quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Respigo da Semana : António Lobo Antunes fala dos garotos que nos governam:

Quando li esta crónica de António Lobo Antunes, na revista Visão, há umas semanas atrás, senti que já não tinha mais palavras para lavrar o meu protestos contra esta gente que conduz o país para o desastre.
Está tudo dito, com a enorme lucidez de um Lobo Antunes.
Depois desta crónica, não há muito mais para dizer sobre esta gente e os seus “muchachos”  (…os banqueiros, os comentadores de serviço e os economistas, que lhes cobrem as costas largas da incompetência, da desumanidade e da ignorância, com a propaganda que largam nas páginas dos jornais e nos debates televisivos para nos convencerem da bondade dessa gente…).
Está lá tudo, preto no branco, com a ironia corrosiva que só um grande senhor das letras consegue.
Os monstros que nos governam e seus muchachos da propaganda passarão à história, mas este texto ficará como uma imagem desta época negra:

“Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo?

É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento.

Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro.

 - Eh pá embora usar um pin? que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey.

 - Embora pôr o Rato Mickey? mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu: - Mete-se antes a bandeira como o Obama e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente.

- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem? depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons.

No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin.

 - Ponha que é curtido, tio para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.

 Esta criançada é curiosa.

 Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé?

 É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal.

No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me.

A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores.

 Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável.

Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou: - Não pretendo esconder nem ocultar apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras.

Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel.
 Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave.
A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes.

Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora.

 Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos.

No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos?

 São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada?

Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada.

Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem.

 Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância.

Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã.

Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga.

Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães?

E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele (ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa) encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes."

António Lobo Antunes


 Nov.2013, Visão

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Uma Homenagem a Manuel de Oliveira no dia do seu 105º aniversário: O Pintor e a Cidade (Manoel de Oliveira, 1956)


O filme “O Pintor e a Cidade” é um dos mais belos documentários sobre o Porto, um dos primeiros  filmes de Manuel de Oliveira e, também, um dos primeiros filmes a cores em Portugal.
Do Youtube retirámos os seguintes dados sobre o filme:

“Estreado em 1956 no São Luíz e no Alvalade, em Lisboa. Teve o aplauso unânime da crítica. Aplauso que se repetiu em Paris e em Veneza e que lhe valeu, em 1957, o primeiro prémio internacional da sua carreira, a Harpa de Ouro do Festival de Cork, na Irlanda. Recebeu, também, o Prémio SNI para a Melhor Fotografia.

"Em 1955 fui à Alemanha. Havia já um curso sobre a côr, que me começou a interessar muitíssimo. Fiz um curso na Agfa, curso intensivo sobre a côr durante um mês. Depois fui a Munique ver as máquinas, e embrenhei-me outra vez. Arranjei uma máquina e comecei pelo Pintor e a Cidade que foi o meu primeiro filme a côr e um dos primeiros filmes portugueses a côr.

“Fiz O Pintor contra O Douro. Enquanto O Douro é um filme de montagem, O Pintor é um filme de êxtases.

“Eu descobri no Pintor e a Cidade que o tempo é um elemento muito importante. A imagem rápida tem um efeito, mas a imagem quando persiste ganha outra forma.

“O Pintor e a Cidade é uma obra fundamental na minha carreira, na mudança da minha reflexão sobre o cinema.

“É a primeira vez que eu volto as costas a um cinema de montagem".

Manoel de Oliveira, in entrevista com João Bénard da Costa, 1989


"Produção independente que, por um lado, retoma o espírito pioneiro e vanguardista do Douro, é, em termos narrativos e estilísticos, uma ruptura total com o que ficou para trás.(...) Mais precisamente, o que se trata aqui é de parar e reflectir sobre o cinema e os seus materiais, de decompor imagens (imagens da cidade e imagens de um outro olhar sobre essa cidade), separá-las entre si e dos sons respectivos, e repensar de origem para que serve isso de juntá-los de novo, com que sentido, com que objectivo.(...) ligando isto ao tema - o que se trata é de reflectir transparentemente uma das ideias essenciais de todo o cinema de Oliveira: a ideia de desdobramento, o sucessivo desdobramento de olhares que o acto de filmar (e de ver um filme) representa.

