quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Catalunha como perplexidade


Não tenho opinião formada sobre a situação na Catalunha ou sobre o seu direito à Independência.

Claro que, numa perspectiva histórica e cultural, a Catalunha tem razões fortes para se considerar uma nação.

Contudo, na actual conjuntura política, quer a espanhola, quer a europeia, as razões são mais complexas e menos visíveis.

O que me deixa perplexo na actual situação não é tanto o confronto entre Madrid e Barcelona, mas a forma como esse acontecimento está a ser debatido e tratado na comunicação social, nomeadamente na portuguesa.

A primeira perplexidade prende-se com a forma como essa mesma comunicação social tem relegado para segundo plano a gravidade do que está a acontecer na Catalunha. Se o mesmo acontecesse na Venezuela ou em Angola, tenho a certeza que o destaque seria outro.

Em segundo lugar, fico perplexo pela diferença de pesos usada no debate sobre o direito à independência da Catalunha.

Os mesmo que rejubilaram, e bem, com a independência dos Estados Bálticos em relação à Rússia ou, e mal, com a desintegração da Jugoslávia, ou mudaram de posição, após o Brexit,  em relação ao mesmo direito à independência da Escócia, classificam agora  como uma ameaça a independência  da Catalunha.

Em terceiro lugar, fico perplexo pela diferença de pesos usada quando a mesma atitude antidemocrática é aplicada por Madrid contra a Catalunha ou por Maduro contra a oposição venezuelana.

O acto irresponsável e arrogante ontem desencadeado por Madrid contra as autoridades catalães não é muito diferente das atitudes que Maduro toma em Caracas ou o MPLA em Luanda.

Em quarto lugar, fico perplexo quando se justifica a atitude de Madrid de impedir um acto democrático e de livre escolha, através de um referendo, como aquele que os catalães pretendem levar a efeito no próximo dia 1 de Outubro, recorrendo ao argumento do “cumprimento da lei”.

Talvez seja bom recordar que os estados bálticos, os estados balcânicos e quase todas as nações do mundo se construíram contra a “lei” de quem os dominava.

Por outro lado, é em nome da “lei” que Maduro persegue os opositores ou, num exemplo mais extremo, foi em nome da “lei” que os nazis cometerem todas as suas atrocidades.

Num estado democrático, como é o espanhol, conflitos como este resolvem-se democraticamente, isto é, com um referendo onde os catalães possam escolher. Aliás, se como dizem os detractores da independência da Catalunha, a maior parte dos cidadãos da Catalunha não concordam com a independência, então estão com medo de quê??.

Mas Rajoy, que conduziu irresponsavelmente todo o processo, nunca parando de dar tiros no pé e de extremar posições, já demonstrou várias vezes que a democracia só existe quando serve os seus interesses ideológicos, ou não fosse ele, e o seu partido, os “legítimos” herdeiros do regime franquista…

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