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terça-feira, 7 de outubro de 2014

CRATO, PASSOS e C& ...E ninguém os "chuta" p'ra longe?


Sou defensor de que um governo legitimamente eleito deve cumprir o mandato para o qual foi eleito, por muito que ele nos desagrade, e raramente alinho, nas manifestações onde participo, na palavra de ordem, recorrente nesses “eventos”, onde se grita “Governo para a Rua!”.

Sim, eu sei que não existe vergonha entre a nossa classe política, que engaveta constantemente as promessas feitas no passado que mente descaradamente durante as campanhas eleitorais e que usa a política para tratar dos negócios próprios ou dos que lhe são próximos, atitudes tomadas quando chegam ao governo e que os deslegitimam rápidamente. Mas com essa realidade até podíamos ir lidando e o país lá ia funcionado.

Contudo, desta vez, tenho de reconhecer, a arrogância e a mentira incompetentes desta gente que nos governa está a ir longe de mais, e, para salvar o país e a dignidade dos portugueses, está na hora de deixar o país e os portugueses em paz.

A “barracada” do início do ano lectivo é bem o retracto da incompetência dos “meninos do coro” que tomaram conta do governo deste país sob a liderança do intragável Passos Coelho e a bênção de um Presidente da República (República?...só se for das bananas!!!)  meio apatetado.

Como escreve hoje João Miguel Tavares no Público “é inadmissível ter um governo que exige tanto aos portugueses e tão pouco a si próprio”.

Mas se a desgraça se ficasse pela educação!!!?  … a desgraça é generalizada…depois de três anos a empobrecer os portugueses e a mandar para a emigração os jovens mais qualificados, o governo tem andado entretido nos últimos tempos a gerar a maior bagunça na justiça e na saúde.

Ou seja, a bagunça afinal não é incompetência, é mesmo um programa político de desmantelamento do “estado social”.

Perante a bagunça, especialmente notória na educação e na justiça, para além do obscuro caso da Tecnoforma que mancha a imagem de “incorruptibilidade” que o primeiro-ministro tentou vender, e, com a ausência em parte “incerta” do vice-primeiro-ministro Paulo Portas (em passeios semanais pelo mundo, acompanhado por vastas comitivas pagas pelo contribuinte), só restaria a um Presidente da República, digno do cargo que ocupa, despedir esta gente com justa causa. Já houve governos despedidos por menos…mas isso foi no tempo em que existiam presidentes da república dignos do cargo.

Só que acontece, para desgraça de todos nós, que este governo foi apadrinhado, desde o primeiro dia por um Presidente da República que acha que  “não tem dúvidas e raramente se engana” .

Encarar de frente a bagunça em que esta gente lançou o país e os portugueses seria reconhecer que ter dúvidas não é um defeito e que se enganou, e bem, em apadrinhar esta trupe. Mas isso não está ao alcance de uma cabecinha como a do sr. Silva, incapaz de ver para além do espelho que lhe colocam à frente.


Ou seja, para desgraça de todos nós, vamos ter de aturar esta gente e a sua arrogância incompetente durante mais um ano....!!!

....mas, ao menos ponham o Crato a "andar"...não é pedir muito!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Portugal, o tal país que "está melhor", foi o país que mais desinvestiu na Educação

A triste notícia vem hoje publicada no Jornal de Negócios : Portugal é o país da União Europeia que mais desinvestiu na Educação.

A notícia sai no mesmo dia em que se sabe que 17% dos jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos, não estudam, nem trabalham, o país da OCDE a apresentar o pior resultado neste domínio.

Se acrescentarmos a tudo isto,  a permanente humilhação dos professores ( redução salarial  de mais 16%, precaridade profissional, provas de acesso disparatadas...), o grande aumento de desemprego entre os professores, a campanha negra contra a escola pública, o encerramento de escolas,  a emigração em massa de jovens qualificados (qualificação paga pelos portugueses...) , percebemos qual é o tal país que "está melhor" idealizado por esta gente inqualificável que nos tem governado na última década, não só por cá, mas também na União Europeia!!!

terça-feira, 22 de julho de 2014

O DIA DE HUMILHAR PROFESSORES...