“...Aqui, o emprego do som é revelador, na medida em que é o som que conta essas relações, a história dessas relações. (No O Pintor e a Cidade o som é como que a "ficção").(...) É o som que "puxa" essa entrada sucessiva da sua imagem para o real fílmico. É o som que a liga, que a faz cumprir uma função.

“...A arte como veículo intermediário, não como ponte "entre o autor e o mundo", mas como lugar de concentração/irradiação de olhares e intenções, como espelho que reflecte em todas as direcções, eis o que nos parece a essência de O Pintor e a Cidade".
José Manuel Costa, in Folhas da Cinemateca Portuguesa, 1988"

in amordeperdicao.pt

Título original: O Pintor e a Cidade
Origem: Portugal
Duração: 27 min.
Local de Estreia: São Luís (Lisboa) - 27 de Novembro 1956
Realização: Manoel de Oliveira
Argumento: Manoel de Oliveira
Dir. Fotografia: Manoel de Oliveira
Montagem: Manoel de Oliveira
Dir. Som:Alfredo Pimentel
Sonoplastia: Heliodoro Pires
Música: Luís Rodrigues, Rebelo Bonito, Ino Sanvini
Canções: Orfeão do Porto; Madrigalistas
Produtor: Manoel de Oliveira
Lab. Imagem: Tóbis Portuguesa
Distribuição: Doperfilme

negativo: 35 mm

Morreu o artista plástico Nadir Afonso.

Ainda Há Portugueses Dignos: José António Pinto deixou medalha de ouro no Parlamento em sinal de protesto

Aconteceu ontem no Parlamento e apenas mereceu destaque na Antena 1 e nalguma imprensa escrita (as televisões, como é seu hábito, nem se deram ao trabalho de destacar o facto, como ele merecia).

José António Pinto, assistente social do Porto, que se deslocou ao Parlamento para ser medalhado, em reconhecimento pelo seu trabalho junto dos mais desfavorecidos, no Dia dos Direitos do Homem, recusou a medalha, aproveitando a ocasião para manifestar a sua indignação pela situação no país:

"Deixo ficar esta medalha no Parlamento se os senhores deputados me prometerem que, futuramente, as leis aprovadas nesta casa não vão causar mais estragos na vida daqueles que, por terem deixado de dar lucro, são hoje considerados descartáveis»

(...)

"Quero emprego com direitos para criar riqueza, quero que a dignidade do homem seja mais valorizada do que os mercados, quero que o interesse coletivo e o bem comum tenham mais força do que os interesses de meia dúzia de privilegiados".

Podem ver a reportagem em baixo, da autoria da jornalista Maria Flor Pedroso,retirada do Jornal de Notícias on-line, bem como a reportagem rádiofónica da Antena 1, da autoria da mesma jornalista, e ainda a opinião do blogue "Um Jeito Manso":



"José António Pinto deixou medalha de ouro no Parlamento em sinal de protesto


10 Dez, 2013, 14:35 / atualizado em 10 Dez, 2013, 14:39


"José António Pinto deixou esta tarde na Assembleia da República a medalha de ouro comemorativa do 50º aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos, que lhe tinha sido entregue como reconhecimento pelo seu trabalho no Porto. O assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã afirmou que trocava a medalha por outro modelo de desenvolvimento económico.

"A sala irrompeu em palmas e ainda ouviu José António Pinto instar os governantes a estancarem “imediatamente este processo de retrocesso civilizacional que ilumina palácios, mas ao mesmo tempo deixa pessoas a dormir na rua”.


“Não quero medalhas, quero que os cidadãos deste país protestem livremente e de forma digna dentro desta casa e quando reivindicam os seus direitos por uma vida melhor não sejam expulsos pela polícia destas galerias”, acrescentou.

"Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Parlamento distinguiu também Farid Walizadeh com a medalha de ouro comemorativa do 50º aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. O jovem refugiado afegão de 16 anos está em Portugal desde janeiro e já é campeão nacional de boxe. 

