quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os patriotas estão em Barcelona, os nacionalistas em Madrid


Dizem que o General De Gaulle afirmou um dia que o “patriotismo é quando o amor pelo seu próprio povo vem primeiro e o nacionalismo, quando o ódio pelos demais povos vem primeiro”.
Li algures que essa frase não pertencia a De Gaulle, que a citou o adaptou doutro autor que não consegui identificar. Mas o que interessa é o seu conteúdo, que distingue patriotismo ( e Nação, diremos nós…) de nacionalismo.

Nos dias que correm é importante distinguir o sentido dessas palavras, em vez de as tentar misturar no mesmo significado, como o fazem, por um lado os fascistas xenófobos em crescimento por essa Europa fora ( mas que, curiosamente, escondem o seu ideal fascista, consciente ou inconscientemente, atrás do seu “nacionalismo”) e por outro, todos aqueles que procuram rotular pejorativamente de “nacionalistas” todos aqueles que criticam os excessos da globalização, o “austeritarismo” das instituições Europeias e a sua politica a favor do sector financeiro (os célebres “mercados”)  contra os cidadãos europeus, metendo tudo no mesmo “saco” do “populismo” (outro conceito abusivamente utilizado por estes).

A confusão tem vindo agora a ser ainda mais acentuado pelos mesmos comentadores, jornalistas e políticos na forma como tratam a situação Catalã.

E o que confunde ainda mais essa gente é o facto de os catalães afirmarem o seu patriotismo defendendo o direito a terem uma “nação”, ao mesmo tempo que defendem o seu direito de se manterem na União Europeia, fazendo tudo de forma democrática (mas não “legalista”) e pacífica.

É ainda mais curioso ver, ao lado dos defensores da “legalidade democrática” e do “direito” da Espanha sobre as nações ibéricas, todos os fascistas e nacionalistas espanhóis, cantando os velhos hinos fascistas e desembainhando as velhas bandeiras do franquismo, marchando ao lado dos “democratas” do PP, dos “Cidadanos” ou do envergonhado PSOE, mesmo que, no domingo em Barcelona, tenham sido “aconselhados” a disfarçar esses símbolos.

E eu pergunto-me: onde está o “nacionalismo”? entre os defensores da “Espanha Una e indivisível” ou entre os defensores do direito dos Catalães a construírem a sua “pátria”?

Mas não me admiro com os que confundem tudo, pois são os mesmos que classificam toda a esquerda como “extrema-esquerda”, classificação tão absurda, no caso de Portugal (PCP e BE), da Espanha (Podemos e IU) , da França (Mélanchon) , da Grécia (Syriza) ou até da Grã-Bretanha (Corbyn) e Estados Unidos(Sanders), como o seria o de classificar o CDS ou o neoliberalismo de extrema direita.

Uma coisa é ser extremista, outra é ser radical. Existe uma esquerda que, para ser coerente com os seus valores, deve ser “radical” ( mas não intolerante, antidemocrática ou antiliberal), assim como existe uma direita radical (mas não extremista ou intolerante) no seu conservadorismo ou no seu neoliberalismo.

A confusão de conceitos foi sempre usada historicamente pelos fascistas de todas as tendências (como no pretenso “socialismo” do “nacional-socialismo” ) para melhor fazerem chegar a água ao seu moinho.

Que a mesma confusão seja alimentada por gente “democrática” e “liberal” já nos parece mais grave, como é grave que, nessa confusão alinhe alguma imprensa de referência ( em Espanha é triste ver o rumo de um jornal como o El País…).

Para desmentir todo o tipo de atoardas contra  catalães, estes têm vindo a demonstrar uma grande resiliência face a todo o tipo de provocações e atitudes intolerantes lançadas pelo governo de Madrid (com o beneplácito da coroa e o silêncio cúmplice do PSOE), revelando a sua grandeza e que, mais uma vez,  são os primeiros a saber recuar para evitar o desastre, e estender a mão aos “adversário”, colocando agora a batata quente nas mãos do intolerante Rajoy.

Saberá Rajoy (… e o rei …e o PSOE) estar à altura dos acontecimentos? Duvido.

Até aqui o “extremismo”, a “intolerância” e o “nacionalismo” tem estado do lado do PP ( …e do rei …e do silêncio cúmplice do PSOE) e o desejo de decidir democraticamente, em diálogo e com abertura,  tem estado, mesmo com erros pontuais, do lado dos catalães.

Os patriotas estão na Catalunha. Os nacionalistas em Madrid!


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