A história repete-se, a primeira vez com tragédia, a segunda como comédia.

O ataque aos professores e à sua dignidade começou com Maria de Lurdes Rodrigues e foi...uma tragédia.

Agora repetiu-se, mas sob a forma de comédia, com o inenarrável Nuno Crato, rei do cinismo nacional e descarado ministro da educação (???) e ciência (???).

Ao menos Maria de Lurdes tinha um projecto, gostasse-se ou não dele, e tinha conhecimentos sobre o assunto,mesmo que fizesse destes, quanto a nós, um uso incorrecto e tendencioso.

Nuno Crato é a suprema ignorância, um mero executor das políticas de austeridade aplicadas à educação, competente em ver-nos a todos como simples números embrulhados em cálculos matemáticos.

A cereja em cima do bolo da sua inqualificável "política educativa" está no modo com convocou os professores mais novos para o exame deste dia, um exame também ele inqualificável e que tem como único objectivo humilhar os professores.

Em homenagem aos meus jovens ex-colegas, aqui deixo a última crónica de Pacheco Pereira sobre o tema, que arruma o tema (e Nuno Crato) com a mestria de um pensador atento e informado:

"Voltamos à moralidade ou à falta dela

por JOSÉ PACHECO PEREIRA in Público de 19/07/2014 

"Voltar a falar de moralidade é algo que só faço com imensa relutância. A palavra e a coisa são tão ambíguas e prestam-se a tantas manipulações, que a probabilidade de sair asneira ao usá-la é grande. Por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia.

"O ponto de vista realista, ou, se se quiser, cínico, pode ser pedagógico em política, quando esta está cheia de falsos moralismos, densa de presunção moral. Já houve alturas em que foi assim e ocasionalmente, nalguns momentos e eventos, é assim. Nessas alturas faz bem lembrar que a natureza humana é como é, e pode-se ser um carácter duvidoso a título pessoal e ser-se um bom político, que sirva a comunidade e o bem comum. Churchill serve de exemplo, ou Lincoln. Parece chocante, mas a moralidade pessoal é um terreno pantanoso em que é mais fácil entrar do que sair e o julgamento da moralidade alheia, quase sempre hipócrita, tem a notável tendência de funcionar como boomerang. É por isso que só com pinças.

"Mas no tempo em que vivemos não é o moralismo o risco, dada a natureza dos nossos governantes que cresceram numa cultura amoral e de “eficácia”. Por isso é preciso o contrário, chamar a moralidade para a praça pública, porque há coisas que são inaceitáveis numa democracia que desejamos minimamente decente. Já não digo sequer decente, mas minimamente decente. E têm a ver com a moral porque atingem a verdade, a recta intenção, o objectivo do bem comum, o respeito pela dignidade das pessoas e são actos de maldade, de mau carácter, muitas vezes disfarçados de espertezas e habilidades.

"O exercício desta imoralidade activa na governação impregna toda a vida pública de maus exemplos, de salve-se quem puder, de apatia ou revolta, de depressão ou violência. Torna Portugal um país doente e um país pior, promove os habilidosos sem escrúpulos e afronta os homens comuns, insisto, minimamente decentes, que não querem o mal para ninguém, desde que os deixem sossegados e sem afronta. É isso que provoca a institucionalização do dolo, do engano, a construção de políticas destinadas a tramar portugueses, umas vezes muitos e outras vezes poucos, sem qualquer vergonha por parte dos seus executantes. E aí eu nasço redivivo como um moralista agressivo, e falo cem vezes do mesmo, sem descanso. Não gosto, mas falo.

"A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.

"Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito.

"Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação.


"Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência".

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Crónica de Rui Tavares : "Atacaram o Portugal futuro"

Rui Tavares fala nos cortes à investigação científica em Portugal, na sua crónica de ontem no jornal "Público".

