quinta-feira, 27 de março de 2014

Respigo da Semana: Euro e Democracia : ou mais argumentos para a abstenção nas Eleições Europeias:

Neste artigo, escrito por dois reputados articulistas, conhecedores da realidade europeia, demonstra-se que a criação do Euro foi a maior asneira na história de União Europeia e que a única hipótese de salvação para países como Portugal seria negociar a nossa saída dessa malfadada moeda, apenas feita para beneficiar a Alemanha e os especulativos meios financeiros.
Em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu era isto que todos devíamos estar a discutir.
Mais uma razão para nem sequer me dar ao trabalho de ir votar no dia das eleições europeias...

"Euro e democracia

Por Stefan de Vylder  (1) e Jack Soifer (2)

In Público 13/03/2014

“A criação do euro foi o maior erro da política económica pós-guerra. Os países em crise estão num desastre económico, político e humano. O melhor seria a Alemanha sair do euro. O provável é a saída dos PIIGS, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Isto é melhor do que a gestão de crises liderada por uma troika não eleita, odiada pela população da UE.

“Após três anos de recessão, o PIB da zona euro (ZE) parou de cair. Mas há pouca esperança na economia real, produção e emprego. Nos países mais afetados, Grécia, Espanha e Portugal, há declínio. O PIB da Grécia é 25% mais baixo do que em 2007, e não melhora. Na Grécia e Espanha, o desemprego real supera os 25%.

“O Eurostat diz que em Portugal há 89 candidatos para cada trabalho; Espanha, 71; Irlanda, 31. O custo do trabalho cai, mas o total aumenta. É o custo de contexto, de energia, cartéis, taxas e da burocracia fiscal que faz o dono de PME perder tempo, em vez de vender mais. O pacote da troika reduziu salários, pensões e subsídios, o que afetou a procura interna e não só.

“Os efeitos do desemprego jovem são difíceis de medir. Não entrar no mercado de trabalho, ou aceitar emprego não qualificado sem benefício da sua formação, é perda humana e económica. A qualificação hoje é perecível. Jovens qualificados de Espanha e Portugal saem para as ex-colónias na América Latina e África, e de todos os países em crise para a Alemanha, Reino Unido, Suécia e Noruega. É o brain-drain. Em 2013 saíram de Portugal 121 mil técnicos e especialistas. Dos enfermeiros formados em 2012 e 2013, 90% estão a emigrar.

“A natalidade nos PIIGS caiu muito; na Itália, Espanha, Portugal e Grécia, é hoje de 1,5 filhos/mulher. Isto é um alívio económico a curto prazo, mas com mais idosos crescem os gastos com saúde e pensões.

“À crise seguem problemas sociais. Depressão e suicídio tornaram-se comuns, e na Grécia duplicou a taxa de suicídio, que antes tinha a mais baixa da UE. Na Grécia e Espanha vimos os direitos democráticos reduzidos. O Governo espanhol propôs a Ley de Seguridad Ciudadana, que criminaliza reuniões ilegais e insultos à Espanha.

“Pode-se evitar ciclos de choque assimétrico nos países-membros. Como mobilidade de trabalho dentro e entre países, convergência de inflação e produtividade, preços e salários, uma política fiscal comum que permita apoio aos países em crise, e garantias unas aos depositantes, para evitar a fuga de capital.

“Nem todos estes requisitos precisam de ser cumpridos. Mas a UME não cumpre nenhum deles. Não houve, no início, um plano de emergência, mas sim a proibição de apoio financeiro aos países em crise e do BCE comprar títulos diretamente dos governos.

“A gestão da crise é emergencial, decidida no momento, sem ouvir os parlamentos eleitos, e num turbilhão de regras exclusivas da UME. Resolvem a crise no curto prazo, e ignoram os problemas do futuro.

“A taxa comum na UME aumentou as bolhas imobiliárias em países como a Irlanda e Espanha. Na Grécia e em Portugal os juros baixos e o euro-otimismo provocaram um consumo privado e público insustentável.

“A taxa comum traz um efeito pró-cíclico, i.e., estimula a economia dos países em boom, e aperta os em recessão. Quanto maior for a inflação num país, e quanto mais a economia precisa de abrandar, menor a taxa real de juros. E vice-versa, quando a economia deve ser estimulada. É a perversidade inerente a uma união monetária.

“Cresce o diferencial das taxas de juros entre os países na periferia da ZE e os centrais em torno da Alemanha. Apesar de o BCE emprestar a todos os países à uma taxa baixa, a que as empresas e as famílias pagam é alta.

“Os países com boa economia têm hoje taxas menores do que antes da crise. A liquidez nos seus bancos subiu com a fuga de capitais dos PIIGS. Estes tomaram emprestado a juros baixos, o que baixou a competitividade. Entre 1999 e 2008, o custo por unidade nos PIIGS subiu 20-35% em relação à Alemanha.

“Seria bom acordar num sábado e ouvir que alguns países saíram do euro e as bolsas e bancos do mundo estão fechados; que já existem novas notas e reprogramaram as caixas eletrónicas. Ouvir que o FMI, BCE e bancos centrais nacionais da UE impuseram controlo temporário à banca e apoiam o acesso à moeda estrangeira em alguns países.

“Mas nenhum chanceler alemão quer ir para a história como aquele que afundou o euro. Muito prestígio político foi investido. A exportação alemã beneficiou dos países em crise, com a taxa de câmbio baixa. O operário alemão merece que valorizem o marco, que traria um melhor salário real; isso equilibraria a competitividade externa na UE.

“A valorização do euro com economias fortes é péssimo para quem tem dívidas em euro. Os PIIGS não podem pagá-las. São valores em relação às suas economias maiores do que as reparações alemãs do pós-guerra. A alternativa é abater a dívida em 50% e alongar o prazo para 50 anos. Outra é trocar parte da dívida em crédito a longo prazo e juros do BCE para adquirir bens e serviços nos PIIGS, o que elevaria a competitividade empresarial destes”.

1 .Ex-presidente do Fórum Sueco de Desenvolvimento, autor de uma vintena de livros em inglês e sueco, ex-professor da Stockholm School of Economics;

2 . Consultor internacional, autor dos livros Como Sair da Crise, Portugal Rural e Ontem e Hoje na Economia

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