez dias estava a cortar lenha”, contou a sua neta, Kitama Cahill-Jackson, ao Washington Post. Deixa na memória colectiva a sua imagem imponente, o rosto adornado pela barba icónica e, a tiracolo, o banjo, instrumento pelo qual se apaixonou ainda muito jovem e que divulgou incansavelmente. Isso e, claro, a sua voz, arma poderosa contra a opressão, qualquer que fosse a forma que esta assumisse.

"A sua voz, incapaz já de atingir tom de tenor, pouco rico timbricamente, mas muito expressivo, que lhe ouvimos na juventude, continuava hoje a ser instigadora daquilo que Seeger via de mais precioso na música, a capacidade de reunir comunitariamente e de contribuir para a transformação do mundo. Nos concertos dos últimos tempos, limitava-se a lançar o início dos versos ao público e a deixar que este os completassem num coro de milhares – desejo de partilha que o público português pôde testemunhar, voz ainda intocada, em Dezembro de 1983, data do único concerto em Portugal de Pete Seeger, no Pavilhão dos Desportos.

Não por acaso, afirmava que as suas canções não eram verdadeiramente suas (fazia até questão de desvalorizar os seus talentos de compositor, afirmando que se limitava a adaptar velhas canções do cancioneiro do folclore e dos espirituais negros americanos). O seu forte sentimento comunitário, aliado a uma humildade desarmante, conduzia a afirmações como as dadas ao Guardian numa entrevista de 2007. 

"Comentando o álbum que Bruce Springsteen lhe dedicara, disse que preferia que o cantor de New Jersey não tivesse utilizado o seu nome na capa. “Sobrevivi todos estes anos mantendo um perfil discreto. Agora o meu disfarce foi desmascarado. Se tivesse sabido antecipadamente, ter-lhe-ia pedido que só mencionasse o meu nome algures no interior.” Depois, enfatizou novamente o seu papel reduzido enquanto compositor: “Aquelas não são as minhas canções, são velhas canções, eu limitei-me a cantá-las.” Exemplo máximo, We shall overcome, o hino da luta pelos direitos cívicos nos Estados Unidos, hino intemporal para qualquer luta de oprimidos perante a opressão, tem a sua génese na canção gospel I'll overcome someday, de Charles Albert Tindley. Em 1948 surge publicada no People's Song Bulletin, dirigido por Seeger, com o título We will overcome. A sua única contribuição, diria depois o cantor, seria uma pequena alteração prática: "shall" adequava-se melhor ao canto que "will". Ainda assim, apesar de Seeger procurar a discrição, essa não foi uma marca permanente na sua carreira.

"Filho de um musicólogo, Charles Louis Seeger, e de uma violinista, Constance de Clyver Edson, ambos professores na prestigiada Juilliard School, e enteado de uma compositora modernista, Ruth Crawford Seeger, segunda mulher do pai, Pete Seeger foi colega de John Kennedy enquanto estudante de Sociologia em Harvard, período em que se juntou à Juventude Comunista Americana. Desiludido com o percurso académico, teria os momentos definidores da sua vida quando, juntamente com o pai, viu uma velha cantora tocar o banjo de cinco cordas, que se tornaria o seu instrumento de eleição – usava um de braço longo, criado por si. “Gostei do tom vocal estridente dos cantores, da dança vigorosa”, recorda na biografia de David Dunaway, How Can I Keep From Singing, citado no obituário do New York Times. “As palavras das canções tinham todo o sangue da vida nelas. O seu humor era mordaz e não trivial. A sua tragédia era real, não sentimentalista.”

"Pouco antes de assistir na Carolina do Norte àquele festival, começara a trabalhar na Biblioteca do Congresso Americano, fazendo catalogação e transcrição da música tradicional recolhida em todo o país. Fora convidado por John Lomax, histórico folclorista e amigo próximo de Charles Seeger. Essa música passou a ser a sua música e foi perante ela que ele se definiu enquanto músico, autor e intérprete.