Para Rui Tavres esses cortes enquadram-se perfeitamente no espírito deste governo, um governo que "está a deixar obra para lá do seu mandato" e que não "quer só destruir o país agora: Quer deixá-lo sem possibilidades de se reconstruir depois", sendo esta "a diferença entre um governo de incompetentes e um governo de fanáticos". E acrescenta : "que jeito nos dava agora um governo que fosse só de incompetentes".

Acrescenta o deputado do parlamento europeu que uma "das poucas coisas que se poderiam atravessar no caminho da estratégia do governo seria a possibilidade de uma economia portuguesa mais especializada, produzindo mais valor, fixando mais conhecimento e exportando melhor. Não é isso que o governo quer (...). O governo quer o contrário disso: o governo quer uma economia de baixos salários, comprimidos pelo desemprego alto, e produzindo barato para exportar mais (mas não melhor), um país a meio-gás para recursos a meio-gás".

Vale a pena ler a crónica integralmente, que reproduzimos em baixo:

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Respigo da Semana : José Vítor Malheiros : "Pôr o sistema científico ao serviço da política da direita":

Pôr o sistema científico ao serviço da política da direita

por José Vítor Malheiros
In Público de 21/01/2014

“A FCT decidiu dar uma mãozinha à política de emigração qualificada lançada por Passos Coelho.
“Foram conhecidos há dias os resultados dos concursos de bolsas individuais para doutoramento e pós-doutoramentos atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), organismo responsável pela coordenação e pelo financiamento da investigação em Portugal. De 3416 candidatos a doutoramento, só 298 conquistaram a bolsa. E de 2305 candidatos a pós-doutoramentos, só 233 irão receber bolsa.

“Há outros canais de financiamento na FCT mas, mesmo considerando esses, o corte havido de 2012 para 2013 é de 40% nas bolsas de doutoramento e de 65% nas bolsas de pós-doutoramento.
“A primeira constatação é o reduzido número de bolsas individuais atribuídas, em valor absoluto. Em termos numéricos, recuámos em 2014 para o ano de 1994, depois de muitos anos a investir na formação de recursos humanos altamente qualificados.

“A segunda coisa que salta aos olhos é aquele fosso escancarado entre o número de candidatos e o de bolsas atribuídas. O que farão aqueles cinco mil candidatos sem bolsa? Irão dar aulas nas universidades? Não, porque as universidades não podem contratar. Irão dar aulas nos liceus? Não, porque o Governo está a despedir professores. Irão trabalhar para o Estado? Não, porque o Governo está a despedir quadros técnicos superiores. E o que irão fazer os dois mil doutorados sem bolsa? Investigação nas empresas? Pouco provável, no actual contexto de desinvestimento. O mais provável é que a maior parte deles faça o que Passos Coelho quer que os jovens altamente qualificados façam: que emigrem. Este país não é para eles. O modelo de empobrecimento e de mão-de-obra barata que o PSD e o CDS estão a aplicar a Portugal não tem lugar para eles. Os investigadores são um empecilho para este modelo económico e a FCT decidiu dar uma ajudinha.

“Miguel Seabra, presidente da FCT, disse, numa entrevista a este jornal, que “o que há é uma crescente competitividade”, a que os bolseiros não estavam habituados até aqui. A sugestão é que desta vez o crivo só estaria a deixar passar os realmente bons enquanto antes seria uma rebaldaria. É falso, como se prova pela quantidade de candidatos recusados que encontram lugar nas melhores universidades do mundo. É falso, como se vê pela qualidade dos doutorados dos últimos anos, com uma produção de excelência e com projectos financiados pelas mais exigentes organizações. Mas nada disso importa quando se trata de uma guerra de propaganda ideológica. O que é verdade é que o país continua muito longe dos níveis de investimento e recursos humanos em investigação dos países mais desenvolvidos, apesar do grande progresso feito, e a travagem agora feita nos vai atrasar durante anos.