"O Prémio Direitos Humanos 2013 foi entregue à Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social (Fenacerci) pela defesa dos interesses e direitos das pessoas com deficiência e pela sensibilização da opinião pública em relação a este tema.

(com Sandra Henriques)


ou AQUI.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mandela para Sempre!


São raros os líderes políticos que podem ser recordados como Mandela, conseguindo reunir um consenso unanime de pesar à sua volta.

Na minha vida apenas me recordo de outros dois nomes capazes de ombrear com Mandela: Gandhi e Martin Luther King.

A forma como outros políticos e governos se posicionaram em relação a figuras como essas, nos momentos cruciais e não à posteriori, revelam a diferença entre os grandes políticos e as figurinhas liliputianas que governam o mundo actual, como são os tristes casos "locais" de Cavaco Silva ou Durão Barroso.

Hoje todos querem colar-se á figura de Mandela, mas nenhum deles soube revelar-se diferente e inovador nas horas decisivas e essas são as verdadeiras marcas das suas atitudes políticas.

Nenhum desses liliputianos políticos teria sequer chegado aos calcanhares do nossos Aristides de Sousa Mendes, quanto mais à de um Mandela!!!

Voltando ao que interessa, Mandela deu-nos uma grande lição de luta e humildade, mostrando que é possível lutar por um ideal sem o trair e sem esquecer o essencial de qualquer luta justa que é a de defender a liberdade, mesmo a dos nossos “inimigos”. Como Mandela sempre defendeu “podemos perdoar, mas não podemos esquecer”.

Hoje a África do Sul ainda não é o país justo que Mandela almejava, mas sem a tolerância e a liberdade que ele colocou como ponto de partida, mas nunca com ponto de chegada, tudo teria sido muito pior e irreversível.

Mandela deu uma grande lição, em primeiro lugar aos regimes ditatoriais e corruptos que continuam a proliferar no continente africano, mas também às atitudes cobardes e titubeantes de muitos líderes “democráticos” e ocidentais, que tudo fizeram para, no mínimo, não beliscar o regime do apartheid.

Mandela não foi um deus, sempre assumiu as suas fraquezas humanas, mas esteve muito próximo do conceito grego de “herói”, isto é, um humano, com todos os seus defeitos, que se coloca ao nível dos deuses.

Muitos daqueles que agora, hipocritamente, o homenageiam, só vão conseguir, quanto muito, preencher uma pequena  nota de rodapé nos anais da história da humanidade, ofuscados por figuras como Mandela, que eles, diga-se em abono da verdade, nunca  compreenderam.

Num mundo, com destaque para a Europa, onde dominam na política pequenas figurinhas liliputianas, sem um rasgo de imaginação nem respeito pelos desejos dos seus povos, Mandela é, cada vez mais, uma figura de referência e uma esperança para os que acreditam  num mundo possível, mais justo e mais humano.

Vamos esperar muitas décadas até que ao mundo se revela outra figura como Mandela.
É por isso que a existência de Mandela nos vai fazer muita falta.

Foi um privilégio ter partilhado uma época onde vivemos com Mandela.

Até sempre Nelson Mandela!!

Ao minuto: “Longa vida ao espírito de Nelson Mandela” - PÚBLICO(clicar para acompanhar a cerimonia de homenagem a Mandela).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

OBRIGADO, TRIBUNAL CONSTITUCIONAL : INE confirma crescimento de 0,2% no terceiro trimestre .

Daqui enviamos um  agradecimento especial ao Tribunal Constitucional.

Ao decidir impedir os cortes nos subsídios, contribuiu para que a economia portuguesa não se afundasse ainda mais e para que houvesse crescimento no terceiro trimestre.

Infelizmente o governo, a troika e a Comissão Europeia ainda não perceberam isso e impõe um novo orçamento para 2014 que vai ser desastroso para a economia portuguesa.

Por isso, esta boa notícia vai ser "sol de pouca dura", graças à incompetência e cegueira daquele trio.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Morreu Nelson Mandela

Foi um privilégio viver na mesma época de Nelson Mandela.
(Podem acompanhar AQUI um site sul-africano de tributo a Mandela).