"Encontramo-lo então, no final dos anos 1940, enquanto membro dos Weavers, uma das bandas que se revelariam fundamentais no revivalismo folk com centro na Greenwich Village nova-iorquina (essa que os irmãos Cohen revisitam no recente A Propósito de Llewyn Davis). Durante o seu curto primeiro período de vida, os Weavers estiveram no topo das tabelas de vendas com uma versão de Goodnight Irene, original do mítico bluesman Leadbelly (que Seeger conhecera através de Lomax), e venderam em quatro anos cerca de quatro milhões de discos, números impressionantes para a época. Foi o momento de maior exposição mediática e sucesso comercial de Seeger, contrapondo com o breve período durante o início da Segunda Guerra Mundial em que percorrera os Estados Unidos à boleia ou saltando ilegalmente para os vagões de comboio, como o faziam os milhões de deserdados da Grande Depressão. Ganhava dinheiro  tocando o seu banjo em cafés a troco de gorjetas. Aprendera as melhores técnicas para o fazer com Woody Guthrie, que se tornaria seu mentor e companheiro.

"Tocaram juntos nos Almanac Singers, cantando canções antiguerra e anti-racismo e promovendo o poder sindical na luta por melhores condições de vida dos trabalhadores. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial acabaria com a banda. O fim da guerra traria o nascimento dos Weavers e a imagem inusitada de Pete Seeger no topo das tabelas de venda – “não consigo lembrar-me de um momento que ele sinta como menos importante na sua vida”, declarou Arlo Guthrie, filho de Woody, no concerto de celebração dos 90 anos de Seeger. A América em histeria anticomunista dos anos McCarthy não tardaria, porém, a voltar-se para ele.

"Abandonara o Partido Comunista em 1950, em conflito com o estalinismo, mas não o invocou em sua defesa perante a Comissão de Actividades Antiamericanas. Recusando-se a qualquer denúncia declarou perante ela, em 1955: “Sinto que não fiz nada de natureza conspirativa em toda a minha vida. Não vou responder a quaisquer questões relacionadas com as minhas filiações, as minhas crenças filosóficas, religiosas ou políticas, ou em quem votei nas últimas eleições, ou qualquer um desses temas da minha privacidade. Julgo ser muito imprópria colocar essas perguntas a um americano, especialmente neste contexto de coacção” – na supracitada reportagem do Guardian, o jornalista Edward Helmore conta que, ao subir ao palco de um pequeno clube em Beacon, a terra nas margens do rio Hudson em que viveu desde os anos 1940, se apresentou dizendo: “Ainda me considero um comunista falhado.”

"Condenado em 1961 a um ano na prisão, que não chegou a cumprir, foi colocado na lista negra, impedido de actuar na rádio e televisão e proscrito dos grandes palcos. Os Weavers terminaram (três dos quatro membros tinham enfrentado a comissão) e, no que é um aparente paradoxo, Pete Seeger entrou naqueles que considerou serem os melhores anos da sua vida. Passou a tocar apenas em universidades ou em pequenas associações locais. Adepto da máxima “pensa globalmente, age localmente”, revelou aos jovens estudantes a música americana que eles nem imaginavam existir e mostrou a todos os que o ouviam, dizia, que não era necessário entrar no jogo do comércio para viver em sociedade. Foi neste período que ouviu com atenção um jovem Bob Dylan, de quem se tornou conselheiro. E seria com Bob Dylan que viveria um episódio que entrou nos anais da história da música popular.

"Em 1965, Dylan apresentava-se novamente no Newport Folk Festival, de que Seeger fora em 1959 um dos fundadores. Momento histórico: pela primeira vez, a jovem esperança da folk, a “voz de uma geração”, surgia acompanhado de uma banda eléctrica. Conta a lenda que, irado com o seu protegido, que trocava a pureza acústica do folclore pela selvajaria gratuita e burguesa do rock’n’roll, terá pegado num machado e tentado cortar a fonte de alimentação do palco. Seeger e outras testemunhas viriam a negá-lo. Estava irritado, sim. Não com Dylan, mas com o técnico de som que afogara as palavras do cantor sob o volume da guitarra – e Seeger achava que era importante que o público ouvisse os versos de Maggie’s farm.

"Era difícil, de resto, imaginá-lo a tomar tal atitude. Se a guitarra de Woody Guthrie tinha inscrita no seu corpo “This machine kills fascists” (“Esta máquina mata fascistas”), no banjo de Seeger lia-se “This machine surrounds hate and forces it to surrender” (“Esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se”). Firme nas suas convicções, corajoso na sua afronta ao poder, dono de uma coerência a toda a prova, Pete Seeger era um revolucionário humanista, crente no futuro – autor de música para crianças, afirmava que era impossível não acreditar no futuro quando cantava para elas.

