terça-feira, 8 de novembro de 2016

SAUDADES DE OBAMA


Recordo-me, desde criança, de seguir, em casa dos meus pais, com atenção e entusiasmo, as eleições norte-americanas, tomando-se partido sempre pelos democratas, embora nem sempre pelo candidato oficial.

Era a forma permitida de viver, virtualmente, como hoje se diria, a democracia, num país governado por um ditador, no seio de uma família da oposição.

Recordo-me até de, no liceu, durante os intervalos, ingenuamente, nos envolvermos em disputada gritaria pró ou contra candidatos dos longínquos e míticos Estados Unidos, por ocasião das eleições norte-americanas.

Lembro-me, especialmente, da campanha de 1972, em que os “betinhos” do Liceu gritavam por Nixon e nós, os “rebeldes” gritávamos, ingenuamente, pelo candidato democrata, McGovern.

Reconheço que a cultura americana esteve sempre presente na minha formação, através da banda desenhada (nos suplementos dominicais do Primeiro de Janeiro, primeiro, nas revistas da Disney que o meu avó me dava, depois, e, mais tarde, na irreverência da série Peanuts seguida nas páginas do Diário de Lisboa), do entusiasmo como se seguia a conquista do espaço ( ver a chegada do homem à Lua, em directo, em 1969, é uma das recordações que me acompanhará ao longo da vida), da descoberta do mundo através do cinema de Hollywood (outra noite sagrada era a da transmissão, em diferido, da entrega dos óscares), ou da descoberta da rebeldia do rock and roll (com os intervenientes de Woodstock de 1969 a dominarem) .

Mas o entusiasmo por esse lado da cultura norte-americana era contrabalançada pela crescente consciência da existência de um  lado obscuro dessa grande nação, como o assassinato dos irmão  Kennedy e de Luther King, a segregação racial, a politica internacional de apoio a ditadores (como os ibéricos) e de intervenções militares violentas, com aconteceu no Vietname, ou o reacionarismo de largos sectores das elites políticas norte-americanas.

Vem-me tudo isto à memória no dia em que se disputam umas das mais decisivas eleições presidenciais da história norte-americana, em que se confrontam dois candidatos que não oferecem grandes garantias de estabilidade num mundo cada vez mais violento e agressivo, dominado por um poder financeiro sem freio e por populismos antidemocráticos.

Ao contrário do que aconteceu com a eleição de Obama, o primeiro presidente negro eleito naquele país, o que só por si já foi uma grande vitória, que  representou uma lufada de ar fresco, uma  ruptura importante na atitude dos Estados Unidos face ao mundo, um presidente dialogante, que procurou internamente alargar a justiça social, apesar da forte oposição da geração mais retrógrada e reacionária que domina o partido republicano, que domina o Senado e o Congresso, a escolha de hoje é entre o regresso ao tradicional establishement  democrata, arrogante e corrupto, representado por Hillary, ou um presidente proto-fascista, retrógado, incompetente, internacionalmente perigoso, representado por Trump.

A escolha não é pela esperança de mudança ou melhoria, mas pelo mal menor.

O mal menor é Hillary Clinton, que, apesar de tudo, esperemos que seja o próximo presidente dos Estados Unidos.

A sua postura arrogante, o seu militarismo, a sua cedência aos lobbies financeiros e ao governo intolerante de Israel,  representam sem dúvida o regresso a um poder norte-americano que se pensava ultrapassado com Obama, mas, por ser o que conhecemos, é preferível ao aventureirismo reacionário, antidemocrático  e xenófobo de um ridículo, incompetente e perigoso Trump.

Apesar de tudo,a vitória de  Hillary pode trazer um aspecto novo, a eleição de uma mulher, o que representa uma novidade, um acontecimento que, naquele país é  mais difícil do que eleger um negro. E essa novidade pode abrir as portas, a prazo, a outra novidade, esta sim realmente entusiasmante, que é a de vermos um dia Michelle Obama na presidência.

Apesar de desejar, para bem da humanidade, a vitória de Hillary, já começo a ter saudades de Obama.

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