“As declarações de Miguel Seabra sobre o facto são, aliás, uma barragem de desinformação: garante que “não há um desinvestimento na ciência” mesmo quando é confrontado com o facto de o investimento em investigação em percentagem do PIB descer num contexto de encolhimento do próprio PIB; perante as dotações minguantes do Orçamento do Estado para a investigação diz que a FCT tem vindo a “injectar mais dinheiro no sistema” de ano para ano; diz que o financiamento às unidades de investigação “subiu 30 e tal por cento em 2013” mas não consegue explicar para onde foi o dinheiro quando as mesmas unidades se queixam de estar a receber menos; explica que “há um trabalho enorme a fazer com as empresas” mas recusa-se a discutir a investigação nas empresas porque não conhece “com grande detalhe esses números globais”; desvaloriza o número de cientistas que saíram do país dizendo que “emigração científica há desde há 25 anos” mas diz que os números que tem, que não sabe se são fiáveis, apontam para “surpreendentemente poucos” investigadores a deixar o país. Não é uma entrevista, é um festival de chicuelinas, de esquivas e nuvens de fumo. E Miguel Seabra tem a audácia de embrulhar estas trapalhadas num discurso em que não hesita em falar de “excelência”.

“Sabemos que a FCT é objecto de críticas recorrentes devido aos seus atrasos sistemáticos, à existência de regras pouco claras, ao facto de não cumprir as regras que ela própria define e de manter assim a investigação nacional num clima de permanente instabilidade. Quanto à “excelência” dos critérios usados pela FCT, basta referir as críticas que mereceu a recente nomeação dos membros do Conselho Científico das Ciências Sociais e das Humanidades — onde uma mão misteriosa incluiu mesmo a mulher do ministro Nuno Crato, cujo currículo e filiação institucional são considerados pelo menos desajustados — para ficarmos com uma ideia de onde acaba a exigência académica e onde começa o servilismo político.


“Mas é preciso lembrar a FCT e o seu presidente de que a FCT é um organismo da Administração Pública, que gere dinheiros públicos e que deve dar conta da sua gestão de forma cabal, tempestiva e total. A falta de dinheiro pode justificar cortes, mas não justifica a opacidade dos critérios dos cortes, nem a falta de resposta a perguntas sobre os cortes e os gastos. E muito menos a inexistência de uma estratégia que tenha em conta o interesse nacional”.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O QUE SE “APRENDE” NUMA UNIVERSIDADE DE VERÃO: “Já alguém perguntou aos 900 mil desempregados de que lhe valeu a Constituição até hoje?” (intervenção do “Professor Doutor” Passos Coelho).



(FONTE: CORVOMANIA)

Para mim, “Universidade” quer dizer universalismo do conhecimento, do saber, da inovação, da tolerância, do debate de ideias e da experiência. Tudo o contrário do que se passa nas chamadas “Universidades” de verão dos Partidos do “arco do poder”.

A fazer fé naquilo que nos foi dado a ler, ouvir e ver pela comunicação social, as tais “Universidades” de Verão não passam de meras acções de lavagem ao cérebro e de propaganda política, onde se debitam as maiores enormidades, no tom mais descontraidamente boçal deste mundo, sobre a política nacional, os adversários políticos e a economia.

Essas “Universidades” de Verão são o fiel retrato da actual geração de políticos que nos governam. 

Para eles a frequência universitária não interessa para adquirir conhecimento e abertura de espírito, mas apenas para adquirir um diploma que lhe dê direito ao título de “SR. Doutor” abrindo assim portas para os negócios do poder, frequentando, se for necessário cursos da “treta” ou obtendo classificações duvidosas, como já é do conhecimento público em relação a alguns políticos. 

Por isso promovem  a mediocridade das “Universidades de Verão” onde os jotazinhos podem fazer o tirocínio de iniciação à carreira política. Para essa gente vai-lhes valer mais no futuro o certificado obtido nessas “Universidades” do que um qualquer doutoramento numa verdadeira e prestigiada Universidade.

A pérola dos “ensinamentos” que se transmitem nessas “Universidades” é a frase em cima citada, da autoria do actual Primeiro-Ministro, um bom exemplo da demagogia e da falta de ética democrática que vigora nesses sítios, sendo absurda pelo modo com mistura alhos com bugalhos , ainda por cima dita pelo responsável máximo pelas políticas que têm potenciado o desemprego em Portugal.

