quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Noite de Polly Jean

PJ Harvey, regressa esta noite a Portugal para apresentar o seu mais recente trabalho, The Hope Six Demolition Project.

A artista britânica, nascida numa zona rural do sul da Inglaterra, inspirou-se para este álbum nas viagens que fez entre 2011 e 2014 ao Afeganistão e ao Kosovo, na companhia do fotojornalista irlandês Seamus Murphy,(clicar para ver trabalho do fotógrafo) viagem que terminou em Washington, local onde se tomaram as decisões que decidiram a situação de guerra vivida por aqueles dois países.

Desta viagem, para além no novo albúm de Polly Jean, resultou também o primeiro livro de poesia da cantora, The Hollow of the Hands, editado no ano passado, com a colaboração fotográfica de Seamus.
 

Harvey, além de musica de grande mérito criativo, também se dedica às artes plásticas, actividade que muito a inspira nas suas performances musicais.

Esta noite promete ser mais um memorável momento no Coliseu de Lisboa.

Em baixo transcrevemos o texto de Mário Lopes, hoje editado no jornal Público, sobre este evento:
 
PJ Harvey tem coisas muito importantes para dizer – outra vez
Por Mário Lopes   In Público de 27/10/2016
 The Hope Six Demolition Project resultou de viagens ao Afeganistão, ao Kosovo e a Washington. É um álbum negro, habitado pelos fantasmas bem vivos deste nosso tempo. Agora chega ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
“Não será um concerto de blues endiabrado e guitarra em punho a corroer o rock’n’roll. Não. Isso já foi há muito tempo e, neste tempo, não é isso que PJ Harvey persegue. Ou melhor, será um concerto de blues, mas blues arrancado às entranhas, blues enquanto retrato e denúncia. Sabemos porque vimos o que aconteceu dia 10 Junho no Nos Primavera Sound, no Porto, quando PJ Harvey assinou o concerto mais relevante, o mais negro e emocionalmente intenso do dia, com entrada directa para a história do festival. Quem o viu, ou quem ouviu os relatos do que se passou, não pode não estar ansioso pelo reencontro esta quinta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (21h, bilhetes a 40 euros).
“Cinco anos antes víramos a primeira parte desta história, quando PJ Harvey apresentou Let England Shake em duas datas esgotadas na Aula Magna, em Lisboa. Era um álbum inspirado em leituras sobre a Primeira Guerra Mundial e sobre a poesia que brotou daquele cenário. Um álbum habitado por fantasmas dolorosos e permanentes, os da guerra que tudo ceifa, das trincheiras que sufocam, da impotência do homem soldado que não passa de peão de uma máquina que não controla. Cantou-o vestindo de negro, plumas caindo-lhe sobre o rosto. “What is the glorious fruit of our land?”, perguntou em The glorious land, “Its fruit is deformed children”.
“The Hope Six Demolition Project foi o passo seguinte, o segundo tomo de um díptico (afirmamo-lo com margem para erro, dado desconhecermos se terá continuidade) que começou em terras distantes, o das trincheiras de 1914/1918, e que, depois, inspirada pelo trabalho do fotojornalista Seamus Murphy, levou PJ Harvey a perseguir a morte, a turbulência, a iniquidade das desigualdades e a impunidade de quem decide no Afeganistão, no Kosovo e em Washington – o título do álbum é uma referência a um programa federal americano de revitalização de bairros sociais problemáticos.
“No Nos Primavera Sound vimos um palco onde o negro imperava, onde a luz era trabalhada para que se destacassem mais as sombras dos músicos do que os seus corpos. As vozes graves uniam-se como um coro gospel, ou como um coro de tragédia grega, acentuando a sensação de que o presente cantado tinha raízes fundas no tempo. PJ Harvey não pegou na guitarra uma única vez, substituindo-a pelo saxofone que dardejava notas sobre as melodias e sobre as tarolas rufadas como marcha assombrada, acentuando o ambiente fantasmagórico vivido durante todo o concerto. The Hope Six Demolition Project foi, como não podia deixar de ser, o centro de tudo. PJ Harvey só se afastou dele para recuperar os longínquos To bring you my love e Down by the water ou The words that maketh murder, do antecessor Let England Shake.
“A julgar pelo alinhamento dos últimos concertos da digressão, em Itália, essa estrutura manter-se-á razoavelmente inalterada na apresentação portuguesa, em nome próprio, de The Hope Six Demolition Project. Não se espere, portanto, uma celebração de carreira, uma visita guiada ao percurso iniciado por PJ Harvey em 1992, com Dry. Polly Jean tem coisas muito importantes a dizer e quer mostrá-las sem distracções. A julgar pelo extraordinário concerto de Junho, onde surgiu acompanhada, por exemplo, pelos habituais cúmplices Mick Harvey ou John Parish, resta-nos ouvi-la muito atentamente”.

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