"O homem que fora sentenciado pelo Estado americano, que erguera a sua voz com Martin Luther King e 200 mil pessoas na Marcha de Washington contra a ignomínia desse crime legalizado que era a segregação racial; ele que amante e estudioso da tradição americana se mantivera sempre aberto ao mundo (cantou Guantanamera, cantou canções republicanas da Guerra Civil de Espanha, transformou uma canção russa sobre cossacos partindo para a guerra em hino anti-Guerra do Vietname, Where have all the flowers gone), seria, já septuagenário, distinguido por Bill Clinton com a Medalha Nacional das Artes, a mais alta distinção que o Estado americano atribui aos seus artistas. Cinco anos depois, em 1999, Cuba concedeu-lhe homenagem semelhante, a medalha da Ordem Félix Varela, pelo seu “humanismo e trabalho  artístico em defesa do ambiente e contra o racismo”. A 18 de Janeiro de 2009, estava nas escadas do Memorial Lincoln cantando This land is your land, a canção do velho amigo Woody Guthrie, para o novo presidente americano, Barack Obama.

"Nada disso o alterou. Continuou a tocar regularmente nos pequenos clubes nas redondezas de sua casa, que construíra na década de 1940 com a mulher, Toshi-Aline Öta (morreu em 2013, a dias de festejar os 70 anos de casamento), e a participar em acções de intervenção social e de activismo ecológico, principalmente em defesa da despoluição do seu amado rio Hudson. O humor mantinha-se intacto. Os locais lembrar-se-ão dos autocolantes que distribuía com o slogan “Gravity – it’s just a theory” (“Gravidade – é apenas uma teoria”), encorajando a que os enviassem para alguém no Kansas, o estado criacionista por excelência.

“A chave para o futuro do mundo”, afirmava em 1994, “é encontrar as histórias optimistas e torná-las conhecidas.” Pete Seeger encontrou as histórias e cantou-as. No processo, pelo seu exemplo e atitude, tornou-se também ele parte da história. Essa. Com agá maiúsculo".

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Trinta Anos de Cavaquistão.


…E já lá vão quase TRINTA ANOS de Cavaquismo…

Passaram ontem três anos sobre a reeleição de Cavaco Silva com Presidente da República.

Aos oito anos de Cavaco com Presidente, devemos juntar os  dez anos como primeiro-ministro (1985-1995), para além de uma anterior  curta passagem pelo governo de Sá Carneiro como ministro das finanças (1981-1982)…quase trinta anos de cavaquismo, com um interregno de dez anos (embora o mesmo espírito cavaquista estivesse presente no governo de Durão Barroso, entre 2002 e 2004).

Chegou a primeiro-ministro na altura em que Portugal integrou a União Europeia (então CEE), e numa altura de “vacas gordas” para a economia portuguesa.

A abundância de dinheiro, permitida pela canalização de chorudos fundos europeus, deixou os portuguese deslumbrados com o culto da riqueza e do dinheiro, e Cavaco muito contribui para isso.

Em vez de usar esses fundos no financiamento de projectos de desenvolvimento com futuro, preferiu canaliza-los para o betão e para o consumismo, destruindo o frágil aparelho produtivo português, a pesca, a industria, a agricultura.

Criou  a ilusão do dinheiro fácil, distribuindo as migalhas pelo “povo”,  enquanto facilitou as grandes negociatas dos amigos políticos, das quais o BPN foi apenas um dos casos mais conhecidos.

O novo-riquismo tonou-se a ideologia do “novo regime”. O velho slogan do país do “Fado, Fátima e Futebol” dava lugar ao país da “Cultura Pimba”, do culto do consumismo e do ter sobre o ser e…do Futebol!!!.

O Futebol tornou-se o grande culto nacional. Desbaratou-se dinheiro na construção de majestosos estádios para a grande festa de consagração do “novo regime cavaquista”, o Euro 2004.

Graças a uma comunicação social cada vez mais acrítica e amorfa, dominada pelas grandes empresas e pelo poder financeiro, principais beneficiários dos fundos europeus e da “ideologia” cavaquista, o futebol ganhou uma dimensão nunca conhecida, nem durante o Estado Novo.

Os clubes de Futebol  tornaram-se em grandes e apetecíveis empresas, onde corre dinheiro de origem duvidosa, imune à crise e onde se misturam “comentadores”, políticos, especuladores financeiros e toda uma trupe de gente pouco recomendável.