Chamar de “Universidade” a esses “cursos” de propaganda político-partidária é bem revelador do espírito pato-bravista e de novo-riquismo que domina a mentalidade das actuais elites políticas, com o resultado que está à vista.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Num Dia De Greve, com a ironia de Alice Vieira:



“DECLARACÃO ANTIGREVE:

“Eu,.............................................. , NIF . ..........................., Trabalhador/a da empresa.................................................,

“DECLARO:

“QUE estou absolutamente contra qualquer coação que limite a minha liberdade de trabalhar.

“QUE, por isso, estou contra as greves, piquetes sindicais e qualquer tipo de violência que me impeçam a livre deslocação e acesso ao meu posto de trabalho.

“QUE por um exercício de coerência com esta postura, e como mostra da minha total rejeição às violações dessas liberdades,

“EXIJO:

“1 º. QUE me seja retirado o benefício das 8 horas de trabalho diário, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a jornada de 15 horas diárias em vigor antes da injusta obtenção deste benefício.

“2 º. QUE me seja retirado o benefício dos dias de descanso semanal, dado que este beneficio foi obtido, por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso de domingo a domingo.

“3 º. QUE me seja retirado o benefício das férias, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso os 365 dias do ano.

“4 º. QUE me seja retirado o benefício dos Subsídios de Férias e de Natal, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de receber apenas 12 salários por ano.

“5 º. QUE me sejam retirados os benefícios de Licença de Maternidade, Subsídio de Casamento, Subsídio de Funeral dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência, e me seja a plicada a obrigação de trabalhar sem usufruir destes direitos.

“6 º. QUE me seja retirado o benefício de Baixa Médica por doença, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar mesmo que esteja gravemente doente.

“7 º. QUE me seja retirado o direito ao Subsídio de Baixa Médica e de Desemprego, dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência. Eu pagarei por qualquer assistência médica e pouparei para quando estiver desempregado/a.

“8 º. E, em geral, me sejam retirados todos os benefícios obtidos por meio de greves, piquetes e violência que não estejam contemplados por escrito.

“9 º. DECLARO, também, que renuncio de maneira expressa, completa e permanente a qualquer benefício actual ou futuro que se consiga por meio da greve do dia 17 de Junho de 2013”.

Alice Vieira

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Uma Campanha Ignóbil - a opinião de Maria do Rosário Gama sobre algumas opiniões sobre a Greve dos Professores.



UMA CAMPANHA IGNÓBIL
por Maria do Rosário Gama
In Público de 13 de Junho de 2013

Considero ignóbil a convocação de uma greve de professores para o primeiro dia de exames nacionais. É como se os médicos decidissem fazer greves às urgências hospitalares. Incompreensível, indigno, inaceitável.”
Francisco Assis, Público (23.05.2013)

“É triste. E é sempre assim quando uma greve é convocada. Muito poucos são os que conhecem os motivos da greve e se dão ao trabalho de considerar se esses motivos são ou não justificáveis. Tudo quanto lhes parece interessar é o transtorno que causam. E se se pergunta qual poderia ser uma alternativa a esta forma de luta, percebe-se que apenas admitiriam uma que não causasse transtornos a ninguém, ou pelo menos não a si próprios. De facto, o que esta atitude revela é um mecanismo atávico, herdado dos tempos da ditadura, de rejeição do direito à greve.
“O tecido social parece mais um mosaico de interesses estanques, do que um povo unido por laços de solidariedade e partilhando uma história e destino comuns. E é neste mosaico de interesses que o (des)governo encontra o terreno fértil para semear a cizânia, cavar divisões e tirar delas partido.

“A greve de professores que agora se inicia e que, tudo indica, conduzirá a uma greve aos exames, é uma espécie de “remake” da greve de 2005 e contra ela, como então, está a ser movida uma campanha ignóbil em que se apresentam concertados o Presidente da República, o Governo, o Ministro da tutela, os já habituais campeões da “moderação” no campo da oposição (ei-lo, o almejado consenso, conseguido à custa dos professores) as associações de pais e os “opinion makers”.

