quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Web Summit versus provincianismo, preconceito e jornalismo de sarjeta


Iniciativas como a Web Summit são iniciativas louváveis e prestigiantes para Portugal.

Infelizmente, a pretexto dessa relevante iniciativa, escrevem-se as maiores alarvidades, assentando, quer no preconceito ideológico, quer na desinformação, quer no mais primário provincianismo.

Foi o que aconteceu com a última crónica do “jornalista” Manuel Carvalho, no jornal Público, intitulada, significativamente, “Este país não épara novos”, na edição de 2 de Novembro de 2016.

O título já é, só por si, um tratado ideológico de desonestidade intelectual, potenciando a idéia de que a inovação e a criatividade é dos “jovens” e o tradicionalismo e o imobilismo é dos “velhos”, dando seguimento a uma idéia de que os “velhos”, impondo a “sua” “cartilha dos direitos” sociais, estão a mais na sociedade, impedindo a sua “modernização” (ouvimos muito disso a propósito do Brexit), como se a modernidade, a inovação tecnológica e a criatividade só se pudessem expandir contra os direitos sociais defendidos pelas “redes clientelares dos sindicatos ou o ensimesmamento da função pública”.

Os sindicatos, a esquerda, ( e alguma direita “rançosa”), o Estado de Direito, a Função Pública são os alvos principais da crónica, escrita a (des)propósito da louvável iniciativa do Web Summit.

Nalguns pontos o seu rancor contra o “público” revela-se até contraditório, quando fala numa “geração que fala inglês” [já não toca piano nem fala francês!!!] “e recebeu NAS UNIVERSIDADE PÚBLICAS [sublinhado nosso] um nível de formação mundial” ( e já agora, não a terá recebido também no ensino público, no básico e no secundário, para aí chegar tão bem preparada???).

Misturando preconceitos ideológicos que, de modo “freudiano”, o “jornalista” defende como uma “visão” que “será sempre facilmente torpedeada com os anátemas do neoliberalismo”, com uma visão provinciana  da inovação tecnológica, no fim do artigo pouco ficamos a saber sobre aquela importante iniciativa e essa, quanto  nós, devia ser a missão do “jornalista”.

Ao opor os “direitos” e os “sindicatos” ao significado daquela iniciativa, o articulista parece querer colar às empresa tecnológicas a imagem, para ele positiva, mas quanto a nós injusta em muitos casos, e em especial entre as empresas representadas naquela iniciativa, segundo  a qual a inovação e a criatividade  implicam e confundem-se com a precariedade no emprego, os salários baixos, o trabalho sem horários e o  torpedeamento de direitos socias.

O título e o pretexto da crónica do “jornalista” é também revelador de um certo provincianismo no modo como alguns encaram as novas tecnologias, como se substituir uma velha máquina registadora por um computador ou um balcão de comércio por uma  plataforma digital fosse, só por si, um sinal de mudança e inovação. Como se a tecnologia não fosse um simples meio ao serviço da   inovação e da criatividade e a “bondade” dessa  tecnologia não dependesse do seu uso.

Não nos surpreende essa opinião, vinda de quem vem, pois já escreveu e disse coisas do género noutras crónicas e intervenções no comentário televisivo, mas desta vez foi longe demais, misturando alhos com bugalhos, servindo-se de modo ideologicamente oportunista de uma  iniciativa louvável para lançar todo o seu rancor contra os “direitos”, os sindicatos, a Função Pública, a “esquerda” e os “velhos”, prestando um mau “serviço público” que devia ser a preocupação central de um jornalismo livre e independente.

Esperamos que esta infeliz crónica não seja um sinal de algum descalabro e desorientação que se tem notado nos últimos tempos no seio do jornal Publico desde a chegada de David Dinis à direcção do jornal (ainda hoje, na sua primeira página, se publica um título apressado e mal informado sobre a ADSE, entretanto desmontado pelo bom jornalismo que, cada vez mais, se faz na Antena 1).

…e esperamos também que apareçam notícias, feitas com rigor jornalístico, realmente esclarecedoras sobre a feliz iniciativa do Web Summit…

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