O mais grave é que grande parte da esquerda política, como o Partido Socialista, se deixou seduzir por essa ideologia neo-saloia, das negociatas e do dinheiro fácil, da cultura do “popular” e  do “pimba”, das “praxes”  e do Futebol, onde a educação tinha como objectivo, mais do que o saber, a obtenção de um  título de “doutor” para prestigiar políticos de carreira.

No meio deste desvario e desta atitude económica e culturalmente subdesenvolvida, houve algumas situações onde se sentiram melhorias, como na educação, na investigação científica, na cultura, na saúde, nas ligações viárias, no bem-estar geral da população.

Mas muitos desse avanços fizeram-se sempre de forma pouco sustentável,  aos soluços, beneficiando muitas vezes das migalhas dos fundos que lhes eram destinados, já que o grosso era desbaratado em benefícios para  amigos da política e das finanças.

Entre o que caminho que se podia ter feito e aquele que se fez, houve evolução mas muito lenta, pouco sustentável, perdendo-se tempo pela ignorância dos políticos e meios pela corrupção instalada que absorvia o grosso do investimento.

Era um pouco como aquela anedota que se contava nos tempos áureos do cavaquismo e dos fundos europeus a rodos: um dia um ministro português visita o seu congénere espanhol. Este leva-o a visitar a sua casa, um imenso palacete com todas a comodidades. Admirado com o luxo o português pergunta-lhe como conseguiu. O espanhol leva-o à varanda e aponta para uma auto estrada que se via em frente: - está a ver aquela auto-estrada? Metade do seu financiamento está aqui na minha casa. Passados uns meses o ministro espanhol visita o homólogo português e  este leva-o à sua casa, um palacete ainda maior e mais luxuoso do que aquele que tinha visitado em Espanha. O ministro espanhol pergunta-lhe:- Como é que conseguiu isto? . responde-lhe o português :- está a ver aquela estrada? O espanhol olha em redor e não vê estrada nenhuma : - não vejo nada!, ao que o ministro português reponde: - Pois não. Foi tudo para esta casa!

Mas, desde que não houvesse percalços, desde que o dinheiro não faltasse, lá se ía andando, lentamente, melhorando lentamente a vida daqueles sectores essenciais, conseguindo-se até resultados muito para além do reconhecimento e dos apoios financeiros a que estavam sujeitos a cultura, a ciência a educação e a saúde…

Muitos destes êxitos ficaram-se a dever ao trabalho de muita gente esforçada e anonima e a raros políticos com alguma visão, casos esporádicos, raramente com continuidade, boicotados rapidamente pelos herdeiros nos cargos (um Marçal Grilo na educação, uma Maria de Belém na saúde, um Mariano Gago na Ciência…).

Costuma-se dizer que é nas curvas apertadas da estrada que se vêem o bons condutores.

Quando as coisas começaram a correr mal, em vez de termos um presidente da República que exigiu responsabilidades pelo descalabro, enfrentando o poder da corrupção politico-financeira, os “mercados” especulativos , as mentirolas de Bruxelas e da srª Merkel sobre os portugueses,  acatou todas as medidas “austoritárias” que salvaguardaram e pouparam os responsáveis pelo descalabro (políticos, banqueiros, grandes empresários, especuladores…) e  conduziram o país ao empobrecimento, à emigração, ao desemprego, à destruição do que de positivo se fez na investigação, na educação e na saúde, tivemos um presidente conivente, silencioso e ausente, transformado num mero “corta-fitas”...

O cavaquismo é este país que temos …e ainda vamos ter de viver com ele mais alguns anos…

Para os senhores de Davos: Os 85 mais ricos do mundo têm tanto como a metade mais pobre.

Agora que os poderosos deste mundo se voltam a reunir em Davos, é bom que tenham em atenção os dados recentemente revelados: 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Crónica de Rui Tavares : "Atacaram o Portugal futuro"

Rui Tavares fala nos cortes à investigação científica em Portugal, na sua crónica de ontem no jornal "Público".

Para Rui Tavres esses cortes enquadram-se perfeitamente no espírito deste governo, um governo que "está a deixar obra para lá do seu mandato" e que não "quer só destruir o país agora: Quer deixá-lo sem possibilidades de se reconstruir depois", sendo esta "a diferença entre um governo de incompetentes e um governo de fanáticos". E acrescenta : "que jeito nos dava agora um governo que fosse só de incompetentes".