“A encenação montada apresenta os professores como facínoras capazes de comprometer o futuro dos alunos. O próprio ministro afirma que estas foram feitas reféns pelos professores, como se de terroristas se tratasse. Alguém acredita realmente que os alunos perderão o ano? É evidente que não. Mas convém fingir que sim. O futuro da escola pública parece não suscitar preocupação. Mas que possam ter que adiar as férias por uma meia dúzia de dias, isso sim. Não que o admitam. Ele é a possibilidade de um ano perdido (e de chegarem atrasados ao desemprego), a instabilidade dos alunos, a repercussão nos resultados. Só quem não conhece o Ensino podia acreditar na seriedade destes argumentos.

“No fundo, todos os argumentos se reduzem a dois, por muito mascarados que se apresentem. Ou se trata de apoio à política do (des)governo ou da defesa de interesses particulares. Alguns alegam que apoiam os professores, mas não esta greve aos exames. Não se percebe, claro, que a mesma preocupação se não manifeste quando os alunos, por motivos idênticos, perdem aulas, tempos de trabalho e de estudo. Enquanto o adiamento de uma prova provoque um tal alarido. Hipocrisia, claro. Porque se apoiassem os professores pressionariam o Governo a negociar com eles.

“A verdade é que o futuro duma escola pública de qualidade, e a dignificação da profissão docente que é sua condição, não parece mobilizar ninguém. Giga-agrupamentos que podem representar algumas magras poupanças mas grandes prejuízos pedagógicos? Turmas a abarrotar? Professores a dar mais aulas do que as que podem preparar com seriedade e tendo que corrigir mais trabalhos do que os que podem comentar adequadamente? Precariedade dos postos de trabalho? Instabilidade dos corpos docentes? Alterações curriculares que visam exclusivamente a dispensa de professores? Nada disto preocupa os indignados, com o Ministro a acusar os professores de fazerem dos alunos reféns, como se de terroristas se tratasse. E variantes desta atoarda multiplicam-se, vindas de todos os quadrantes.

“Ninguém parece ter em conta que sem professores motivados não será possível assegurar uma escola pública de qualidade. Quem quer que tenha um real conhecimento do ensino, sabe que um professor sério, com 4 turmas, 100 alunos, trabalha muito, mas muito mais que 40 horas por semana. De borla! Toda a vida! E a maioria tem 5 ou 6 turmas, mais de 150 alunos! Mas não chega. Baixam os salários, cortam subsídios, aumentam o número de horas e, sobretudo, é preciso despedir mais e obrigar os novos escravos pedagogos (gozando, porém, de prestígio e estatuto bem inferiores ao dos seus antepassados) trabalharem mais e mais para substituir os que forem mandados para as minas (os que tiverem sorte).

“Não há dinheiro! E quando não houver educação e ensino de jeito? E professores motivados para a assegurarem? A escola pública de qualidade é que deveria ser considerada serviço mínimo e necessidade social impreterível, não a realização dos exames na data aprazada!

“Por isso, se não vos interessa a educação dos vossos filhos e netos, a qualidade do ensino que lhes é ministrado, o futuro da escola pública, o futuro do país (será que pensam que à crise é alheia a qualidade do sistema educativo?), mobilizem-se contra os professores e deixem à solta os coveiros da escola pública. E valerá a pena? Por causa de uns dias de atraso na prestação de exames? Da ida para férias uns diazitos mais tarde? Por causa de uma greve que até poderia não ter lugar, acaso todos apoiássemos os professores?

“Apesar de já reformada, não me posso demitir da obrigação de expressar aos professores a minha solidariedade. A luta deles contra o (des)governo é também a nossa, dos reformados, bem como a dos jovens sem futuro, dos desempregados, dos trabalhadores da administração pública e de todos cuja confiança e segurança estão a ser destruídas.

