segunda-feira, 7 de outubro de 2013

“À Procura de Sugar Man” - Um documentário sobre a integridade



INTEGRIDADE : esta é uma palavra que escasseia no discurso político, no discurso jornalístico e no discurso cultural dos nosso dias.

“À Procura de Sugar Man”, de Malik Bendjelloui  é um documentário sobre o modo como se podem conjugar a  integridade, os valores e o talento numa sociedade marcada pelo espectáculo constante, pelo carreirismo a toda o custo e pela falta de respeito pelo ser humano.

O documentário, que ganhou o óscar, conta-nos a fabulosa história de Sixto Rodriguez, um talentoso musico que gravou dois álbuns entre 1968 e 1970 e que desapareceu tão depressa como apareceu.

Por um acaso da história, um dos seus álbuns chegou à África do Sul na época do apartheid e o talento da sua musica e a crueza esclarecida das suas letras representaram uma lufada de ar fresco, entre a jovem comunidade branca que não se sentia bem naquela regime.

As músicas de Rodriguez começaram a circular clandestinamente entre grupos de jovens brancos contestatários e o seu nome tornou-se tão famoso, na África do Sul, como um Bob Dylan ou os The Beatles.

Contudo ninguém sabia do paradeiro de Rodriguez e circulavam as mais incríveis lendas, tudo apontando para a sua morte trágica e precoce.

Com o fim do regime do apartheid  cresceu a curiosidade sobre o destino do musico.

 O filme retracta exactamente a investigação que alguns fãs de Rodriguez levaram a efeito, conduzindo-os a um desfecho imprevisível. 

Afinal Rodriguez estava vivo, morando num subúrbio da decadente cidade norte-americana de Detroit.

E o contacto com Rodriguez revelou um homem que nunca se interessou pela fama ou pelo êxito, consciente do seu talento, mas que levou uma vida simples, trabalhando na construção civil, tendo tirado um curso de filosofia, tendo criado três filhas a quem proporcionou cursos universitários e a quem ensinou, ao longo da vida, os valores da integridade e da cultura, mas que desconhecia o êxito e a importância que ainda hoje tem na África do Sul.

Na África do Sul, depois de o descobrirem  na década de 90, realizou mais de trinta concertos, enchendo estádios e grandes salas de espectáculo.

Mas o êxito que ele descobriu que tinha naquele país africano, duas décadas depois de ter deixado de editar musica, não o deixou deslumbrado, viu tudo aquilo com muita curiosidade e lucidez, doou todo o dinheiro que obteve como os concertos e continua a viver na velha casa de sempre, procurando continuar a viver a vida simples e anónima  que sempre levou em Detroit.

A fama nunca o atraiu e, contudo, teve-a à mão, pois a sua musica é de uma qualidade intemporal e as suas letra são de um profundidade avassaladora.

Talvez que a  crueza dos seus temas não se adaptasse ao optimismo dos anos 60.

Mas Rodriguez também nada fez para obter essa fama. Fez uma opção consciente. 

Entre a fama ou a simplicidade e a integridade da sua vida, preferiu a segunda opção. Quando no filme alguém o questiona sobre a oportunidade  que deixou escapar, sobre se não achava que podia ter tido uma vida “melhor” ele acrescentou “melhor…ou não!”.

Quando vivemos num mundo onde as pessoas estão viciadas no êxito fácil, tudo fazem para os seus quinze minutos de fama, onde, parafraseando uma personagem de Woody Allen, se é famoso por ser famoso, onde a comunicação social , principalmente a televisiva, promove a mediocridade em todas as áreas, a história da vida de Rodriguez é um edificante história humana, que nos faz recupera a esperança na humanidade.

…como eu percebo Rodriguez!

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