Acrescenta o deputado do parlamento europeu que uma "das poucas coisas que se poderiam atravessar no caminho da estratégia do governo seria a possibilidade de uma economia portuguesa mais especializada, produzindo mais valor, fixando mais conhecimento e exportando melhor. Não é isso que o governo quer (...). O governo quer o contrário disso: o governo quer uma economia de baixos salários, comprimidos pelo desemprego alto, e produzindo barato para exportar mais (mas não melhor), um país a meio-gás para recursos a meio-gás".

Vale a pena ler a crónica integralmente, que reproduzimos em baixo:

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Apesar do Passos Coelho...ainda há gente de bem no PSD : carta de um militante do PSD ao presidente da JSD ( a propósito do referendo sobre a a co-adopção):


Carta aberta ao presidente da JSD e seus compagnons de route

por Carlos Reis dos Santos
Jurista, militante do PSD n.º 10757 e militante honorário da JSD

 in  Público de 18/01/2014

“Hesitei em decidir a quem me dirigir: não sei quem hoje é o mandante da JSD, nem a quem prestam vassalagem. Assim, terei de me dirigir ao presidente formal da JSD – e a quem deu publicamente a cara por uma das maiores indignidades que se registaram na história parlamentar da República.

“Para vocês, que certamente não me conhecem, permitam-me que me apresente: sou militante do PSD, com o n.º 10757. Na JSD onde me filiei aos 16 anos, fui quase tudo: vice-presidente, director do gabinete de estudos, encabecei o conselho nacional, fui quem exerceu funções por mais tempo como presidente da distrital de Lisboa, fui dirigente académico na Faculdade de Direito de Lisboa, eleito com a bandeira da JSD, fui membro da comissão política nacional presidida por Pedro Passos Coelho, de quem, de resto, fui um leal colaborador. Quando saí da JSD, elegeram-me em congresso como vosso militante honorário.

“Por isso julgo dever dirigir-me a vocês, para vos dizer que a vossa actuação me cobre de vergonha. E que deslustra tudo o que eu, e tantos outros, fizemos no passado, para a emancipação cívica, económica, cultural e política, da juventude e da sociedade.

“Com a vossa proposta de um referendo sobre a co-adopção e a adopção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, vocês desceram a um nível inimaginável, ao sujeitarem a plebiscito o exercício de direitos humanos. A democracia não deve referendar direitos humanos de minorias, porque esta não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade. Foi assim com a abolição da escravatura, com o direito de voto das mulheres, com a instituição do casamento civil, com a autorização dos casamentos inter-raciais, com o instituto jurídico do divórcio, com o alargamento de celebração de contratos de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estes direitos talvez ainda hoje não existissem se sobre eles tivessem sido feitos plebiscitos.

“Abstenho-me de fundamentar aqui a ilegalidade do procedimento que se propõem levar avante: a violação da lei orgânica do referendo é grosseira e evidente – misturaram numa mesma proposta de referendo duas matérias diferentes e nem sequer conexas. Porque adopção e co-adopção são matérias que vocês pretendem imoralmente enfiar no mesmo saco.

“Em matéria de co-adopção vocês ignoram ostensivamente o superior interesse das crianças já criadas em famílias já existentes e a quem hoje falta a devida segurança jurídica e protecção legal. Ao invés, vocês querem que os seus direitos sejam referendáveis. Confesso que me sinto embaraçado e transido de vergonha pela vossa atitude: dispostos a atropelarem o direito de umas poucas crianças e dos seus pais e mães, desprotegidos, e em minoria, em nome de uma manobra política. E isto é uma vergonha.

“Mas é também com estupefacção que vejo a actual JSD tornar-se numa coisa que nunca foi – uma organização conservadora, reaccionária e atávica. Vocês empurram, com enorme desgosto meu, a JSD para uma fronteira ideológica em contradição com a nossa História e ao arrepio do nosso património de ideias e valores: o humanismo em matéria de liberdades individuais sempre foi nossa trave mestra. O que vocês propõem é uma inversão de rumo: conservadores na vida familiar mas liberais na economia. Eu e alguns preferimos o contrário. Porque o PSD, em que nos revimos, sempre foi o partido mais liberal em matéria de costumes e em matérias de consciência.