Maria do Rosário Gama
Professora Aposentada

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Respigo da Semana: "Os três pastorinhos e a greve dos professores"...





Os três pastorinhos e a greve dos professores

in Público, 5 de Junho de 2013

por Santana Castilho *

“ Depois do presidente Cavaco, que não é palhaço como sugeriu Miguel Sousa Tavares, ter atribuído à Nossa Senhora de Fátima a inspiração da trindade que nos tutela para fechar a sétima avaliação, vieram três pastorinhos (Marques Mendes, Portas e Crato) pregar no altar do cinismo, a propósito da greve dos professores: “ … marcar uma greve para coincidir com o tempo dos exames nacionais … não é um direito … é quase criminoso … é uma falta de respeito … ” (Marques Mendes); “… se as greves forem marcadas para os dias dos exames, prejudicam o esforço dos alunos, inquietam as famílias …” (Portas); “… lamentamos que essa greve tenha sido declarada de forma a potencialmente criar problemas aos nossos jovens, na altura dos exames …” (Crato). Marques Mendes “redunda” quando afirma que a greve é um direito constitucional. Mas depois qualifica-a de abuso e falta de respeito. Que propõe? Que se ressuscite o papel selado para que Mário Nogueira e Dias da Silva requeiram ao amanuense Passos a indicação da data que mais convém à troika? Conhecerá Portas greves com cores de arco-íris, acetinadas, que sejam cómodas para todos? Que pretenderia Crato? Que os professores marcassem a greve às aulas que estão a terminar? Ou preferia o 10 de Junho? A candura destes pastorinhos comove-me. Sem jeito para sacristão, chega-me a decência mínima para lhes explicar o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho. 

“Porque se sentem governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção. 

“ Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentem alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam.

“Porque têm mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público. 

“Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio. 

“Porque rejeitam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes. 

“Porque foram expedientes perversos de reorganização curricular, de aumento do número de alunos por turma e de cálculo de trabalho semanal que geraram os propalados horários-zero, que não a diminuição da natalidade, suficientemente compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela diminuição da taxa de abandono escolar. 

“ Porque a dignidade que reivindicam para si próprios é a mesma que reclamam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados.

“Porque sabem que a tragédia presente de professores despedidos será o desastre futuro dos estudantes e do país. 

“Porque a disputa por que agora se expõem defende a sociedade civilizada, as famílias e os jovens. 

“Rejeito a modéstia falsa para afirmar que poucos como eu terão acompanhado o evoluir das políticas de educação dos últimos tempos. Outorgo-me por isso autoridade para afirmar que é irrecuperável a desarmonia entre Governo e professores. A confiança, esse valor supremo da convivência entre a sociedade civil e o Estado, foi definitivamente ferido de morte quando a incultura, a falta de maturidade política e o fundamentalismo ideológico de Passos, Gaspar e Crato trouxeram os problemas para o campo da agressão selvagem. Estes três agentes da barbárie financeira vigente confundiram a legitimidade eleitoral, que o PSD ganhou nas urnas, com a legitimidade para exercer o poder, que o Governo perdeu quando escolheu servir estrangeiros e renegar os portugueses e a sua Constituição. Com muitos acidentes de percurso, é certo, a Nação cimentada pela gestão solidária de princípios e valores de Abril está a ser posta em causa por garotos lampeiros, apostados em recuperar castas e servidões. Alguém lhes tem que dizer que a educação, além de direito fundamental, é instrumento de exercício de soberania. Alguém lhes tem que dizer que princípios que o Ocidente levou séculos a desenvolver não se podem dissolver na gestão incompetente do orçamento. Alguém lhes tem que dizer que o desemprego e a fome não são estigmas constitucionais. Que sejam os professores, que no passado se souberam entender por coisas bem menores do que aquelas que hoje os ameaçam, esse alguém. Alguém suficientemente clarividente para vencer medos e comodismos, relevar disputas faccionárias recentes, pôr ombro a ombro contratados com “efectivos”, velhos com novos, os “a despedir” com os já despedidos. Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos”. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)