“Registo, indignado, o vosso silêncio cúmplice perante questões sacrificiais para a juventude portuguesa. Não vos vejo lutar contra o corporativismo crescente das ordens profissionais e a sua denegação do direito dos jovens a aceder às profissões que escolheram. Não vos vejo falar sobre a emigração maciça que nos assola. Não vos vejo preocupados com muitas outras questões.

“Mas vejo-vos a querer que eu decida o destino dos filhos dos outros.

“Na JSD em que eu militei sempre fomos generosos: queríamos mais direitos para todos. Propusemos, entre tantas coisas, a legalização do nudismo em Portugal, o fim do SMO, a despenalização do consumo das drogas leves, a emancipação dos jovens menores e o seu direito ao associativismo. Nunca nos passaria pela cabeça querer limitar direitos.

“Hoje vocês não se distinguem do CDS e alguns de vocês nem sequer se distinguem da Mocidade Portuguesa, ou melhor, distinguem-se, mas para pior.


“A juventude já vos não liga nenhuma. E eu também deixei de vos ligar”.

VISÕES DA EUROPA - 2 - Peter greenway - European Showerbath

Contra o Preconceito - um filme da Amnistia Internacional de Portugal

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Respigo da Semana : José Vítor Malheiros : "Pôr o sistema científico ao serviço da política da direita":

Pôr o sistema científico ao serviço da política da direita

por José Vítor Malheiros
In Público de 21/01/2014

“A FCT decidiu dar uma mãozinha à política de emigração qualificada lançada por Passos Coelho.
“Foram conhecidos há dias os resultados dos concursos de bolsas individuais para doutoramento e pós-doutoramentos atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), organismo responsável pela coordenação e pelo financiamento da investigação em Portugal. De 3416 candidatos a doutoramento, só 298 conquistaram a bolsa. E de 2305 candidatos a pós-doutoramentos, só 233 irão receber bolsa.

“Há outros canais de financiamento na FCT mas, mesmo considerando esses, o corte havido de 2012 para 2013 é de 40% nas bolsas de doutoramento e de 65% nas bolsas de pós-doutoramento.
“A primeira constatação é o reduzido número de bolsas individuais atribuídas, em valor absoluto. Em termos numéricos, recuámos em 2014 para o ano de 1994, depois de muitos anos a investir na formação de recursos humanos altamente qualificados.

“A segunda coisa que salta aos olhos é aquele fosso escancarado entre o número de candidatos e o de bolsas atribuídas. O que farão aqueles cinco mil candidatos sem bolsa? Irão dar aulas nas universidades? Não, porque as universidades não podem contratar. Irão dar aulas nos liceus? Não, porque o Governo está a despedir professores. Irão trabalhar para o Estado? Não, porque o Governo está a despedir quadros técnicos superiores. E o que irão fazer os dois mil doutorados sem bolsa? Investigação nas empresas? Pouco provável, no actual contexto de desinvestimento. O mais provável é que a maior parte deles faça o que Passos Coelho quer que os jovens altamente qualificados façam: que emigrem. Este país não é para eles. O modelo de empobrecimento e de mão-de-obra barata que o PSD e o CDS estão a aplicar a Portugal não tem lugar para eles. Os investigadores são um empecilho para este modelo económico e a FCT decidiu dar uma ajudinha.

“Miguel Seabra, presidente da FCT, disse, numa entrevista a este jornal, que “o que há é uma crescente competitividade”, a que os bolseiros não estavam habituados até aqui. A sugestão é que desta vez o crivo só estaria a deixar passar os realmente bons enquanto antes seria uma rebaldaria. É falso, como se prova pela quantidade de candidatos recusados que encontram lugar nas melhores universidades do mundo. É falso, como se vê pela qualidade dos doutorados dos últimos anos, com uma produção de excelência e com projectos financiados pelas mais exigentes organizações. Mas nada disso importa quando se trata de uma guerra de propaganda ideológica. O que é verdade é que o país continua muito longe dos níveis de investimento e recursos humanos em investigação dos países mais desenvolvidos, apesar do grande progresso feito, e a travagem agora feita nos vai atrasar durante anos.

“As declarações de Miguel Seabra sobre o facto são, aliás, uma barragem de desinformação: garante que “não há um desinvestimento na ciência” mesmo quando é confrontado com o facto de o investimento em investigação em percentagem do PIB descer num contexto de encolhimento do próprio PIB; perante as dotações minguantes do Orçamento do Estado para a investigação diz que a FCT tem vindo a “injectar mais dinheiro no sistema” de ano para ano; diz que o financiamento às unidades de investigação “subiu 30 e tal por cento em 2013” mas não consegue explicar para onde foi o dinheiro quando as mesmas unidades se queixam de estar a receber menos; explica que “há um trabalho enorme a fazer com as empresas” mas recusa-se a discutir a investigação nas empresas porque não conhece “com grande detalhe esses números globais”; desvaloriza o número de cientistas que saíram do país dizendo que “emigração científica há desde há 25 anos” mas diz que os números que tem, que não sabe se são fiáveis, apontam para “surpreendentemente poucos” investigadores a deixar o país. Não é uma entrevista, é um festival de chicuelinas, de esquivas e nuvens de fumo. E Miguel Seabra tem a audácia de embrulhar estas trapalhadas num discurso em que não hesita em falar de “excelência”.

“Sabemos que a FCT é objecto de críticas recorrentes devido aos seus atrasos sistemáticos, à existência de regras pouco claras, ao facto de não cumprir as regras que ela própria define e de manter assim a investigação nacional num clima de permanente instabilidade. Quanto à “excelência” dos critérios usados pela FCT, basta referir as críticas que mereceu a recente nomeação dos membros do Conselho Científico das Ciências Sociais e das Humanidades — onde uma mão misteriosa incluiu mesmo a mulher do ministro Nuno Crato, cujo currículo e filiação institucional são considerados pelo menos desajustados — para ficarmos com uma ideia de onde acaba a exigência académica e onde começa o servilismo político.


“Mas é preciso lembrar a FCT e o seu presidente de que a FCT é um organismo da Administração Pública, que gere dinheiros públicos e que deve dar conta da sua gestão de forma cabal, tempestiva e total. A falta de dinheiro pode justificar cortes, mas não justifica a opacidade dos critérios dos cortes, nem a falta de resposta a perguntas sobre os cortes e os gastos. E muito menos a inexistência de uma estratégia que tenha em conta o interesse nacional”.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

POIS!!!! ....Marques Mendes apanhado em negócio ilegal de ações


Já não há pachorra para esta gente...

A classe política que nos governa está a precisar de uma vassourada...todos os dias se conhecem novos casos de corrupção ética entre políticos e  "comentadores" políticos.

Ainda hoje o Público denuncia um esquema de corrupção que envolve um secretário de estado do actual governo....

Isto já está de tal maneira minado, os telhados de vidro são de tal ordem, que esta gente já não inspira qualquer confiança.

Ficamos por saber se a notícia agora divulgada para a imprensa sobre a negociata de Marques Mendes não passará de mais uma guerra entre facções do PSD para queimar o "comentador" que estava a descarrilar do "passos coelhismo"...

Toda essa gente tem telhados de vidro e por isso protegem-se uns aos outros, ou lançam o que sabem de forma cirurgica,conforme as "batalhas " do momento..

A única coisa que se sabe é que, mais uma vez, este e outros casos vão ficar por esclarecer, vão prescrever, vão deixar de ser notícia e...pouco a pouco tudo voltará à "normalidade"...a culpa em Portugal, principalmente se ela vem da classe política do centrão, morrerá solteira mais uma vez...

Noticias ao Minuto - Marques Mendes apanhado em negócio ilegal de ações (clicar para ler).

Recordar Ary dos Santos - As Portas que Abril Abriu

Passaram trinta anos, no passado dia 18, sobre a morte do poeta Ary dos Santos.

Em sua homenagem recordamos um dos seus poemas mais marcantes, escrito por ocasião do 25 de Abril, agora que também se comemoram quarenta anos sobre esse histórico e acontecimento, um poema tornado actual por estes nossos tempos "troikistas"  :

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

por José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.


Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.


Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.


Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.


Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração. 


Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.


Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.


Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.


Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.


Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.


Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.


Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.


Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!


Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.


Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.


E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa. 


E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.


Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.


Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão. 


Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.


Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.


Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril 

fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.


Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas. 


Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe. 


Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.


Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.


Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.


Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.


E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.


E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.


A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.


Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.


E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.


Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.


E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.


Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.


Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.


Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.


Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.


Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.


Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.


Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões. 


Com generais desta apanha
já não há revoluções.


Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.


E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.


Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.


E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.


Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.


Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.


Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.


Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.


Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.


Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.


– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.


Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.


Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.


E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer. 


Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.


Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.


No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão. 


Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!


É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.


Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza! 


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse. 


Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.


Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.


Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder! 


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe! 


Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Lisboa, Julho-Agosto de 1975